Amanda Mathias: de Aparecida do Norte ao violino profissional
Amanda Mathias chegou em São Paulo com R$ 200, uma mala e um violino. Sem dinheiro para pagar aluguel e sem conhecer ninguém na cidade, ela dormia escondida nos fundos do Instituto Baccarelli. Mas não voltou para casa. Essa é a história de uma violinista que escolheu o instrumento com 16 anos e nunca mais largou.
Conhecida como Nana Mathias, como “chefe da máfia dos violinos” e como “senhorita didática”, Amanda hoje é professora do Violino Didático e toca ao lado de grandes nomes da música brasileira. Mas a trajetória que chegou até aí passou por coragem, foco e uma boa dose de obstinação.
O violino que ela viu pela janelinha
Amanda cresceu em Aparecida do Norte, a cidade da Basílica. Adolescente ativa, ela fazia balé, teatro, canto e andava de skate. Quando sua família a inscreveu no Projeto Pequenos Músicos do Santuário de Aparecida, era mais uma atividade para ocupar a cabeça.
Só que não tinha vaga para violino. Ela entrou no canto coral, e nos momentos livres começou a estudar contrabaixo, porque ninguém queria tocar aquele instrumento gigante. Foi então que, passando na frente de uma sala com uma pequenininha janela quadrada, ela viu um professor tocando a Sonata número 1 de Bach.
Foi a primeira vez que Amanda ouviu um violino de perto. Aquilo mexeu com ela de um jeito que ela não esperava. Logo pensou: é pequeno, dá para carregar, dá para levar para qualquer lugar. Pediu uma vaga. Mas havia uma condição: entrar no meio do ano e chegar ao mesmo nível da turma que já estava estudando.
Seis meses, um concerto e uma prova sem saber afinar
Amanda soube que havia uma audição para a Orquestra Sinfônica Jovem de Taubaté. Os músicos do projeto que ela frequentava tocavam lá e recebiam bolsa. Para uma adolescente que já trabalhava como empacotadora de revistas na Basílica, aquilo soou como uma oportunidade real.
Ela entrou no violino já com esse objetivo em mente. Tinha seis meses para se preparar para a audição. As aulas oficiais eram três vezes por semana, em grupo. Mas sua professora no projeto, Cristiane Silva, abria mão do horário de almoço para dar aula extra a quem queria se preparar para o concurso.
O repertório foi o Concerto em Sol Maior de Vivaldi. E quando chegou o dia da audição, Amanda encarou a banca e pediu para um dos jurados afinar o seu violino, porque ela ainda não sabia fazer isso. O jurado achou graça. Ela tocou o concerto. E entrou na orquestra.
Com isso, passou a tocar em duas orquestras ao mesmo tempo: a do projeto em Aparecida e a Jovem de Taubaté.
O festival que abriu a cabeça
Em 2008, com apenas um ano de violino, Amanda foi para o Festival de Música nas Montanhas, em Poços de Caldas. Também foi a Juiz de Fora e a outros festivais. E aquilo mudou algo dentro dela.
Ela conheceu pessoas que pensavam como ela, que queriam crescer no instrumento, que queriam fazer da música uma carreira. Em um desses encontros, conheceu meninas de São Paulo que estavam alugando uma casa no Jabaquara.
Quando voltou para Aparecida, já havia tomado a decisão. Arrumou as malas, foi até a mãe e disse: “Tô indo embora para São Paulo. Tem uma prova no Instituto Baccarelli. Quero essa vaga. É isso que eu quero pra minha vida.”
Ela tinha 17 anos.
R$ 200, uma mala e um violino
Amanda chegou a São Paulo e foi direto ao Baccarelli. Só que a prova tinha acabado de encerrar. Desesperada, foi até a secretaria e pediu pelo amor de Deus uma chance, explicando que tinha vindo de outra cidade. Eles concordaram em ouvi-la em outro dia.
Enquanto isso, o dinheiro acabou. O mês passou e ela não podia mais dividir a casa com as colegas. A bolsa da orquestra ainda não havia caído, porque funciona como um trabalho normal: primeiro você toca os 30 dias, depois recebe.
Fosse ligar para a mãe naquele momento, a resposta seria simples: volta para casa. Mas Amanda não quis. Ela jogou fora o que não cabia, ficou com uma mala e o violino, e começou a chegar cedo ao Baccarelli todos os dias. Deixava a mala na sala de instrumentos com a funcionária que trabalhava lá. Ia até os banheiros nos fundos do salão, se higienizava, trocava de roupa. Depois saía, dava uma volta pelo bairro, e voltava na hora do ensaio como se tivesse acabado de chegar.
Seu Jorge, da equipe do instituto, sabia o que estava acontecendo. E não disse nada.
De volta ao palco, anos depois
Hoje Amanda Mathias viaja o Brasil inteiro acompanhando artistas como Toquinho, João Bosco, Paula Lima, Daniel e Chitãozinho e Xororó. Quem prestar atenção em alguns DVDs desses shows pode notar uma ruiva no naipe de cordas. Pode ser ela.
A professora que Jean de Oliveira apresenta no primeiro episódio do Podcast do Violino Didático é a mesma menina que, lá em Aparecida, ficou parada na frente de uma janelininha e se apaixonou pelo som que saía dali. Ela carrega esse instrumento há 16 anos, de Aparecida a São Paulo, de São Paulo para o país inteiro.
Sua trajetória lembra que o caminho de quem escolhe o violino raramente é fácil ou linear. Mas também lembra que obstinação, mesmo nos momentos mais difíceis, pode ser o que separa quem desiste de quem chega lá.
Ouça o episódio completo no YouTube: AMANDA MATHIAS - Podcast do Violino Didático #001