Alejandro Drago: violino, composição e os mistérios de Buenos Aires
Alejandro Drago é violinista, violista, compositor e regente argentino radicado há 20 anos nos Estados Unidos. É professor de violino, viola e música de câmara na Universidade do Dakota do Norte, e rege a Orquestra Sinfônica de Grand Forks há mais de uma década. Com uma trajetória que passa por Buenos Aires, São Paulo, Rússia e os quatro cantos do mundo, ele é um dos nomes mais completos da música clássica contemporânea.
Foi também o primeiro grande nome a confiar no projeto do Violino Didático. Por isso, Jean de Oliveira o recebeu com palavras carregadas de gratidão: uma presença histórica no podcast, que chegou a Cotia diretamente de um ensaio com o Quarteto da Cidade de São Paulo.
Um argentino que passou pela infância em São Paulo
Poucos sabem, mas Drago tem uma relação afetiva com o Brasil que começa ainda na meninice. Seu pai veio trabalhar em São Paulo, e a família viveu aqui por três ou quatro anos. Foi nesse período que ele aprendeu português e absorveu a cultura brasileira de um jeito bem peculiar: lendo gibis do Mickey e personagens da Disney em português.
Depois que os pais se separaram, ele voltou a Buenos Aires com a mãe. Mas o Brasil nunca saiu de cena. Ele continuou visitando o pai, construiu laços com músicos brasileiros e, ao longo dos anos, voltou diversas vezes para tocar e ensinar por aqui.
Uma vida dedicada ao violino, à sala de aula e à regência
Hoje, a rotina de Drago nos Estados Unidos é intensa. Na universidade, ele leciona violino e viola em nível de bacharelado e mestrado, coordena um programa especial de quarteto de cordas com bolsas para alunos talentosos, dirige a orquestra de câmara da instituição e ainda ministra uma disciplina de pedagogia do violino.
Fora do campus, ele rege a Orquestra Sinfônica de Grand Forks há dez anos. E, como ele mesmo brinca, a cidade fica no extremo norte dos EUA: no verão, o sol nasce às cinco da manhã e só se põe perto das onze da noite. No inverno, é o oposto.
Entre seus alunos brasileiros, ele cita com orgulho o violista Mário Batista, de Curitiba, e Vinícius Santana, que hoje constrói uma carreira sólida na região de Wisconsin.
Da composição escondida ao concerto que veio ao mundo
Por anos, Drago compôs música em silêncio. Ele escrevia, guardava, e não mostrava nada a ninguém. Era como um hobby carregado de vergonha, segundo ele mesmo contou. Tudo mudou em 2011, numa conversa com o maestro Miguel Harth-Bedoya, nome que já regeu a Chicago Symphony, a New York Symphony e a Los Angeles Symphony.
Foi Harth-Bedoya quem disse diretamente: você tem todos os elementos, agora é hora de escrever sua própria música. Aquela frase foi o gatilho que faltava.
A virada coincidiu com um momento muito pessoal: o nascimento de sua segunda filha, Mila. Tomado pelas questões que a paternidade traz, Drago começou a pensar em como transmitir aos filhos tudo aquilo que ele viveu em Buenos Aires, numa cidade e numa cultura que eles jamais conheceriam da mesma forma.
Mistérios de Buenos Aires: uma carta musical para os filhos
Foi nesse contexto que nasceu o concerto para violino e orquestra sinfônica intitulado “Mistérios de Buenos Aires”. O título vem de uma figura da Grécia Antiga: o mistagogo, o escravo encarregado de introduzir as crianças aos mistérios dos deuses. Não no sentido de algo oculto ou sombrio, mas de um conhecimento que só se alcança com o tempo, com a experiência, com alguém que guia.
O concerto tem três movimentos, cada um com sua própria temática.
O primeiro, chamado “O Centro”, retrata o pulso permanente do centro de Buenos Aires, uma cidade que não dorme. Drago descreve como viveu esse espaço de formas completamente diferentes ao longo da vida: como menino acompanhando a mãe aos espetáculos de tango, depois como adolescente saindo com os amigos, e mais tarde como jovem adulto trabalhando e estudando.
O segundo movimento, “Amor e Morte”, gira em torno de uma praça perto da estação de trem Nuñez. É uma reflexão sobre as primeiras grandes descobertas da infância: o fim de um amor que parece o fim do mundo, e a percepção gradual da mortalidade. Ele conta que observou seus próprios filhos passando por esse processo e reagindo de formas muito diferentes.
O terceiro movimento trata da dança. Filho de uma bailarina profissional de folclore e tango, Drago cresceu rodeado pela dança, mas nunca havia se interessado em praticá-la. Só quando começou a carreira internacional e percebeu que não conseguia mostrar o tango no corpo, foi que decidiu pedir à mãe que o ensinasse. Um momento de humildade e reconexão com suas raízes.
A estreia do concerto aconteceu em Fort Lauderdale, em 2013. Logo depois, a versão europeia foi apresentada pelo violinista Evgeni Boukoff em Minsk, na Bielo-Rússia. A gravação dessa apresentação está disponível no SoundCloud de Alejandro Drago.
O que define um compositor, além da técnica
Em um dos momentos mais reflexivos da conversa, Drago falou sobre o que realmente faz alguém ser compositor. Para ele, são três perguntas fundamentais: o que você quer dizer, para quem está falando e qual experiência você espera provocar no ouvinte. Quando essas respostas estão claras, o resto é técnica, e técnica se aprende.
Ele fez questão de conectar esse raciocínio ao violino: a técnica instrumental é essencial, mas ela não define a atividade. Ela serve para empacotar e direcionar algo muito maior, que é o que o músico tem a dizer.
É um ponto de vista que ressoa com a própria filosofia do Violino Didático: a técnica está a serviço da expressão, não o contrário.
Uma parceria que começou antes de tudo isso
O que torna esse encontro ainda mais especial é a história por trás dele. Alejandro Drago foi o primeiro grande nome a apostar no Violino Didático quando o projeto ainda engatinhava. Antes dos mais de 130 episódios do podcast, antes dos cursos e dos milhares de alunos, já havia uma conversa entre ele e Jean de Oliveira, disponível no canal do YouTube desde 2017.
Ver esse mesmo professor retornar anos depois, em Cotia, vindo direto de um ensaio com um dos melhores quartetos de cordas do Brasil, diz muito sobre a consistência de uma amizade construída sobre o amor ao violino.
Ouça o episódio completo no YouTube: ALEJANDRO DRAGO - Podcast do Violino Didático #075