Abel Rocha: maestro, professor e o festival com 160 eventos em 11 dias
Abel Rocha é uma daquelas pessoas que acumulam funções de um jeito que parece impossível. Regente, professor, diretor de festival, membro de fóruns nacionais: a lista não para. E o mais curioso é que nada disso foi planejado. Ele mesmo admite que nunca teve o sonho de ser maestro.
A conversa com Jean de Oliveira começou justamente por aí: por tudo que Abel Rocha faz hoje, e por como chegou até aqui.
Um currículo que impressiona
Abel Rocha é regente da Orquestra Sinfônica de Santo André desde 2014. Também é professor de ópera e regência na Unesp desde 1998 e diretor da Oficina de Música de Curitiba desde 2018. Além disso, dá aulas na Fundação Carlos Gomes, em Belém do Pará, onde vai quatro vezes por ano para oficinas e masterclasses.
Ele ainda integra a diretoria do Fórum Brasileiro de Ópera, Dança e Música de Concerto, grupo que nasceu durante a pandemia para discutir o futuro da música no Brasil.
A Oficina de Música de Curitiba: 160 eventos em 11 dias
A Oficina de Música de Curitiba foi o tema central da conversa. Jean conhece o festival de perto: foi lá assistir Carmen de los Santos tocar os 24 Caprichos de Paganini e ficou impressionado com a amplitude da programação.
E não é para menos. Em 11 dias de festival, a Oficina oferece em média 160 eventos abertos ao público. Isso sem contar aulas, ensaios e preparações internas. São concertos em parques, capelas, espaços culturais, no cinema e até em coretos espalhados pela cidade.
A Oficina abrange música erudita, música popular e música antiga. Quando Abel assumiu a direção, em 2018, uma das primeiras decisões foi unificar tudo num único período. Antes, cada linguagem tinha seus dias separados. A mudança parecia arriscada, mas fez sentido: o público de música antiga não precisa ser o mesmo da música popular, e tudo pode coexistir.
Como ele explicou, a divisão em categorias existe só para organizar o site. Quem toca não toca nota de um jeito diferente dependendo do estilo. A música é a mesma.
Três curadores, muitas linguagens
Abel cuida da curadoria da música erudita. João Egashira é responsável pela música popular e Rodolfo Richter pela música antiga. Os três se reúnem para montar a grande programação do festival.
Uma das tradições criadas em 2018 foi um passeio de bicicleta por parques da cidade, com paradas para apresentações musicais ao longo do caminho. Quem quiser pode ir só às apresentações. Quem quiser pedalar pela cidade pode fazer isso também. É uma das formas que o festival encontrou de ocupar os espaços públicos de Curitiba de maneira criativa.
O cinema também entrou na programação. Desde que o Cinepasseio passou a ser administrado pelo Instituto de Cultura e Arte de Curitiba, o espaço virou sala de aula e palco ao mesmo tempo. Já houve até um curso de improvisação musical para cinema mudo, com alunos tocando ao vivo enquanto o filme passava.
”Nunca quis ser maestro”
Essa frase saiu naturalmente durante a conversa. Abel Rocha não tinha o sonho de reger. Não ficava olhando para o pódio pensando em chegar lá um dia.
Tudo começou no canto coral, quando estudava na Escola Técnica Federal de São Paulo, no Canindé. Os alunos podiam escolher entre atividades artísticas: teatro ou coral. Ele foi para o coral e se encantou com o processo. Ver um grupo de pessoas, uma série de pontinhos negros numa partitura, e transformar tudo isso em algo que chegasse à plateia foi o que o fisgou.
Depois do colegial, ele e amigos do coral mantiveram a atividade por conta própria. Foi nesse período que decidiu prestar vestibular para música, sem saber ainda exatamente para qual caminho seguiria.
Piano na cartolina e a família que apoiou
Antes do coral, houve o piano. Abel cresceu no Brás, bairro de muitos imigrantes italianos em São Paulo. A vizinha, Lia, era de uma família italiana e tocava piano. Um dia, ainda criança, Abel foi até a casa dela, sentou no colo dela e apertou algumas teclas. Chegou em casa e anunciou ao pai que estava tendo aulas de piano.
O pai, que veio do interior da Bahia e tinha formação só até o quarto ano primário, ficou emocionado. E, como não tinha piano em casa, desenhou um na cartolina. Abel aprendeu as primeiras noções em cima de um teclado de papel na mesa da cozinha.
Logo depois, o pai comprou um piano de outra vizinha italiana, Dona Brasilina, e as aulas de verdade começaram. Era o tipo de apoio discreto e firme que muitas vezes define o rumo de uma vida.
A mãe era professora, filha de portugueses, e coordenadora pedagógica de escolas. O ambiente em casa era de valorização do estudo e da formação. Quando Abel decidiu cursar música, não encontrou resistência.
A aceitação total veio em 1982, quando o coral do qual ele fazia parte participou do especial de Natal do Roberto Carlos na TV Globo. Apareceu na Globo fazendo música? Então estava ótimo.
A Unesp e o curso que formou de tudo
Abel fez Composição e Regência na Unesp, não porque fosse sua primeira escolha, mas porque era o único caminho disponível. Na época em que ingressou, a Unesp oferecia bacharelado em piano, violino e percussão. Qualquer outro instrumentista, inclusive músicos populares, cursava Composição e Regência.
Era uma classe diversa. Baldo Versolato, Carmen Garcia, João Maurício Galindo, todos passaram por ali. Era o curso que você escolhia quando não tocava piano, violino nem percussão. Com o tempo, a universidade foi abrindo outros cursos, mas aquela turma misturada deixou uma marca.
O primeiro trabalho regular veio cedo. Ainda na faculdade, Abel cantava no coral do Colégio Música de São Paulo, sob direção de Roberto J. Norberg. Norberg era diretor do Conservatório Dramático Musical de São Paulo e levou pessoas do seu círculo para lecionar lá. Abel começou a dar aulas antes mesmo de se formar, com menos de 22 anos.
Uma trajetória construída no processo
O que fica da conversa com Abel Rocha é a ideia de que grandes trajetórias raramente seguem um plano. Ele não escolheu a regência: a regência foi chegando, por acúmulo de experiências, de funções assumidas, de convites aceitos.
O mesmo vale para a Oficina de Curitiba. O festival que hoje movimenta uma cidade inteira por 11 dias foi construído decisão por decisão, edição por edição, parceria por parceria.
E se há uma lição que Abel carrega desde o piano na cartolina é que o início não precisa ser perfeito. Precisa ser real.
Ouça o episódio completo no YouTube: ABEL ROCHA - Podcast do Violino Didático #103