André Amaral: luteria, violino e paixão por instrumentos antigos
André Amaral é o tipo de pessoa que desmontava os brinquedos na infância só para entender como funcionavam. Essa curiosidade virou profissão. Hoje ele é luthier em São Paulo, trabalha com construção, restauro, ajuste e venda de instrumentos antigos, e já faz 20 anos vivendo exclusivamente da luteria.
A conversa com Jean de Oliveira no Podcast do Violino Didático revelou uma trajetória cheia de acasos felizes, professores generosos e uma relação com o violino que começou muito antes de qualquer aula.
O ateliê que apareceu num clipe de pagode
André tem seu ateliê na Rua Conselheira Brotero, em São Paulo, em frente ao Elevado Costa e Silva. O espaço tem janelas enormes, resultado de um prédio que nasceu residencial, virou comercial e hoje passou por retrofit. Essa característica chamou atenção de uma produção musical: o ateliê acabou aparecendo em um clipe do Atitude 67, com uma moça dançando na janela e, ao fundo, um modelo de Stradivarius na parede.
É um detalhe curioso, mas diz muito sobre o espaço. Um ateliê de luteria com alma e personalidade, instalado no coração de São Paulo.
Violinos antigos: o que significa, o que vale
Para André, um violino antigo é qualquer instrumento com mais de 70 anos, ou seja, fabricado antes de 1950. Esses instrumentos chegam ao Brasil com peças faltando, madeira ressecada, verniz gasto. A lógica do negócio é simples: na Europa, o custo de mão de obra para restaurar esses instrumentos é tão alto que inviabiliza economicamente a restauração. O instrumento restaurado ficaria mais caro do que um novo.
No Brasil, André consegue absorver parte desse custo, restaurar com qualidade e oferecer ao cliente final um instrumento com história e sonoridade que dificilmente um violino novo reproduz. A operação faz sentido para todos os lados.
Hoje, sua produção principal é de construção, não apenas restauro. Em média, ele fabrica de 10 a 12 instrumentos por ano.
Um violino esquecido no guarda-roupa
A história de André com o violino começa ainda na infância, quando ele assistia, todo domingo de manhã, aos Concertos para a Juventude transmitidos pela televisão. Tinha uns sete ou oito anos. A Filarmônica de Berlim aparecia na tela e ele ficava plantado na frente da TV.
Um dia descobriu um violino esquecido em casa. Era da família paterna, de origem alemã, que havia trazido o instrumento para o Brasil. Ele pediu para aprender a tocar. A mãe, já cansada de ver o filho desistir de judô, escoteiro e outras atividades, foi direta: se quisesse aprender, que se virasse.
Ele se virou.
A professora que aceitou uma horta como pagamento
André foi atrás de um professor húngaro na cidade de Lorena, no interior de São Paulo. O professor foi honesto: disse que tocava bem, mas não tinha didática para ensinar. Indicou uma professora que trabalhava com formação musical e também preparava alunos para provas de escolas militares.
Na primeira conversa, André explicou que a mãe havia dito para ele se virar. A professora ouviu a história, se tocou, e aceitou o aluno. O pagamento? Uma horta. André, que passava temporadas em sítio com o pai, sabia plantar. Trocou aulas por terra trabalhada.
Além das aulas de violino, ele ainda participava de outras aulas ministradas na casa da professora, como matemática. Era um ambiente de aprendizado circular, onde alunos mais avançados ajudavam os iniciantes.
Estudou com ela por um ano. Depois, a professora adoeceu de câncer. Antes de parar as aulas, ela o encaminhou de volta ao professor húngaro, seu Paulo, que por sua vez o direcionou para Taubaté, para estudar com o violista Jorge Kisley.
Tocar bem não é o mesmo que saber ensinar
Essa parte da conversa abriu um parênteses importante com Jean de Oliveira. O professor seu Paulo era um bom violinista, mas ele mesmo reconhecia que não sabia ensinar. Jean aproveitou para reforçar um ponto que sempre levanta: tocar e ensinar são habilidades diferentes.
Saber falar português não significa saber ensinar um japonês a falar a língua. Da mesma forma, dominar o violino não garante competência para ensinar. É por isso que o Violino Didático mantém um curso de formação para professores de violino, voltado tanto para quem quer começar a ensinar quanto para quem já ensina e quer aprimorar a prática.
O menino que fuçava nos violinos alheios
Em Taubaté, André estudou por quase dois anos. Mas já dava sinais claros de que o caminho seria a luteria, não a performance. Ele vivia mexendo nos próprios instrumentos. Certa vez, tomou uma bronca da professora porque havia soltado todos os microafinadores do violino de uma colega, tentando ajudá-la.
Era o clássico perfil de quem desmonta o carrinho para ver o que tem dentro. A diferença é que, com os violinos, ele conseguia montar de volta, e ainda melhorar.
Com dois ou três anos de estudo, surgiu a oportunidade de dar aulas no Projeto Guri. André sempre gostou de ensinar. Para assumir a vaga, precisou aprender viola de arco também, já que o professor do projeto era o famoso faz-tudo, responsável por diferentes instrumentos de corda.
Uma trajetória construída tijolo a tijolo
O que chama atenção na história de André Amaral é a consistência. Cada passo levou ao seguinte de forma orgânica: o violino esquecido no guarda-roupa, a professora que aceitou uma horta, o professor que reconheceu seus limites e o encaminhou adiante, o projeto que abriu portas para o ensino, e a luteria que, desde Tatuí, se tornou o centro de tudo.
Hoje, 20 anos depois, ele constrói até 12 instrumentos por ano, restaura violinos com mais de 70 anos de história e tem um ateliê que já foi cenário de clipe de pagode. Não é uma trajetória linear. É uma trajetória honesta.
Ouça o episódio completo no YouTube: ANDRÉ AMARAL - Podcast do Violino Didático #017