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Alessandro Borgomanero: o violinista que veio da Europa para transformar o ensino no Brasil

Podcast Violino Didático

Alessandro Borgomanero é um nome que dispensa apresentações no mundo do violino brasileiro. Professor da Universidade Federal de Goiás desde 1997, com 13 anos de Europa entre estudos e trabalho, ele é uma das figuras mais respeitadas do instrumento no país. E, por acaso, é também um dos violinistas mais altos do Brasil, com seus 1,92 m.

Foi com essa mistura de leveza e profundidade que Alessandro conversou com Jean de Oliveira numa manhã de domingo em Cotia. O resultado foi uma conversa longa, rica em memórias e opiniões francas sobre o ensino do violino, a realidade brasileira e uma trajetória de vida que começa na Itália, passa pela Bulgária e desemboca em Goiânia.

Uma infância em três países e um violino que veio da Bulgária

Alessandro nasceu em Roma. Filho de pai italiano e mãe alemã, ele chegou ao Brasil com 7 anos, quando seu pai, diplomata, foi transferido para Curitiba. Mas antes disso, passou dois anos em Sófia, capital da Bulgária, onde teve seus primeiros contatos com o violino.

Foi lá, numa escola búlgara reconhecida pela qualidade, que ele segurou o instrumento pela primeira vez. A família valorizava a música: o pai tocava violino como amador, os avós também tocavam, e a mãe, grande apreciadora da arte, queria que o filho tivesse a música como parte da formação, independentemente do que ele fosse fazer da vida.

Quando chegou a Curitiba sem falar uma palavra de português, Alessandro encontrou um campo de futebol na frente de casa e meninos dispostos a jogar bola. Em dois meses, já se comunicava. O búlgaro foi esquecido. O português ficou.

Dona Yegar e os primeiros passos em Curitiba

Com o violino já iniciado na Bulgária, Alessandro continuou os estudos em Curitiba com Dona Yegar Martins, uma professora que ele descreve como uma mulher incrível. Ela tinha uma classe de violino que marcou gerações: praticamente todo violinista que passou por Curitiba estudou com ela ou com algum aluno seu, e muitos passaram pela orquestra juvenil que ela regia.

Essa referência localizada era, na época, a realidade do Brasil. Alessandro lembra bem: nos anos 80, o país tinha apenas seis ou sete violinistas com formação europeia, todos concentrados no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Quem quisesse estudar a sério precisava viajar. Ele mesmo enfrentou esse desafio durante anos.

O Brasil de hoje versus o Brasil dos anos 80

Uma das reflexões mais marcantes da conversa foi justamente sobre essa transformação. Alessandro viveu os dois momentos: o Brasil escasso em professores de violino e o Brasil de hoje, com uma rede muito mais ampla de festivais, universidades e profissionais espalhados pelo país.

Ele foi direto: a melhora é enorme. Festivais como FEMUSC, Campos do Jordão, Ouro Branco, Civebra, Oficina de Música em Curitiba e os festivais do nordeste, como Garanhuns e Gravatá, criaram um circuito que antes simplesmente não existia. Alessandro participa ativamente desse circuito há décadas, e nos últimos 10 anos tem estado presente todos os anos no festival Bravíssimo, em São Paulo.

Ao mesmo tempo, ele reconhece que ainda existe uma bolha. Fora dos grandes centros, a realidade pode ser o professor de saxofone dando aula de violino, ou o músico local que faz bico como professor sem formação para isso. Jean concordou: boa parte do Brasil ainda não tem acesso a um professor de violino de qualidade de forma presencial.

Aulas online: recurso valioso, mas com limites claros

O tema das aulas online gerou um dos trechos mais sinceros da conversa. Alessandro contou que, durante a pandemia, tentou dar aulas pelo computador e acabou desistindo. A frustração era grande: o som comprimido das chamadas impedia qualquer trabalho de dinâmica, fraseado ou postura de arco.

Ele chegou a voltar para as aulas presenciais, mesmo contra as recomendações da universidade, adaptando a sala para manter as distâncias exigidas. Para ele, uma aula individual de violino com estante no meio e distância adequada era preferível a continuar com a qualidade limitada do online.

Jean trouxe uma perspectiva complementar. No Violino Didático, a experiência mostrou que vídeos gravados e enviados para feedback funcionam muito melhor do que chamadas ao vivo. A qualidade de áudio de um vídeo gravado no celular é significativamente superior à de uma chamada de vídeo. Além disso, o aluno grava no seu tempo, o professor responde no seu tempo.

Os dois chegaram a um ponto de concordância: aula presencial, quando possível, é sempre a melhor opção. O online é um recurso, especialmente para quem mora longe de professores qualificados. Mas começar do zero apenas com aulas síncronas online deixa muito a desejar.

13 anos na Europa e o retorno ao Brasil

Depois de Curitiba, Alessandro foi para a Europa, onde passou 13 anos entre estudos e trabalho. O retorno ao Brasil, em 1997, foi motivado pela oportunidade na Universidade Federal de Goiás, e foi em Goiânia que ele encontrou sua esposa Juliana e fincou raízes.

Além da universidade, ele se envolveu durante anos com as orquestras do estado, participando da transformação da Orquestra de Câmara Goiás em Filarmônica. Foram cerca de 10 anos nesse projeto, com algumas interrupções, entre 2003 e 2018.

Hoje, sua rotina divide-se entre a docência na UFG, a participação em festivais de todo o Brasil e o trabalho com jovens violinistas, que ele descreve como algo que o chama especialmente. A rotatividade de professores nos festivais é algo que ele defende com convicção: o aluno que estuda com diferentes mestres ao longo dos anos tem uma formação mais rica e diversa.

Uma trajetória que fala mais alto que qualquer título

O que fica depois da conversa com Alessandro Borgomanero é a imagem de alguém que viveu o violino de dentro para fora: como filho de família musical, como menino estrangeiro aprendendo línguas e notas ao mesmo tempo, como estudante que atravessou oceanos atrás de formação e como professor que escolheu o Brasil para construir sua vida.

Ele representa bem o que Jean gosta de mostrar no podcast: que o violino tem caminhos inesperados, que a trajetória importa tanto quanto a técnica, e que o Brasil, com todas as suas desigualdades de acesso, segue produzindo e atraindo gente extraordinária.

Ouça o episódio completo no YouTube: ALESSANDRO BORGOMANERO - Podcast do Violino Didático #081

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