Anna Murakawa: da iniciante tardia à doutora em violino na Austrália
Anna Murakawa é doutora em performance pela Universidade de Sydney, toca na Ópera Austrália, dá aulas no Conservatório de Sydney e ainda é uma das violinistas mais criativas do Instagram brasileiro. O que poucos imaginam é que ela começou a tocar violino aos 13 anos, num projeto social em Osasco, com aulas em grupo e sem nenhum contato anterior com música clássica.
Sua história desafia tudo o que se costuma ouvir sobre o “momento certo” para começar. E é exatamente por isso que a conversa com Jean de Oliveira rendeu tanto.
Do projeto social de Osasco ao mundo
Foi um tio que trabalha na prefeitura de Osasco quem apresentou Anna ao projeto. Ele soube da iniciativa e perguntou se ela queria se inscrever. Ela foi, sem grandes expectativas, e encontrou uma bancada cheia de instrumentos.
A flauta transversal chamou atenção primeiro, pelo brilho. Mas foi o violino que a intrigou de verdade. Ela conta que sempre foi muito boa na escola, estudiosa, e pensou que aprender violino seria fácil. Não foi.
Essa dificuldade, porém, acendeu algo nela. O projeto reunia jovens de 8 a 18 anos, e as conversas no intervalo iam de física a compositores. Um mundo completamente novo se abriu, e Anna se apaixonou por ele. Logo se tornou spalla do Projeto Guri de Osasco.
”13 anos é tarde”: o preconceito que virou tese
Quando decidiu seguir carreira profissional, Anna se deparou com uma barreira bastante conhecida: a ideia de que quem começa tarde demais não tem futuro no instrumento. Esse discurso a incomodou, mas também a motivou de um jeito singular.
Ela percebeu que precisava encontrar uma forma de aprender mais em menos tempo. Essa busca virou o tema central do seu doutorado, com foco em como o cérebro aprende e como é possível otimizar o estudo sem desperdiçar energia com obstáculos desnecessários.
Na conversa com Jean, ela faz uma provocação certeira: se fosse só começar cedo que garantisse uma grande carreira, todo professor que diz isso deveria ser solista internacional. Mas, na maioria das vezes, não é o caso.
O argumento dela é direto: a precocidade não é o fator determinante. O que ela tinha de diferente das crianças que começaram aos 3 anos era consciência. E ela usou isso a seu favor.
A spalla e a hierarquia da orquestra
Num dos momentos mais didáticos da conversa, Jean perguntou o que é ser spalla, e Anna explicou com clareza. Nas orquestras, cada naipe de instrumentos tem um chefe responsável por decisões artísticas e técnicas: onde respirar, qual direção do arco, como frasear junto com os sopros.
O chefe do naipe dos primeiros violinos recebe o nome de spalla, palavra italiana que significa “ombro”. Ele funciona como o braço direito do maestro: representa os músicos, coordena os chefes de naipe e garante que a orquestra soe uniforme. Se o maestro é o diretor, a spalla é o vice.
Anna exerceu essa função ainda no projeto social, bem antes de imaginar que chegaria à Austrália tocando na ópera.
Evidências no violino e o hate inesperado
Anna também é conhecida no Instagram por seus vídeos criativos, entre eles uma versão de “Evidências” no violino. O que parecia uma brincadeira bem-humorada virou alvo de críticas duras, inclusive por e-mail.
Mensagens dizendo que ela havia “perdido toda a credibilidade” chegaram de violinistas que consideravam aquilo uma desonra à formação clássica. Anna não esconde o espanto. Ela havia estudado com alguns dos melhores professores do mundo, tocava em instituições de prestígio, e era julgada por tocar uma música popular com qualidade.
Ela observa que esse tipo de preconceito ainda existe na comunidade clássica: a ideia de que há apenas um caminho válido, e quem sai dele é um fracasso. Para ela, carreira de violinista pode significar muita coisa. Tocar na ópera, em eventos, em bares, em vídeos nas redes sociais. Tudo tem valor.
E ela lembra de um violinista de carreira solo internacional que gravou com um grupo de K-pop, sem que ninguém questionasse sua seriedade artística. O mundo mudou. Parte da comunidade, ainda não.
Aprender como aprender: a pesquisa que começou na prática
A dissertação de doutorado de Anna não surgiu de uma curiosidade acadêmica abstrata. Ela nasceu de uma necessidade real: como compensar o tempo que ela sentia ter “perdido” por começar mais tarde.
Ela queria entender como o cérebro funciona no processo de aprendizagem musical, para eliminar o que não contribui e potencializar o que realmente funciona. Esse olhar científico sobre a própria prática virou o eixo da sua carreira como professora e pesquisadora.
Hoje, além de tocar profissionalmente em Sydney, ela ensina no Conservatório da cidade e continua desenvolvendo esse trabalho. O objetivo é que os alunos aprendam com mais eficiência, sem os bloqueios que ela mesma enfrentou.
Uma história que vale para quem está começando agora
Anna Murakawa mora na Austrália há mais de 16 anos e, nas próprias palavras dela, se sente “um pouco gringa” quando volta ao Brasil. Mas sua trajetória continua sendo uma referência especialmente relevante para quem pensa que já é tarde demais para aprender violino.
Ela começou aos 13 anos, sem tradição musical na família, sem aulas particulares, num projeto social. Chegou ao doutorado, à ópera e às universidades australianas. E ainda arruma tempo para tocar Evidências no Instagram e receber críticas sem perder o humor.
A mensagem que fica é simples: o momento certo é o que você tem agora.
Ouça o episódio completo no YouTube: ANNA MURAKAWA - Podcast do Violino Didático #021