Ana Cardon: violino, música irlandesa e identidade musical
A convidada que veio de longe, literalmente
Cotia fica a uns 40 minutos de São Paulo num fim de semana tranquilo. Ana Cardon fez esse trajeto para gravar com Jean de Oliveira, e a conversa valeu cada minuto da viagem.
Ana é professora de violino, violoncelo e viola, mas ficou conhecida por algo bem específico: é considerada a maior referência de música tradicional irlandesa no Brasil. Jean a apresentou com aquele entusiasmo típico de quem sabe que está diante de alguém fora do comum.
Música celta ou música tradicional irlandesa?
Logode cara, Ana fez uma correção que diz muito sobre ela. Muita gente usa o termo “música celta” para nomear esse universo, mas ela prefere “música tradicional irlandesa” ou “músicas tradicionais daquela região”.
Pequeno detalhe, diferença enorme. Quem trabalha com seriedade em qualquer área sabe que nomenclatura importa, e Ana deixou isso claro antes mesmo de contar sua história.
Uma trajetória cheia de acasos bem aproveitados
Ana nasceu em Curitiba, tem formação em Biologia (isso mesmo, se formou de verdade) e começou no canto lírico aos 11 anos. O violino veio depois, por influência do pai, que tocava quando criança, e de uma avó pianista.
Mas o instrumento que ela queria mesmo era o violoncelo. A história de como ela chegou a essa conclusão é uma das mais bonitas da conversa.
Com 11 anos, ela foi cantar com a Orquestra Sinfônica do Paraná. O ensaio acontecia num porão do Teatro Guaíra, um lugar labiríntico, cheio de figurinos e adereços de peça, com cheiro de mofo e sem janelas. Ela entrou naquele ambiente estranho e se deparou com a orquestra afinando.
O som das quintas paralelas dos instrumentos de cordas a colocou num estado que ela descreve como transe. Ela olhou e soube: era aquilo. Só que o instrumento que chamou a atenção naquele momento foi o violoncelo, não o violino.
O pai, o violino e a lógica da mochila escolar
Quando Ana pediu para estudar violoncelo, o pai ponderou de um jeito bastante pragmático. Com duas casas para circular, uniforme de escola, livros e toda a logística de uma criança, carregar um violoncelo seria complicado demais.
A solução foi o violino, mais portátil e mais fácil de transportar. Ana aceitou, mas nunca abandonou a ideia de tocar violoncelo. Esse sonho foi guardado por anos, até ser realizado já na fase adulta, quando ela morava na Irlanda e dava aulas numa escola de música.
O episódio em que ela abordou um professor que não a conhecia e disse “você vai me dar aula” é digno de nota. Ele virou seu professor. E quando ela finalmente tocou para ele, ainda no início das aulas, ele ficou espantado com o som que saía de um violoncelo escolar e barato.
A explicação dela para esse fenômeno é simples e poderosa: “Eu sou violoncelista. Só falta eu aprender a tocar.”
O método Suzuki e os preconceitos que ainda existem
Ana começou violino pelo método Suzuki. Quando mencionou isso, Jean reagiu do jeito que costuma fazer: com uma crítica irônica às pessoas que ainda hoje diminuem o método.
Ela mesma carrega um certo peso em relação à sua formação. Ao lado de violinistas com trajetória mais tradicional no repertório clássico, sente que talvez “toque menos” do que eles. Jean foi direto: quem ainda pensa que Suzuki é inferior em 2024 “passa vergonha”.
Os dois são professores formados no método. E os dois constroem carreiras sólidas a partir dessa base.
Da biologia às bandas de pub
A entrada no mundo da música irlandesa foi, nas palavras dela, “totalmente acidental”. Ela queria tocar em banda, mas violino não era o instrumento mais convocado para isso nos anos 2000. Enquanto esperava algum chamado, foi convidada para cantar como participação especial numa banda de Curitiba chamada K-Toy, referência no universo celta do Sul do Brasil.
De lá, outros projetos foram surgindo. Ela tocou em bares irlandeses e pubs, conheceu a cena de bandas que misturavam influências do rock alternativo e do punk com o folk irlandês, e foi sendo chamada para colaborações diversas.
Um dos marcos foi substituir um violinista em um show da banda Gato Preto (hoje Confraria da Costa) num festival de grande porte no Sul do Brasil. Tudo foi acontecendo naturalmente, sem um plano definido.
Violino elétrico, metal e a cena do Sul
A história de Ana não é a de alguém que tocou num pub e ficou só nisso. Ela mergulhou fundo. Quando a sua banda de música celta quis fazer uma formação mais voltada ao metal, ela entrou com um violino elétrico, instrumento que chamou de “Niv” durante a conversa.
A condição que impôs foi simples: tocaria o que ela toca. Sem adaptar o instrumento ao estilo da banda, mas trazendo o seu jeito para dentro do projeto.
Essa postura diz muito sobre como ela construiu a carreira, sempre a partir de quem ela é, sem tentar encaixar o seu som em moldes prontos.
O instrumento certo para cada personalidade
Um dos momentos mais instigantes da conversa foi quando Ana falou sobre identificar, como professora, qual instrumento combina com cada aluno. Não é só uma questão física, de tamanho ou estrutura corporal. É algo que ela chama de personalidade.
Ela citou uma professora francesa com quem estagiou, que um dia olhou para uma aluna e decidiu sugerir a viola. Não porque a menina pediu, mas porque havia algo no jeito dela que a professora reconheceu como sendo de uma violista.
Ana carrega essa percepção no trabalho com os próprios alunos. E ela faz isso a partir de uma experiência pessoal muito concreta: ela sabia que era violoncelista muito antes de tocar o instrumento pela primeira vez.
Uma carreira construída entre dois hemisférios
Ao longo da conversa, fica claro que a trajetória de Ana passou por Curitiba, São Paulo, França e Irlanda. Cada lugar deixou marcas no modo como ela toca, ensina e pensa música.
Ela morou na Irlanda, deu aulas lá, tocou lá. E voltou com uma autoridade que não vem de títulos, mas de imersão real. Não há atalho para o tipo de conhecimento que ela carrega sobre música tradicional irlandesa.
Sua presença no podcast foi, mais do que uma entrevista técnica, um retrato de como uma carreira musical pode ser construída de forma inesperada, sem roteiro, mas com muita consistência.
Vale muito ouvir essa conversa
Ana Cardon é o tipo de convidado que faz o tempo passar sem que a gente perceba. São muitas camadas: a violinista, a violoncelista tardia, a professora Suzuki, a líder de banda, a bióloga que nunca deixou a música de lado.
A conversa com Jean toca em temas que vão muito além do violino: memória, identidade, pertencimento, e o que significa saber quem você é antes mesmo de ter as ferramentas para ser.
Ouça o episódio completo no YouTube: ANA CARDON - Podcast do Violino Didático #082