Ariel Sanches: da igreja ao espalla da Amazonas Filarmônica
Ariel Sanches é um dos violinistas brasileiros mais admirados da sua geração. Espalla da Amazonas Filarmônica, ele tem uma trajetória construída com muito estudo, viagens de ônibus e algumas doses de coragem. Na conversa com Jean de Oliveira, ele abriu o livro da própria vida musical, do interior paulista até Manaus.
A conversa aconteceu em Cotia, na sede do Violino Didático, e foi a primeira vez que Ariel visitou a cidade. Ele chegou bem-humorado e, ao longo do papo, revelou uma personalidade tranquila, reflexiva e curiosamente tímida para alguém que foi apelidado de “galã dos violinistas”.
De São João da Boa Vista para o mundo
Ariel é natural de São João da Boa Vista, cidade do interior de São Paulo que fica a cerca de 40 minutos de Poços de Caldas. Ele faz questão de lembrar que a cidade tem uma história musical surpreendente: de lá também veio a pianista Guiomar Novaes, os violonistas da família Assad e o pianista Cláudio Richerme.
Mas o ponto de partida de Ariel foi bem mais doméstico. Aos sete anos, durante uma viagem de carro com a família, ele pediu ao pai para aprender violino. A resposta paterna foi direta: “Você vai pensar bem e quando a gente voltar para São João você me fala sim ou não. Mas se resolver que quer estudar, não pode parar.”
Ele voltou decidido. E nunca mais parou.
Uma família que respirava música
O pai de Ariel tocava violino na igreja e foi seu primeiro professor. A mãe tocava órgão. O tio, músico profissional e autodidata, assumiu as aulas aos sábados. Era um ambiente musical completo, mesmo sem conservatório ou escola especializada por perto.
As tardes de sábado na casa do tio tinham um ritual próprio: aula, e depois longas sessões de leitura musical. Quartetos, concertos, duos. Ouvir e tocar junto, descobrindo as músicas no caminho. Ariel reconhece que esse hábito foi se perdendo ao longo dos anos, mas que ele encontrou novamente recentemente, e sente falta de praticá-lo com mais frequência.
O método usado no início foi o Löur, clássico e bastante criticado por quem olha para ele hoje. Ariel sorri ao lembrar, mas defende a lógica: qualquer método na mão de um bom professor pode funcionar. E no contexto de quem vem da música de igreja no interior, foi o que estava disponível.
A orquestra de Poços e a primeira conexão com o mundo profissional
Com cerca de 12 anos, Ariel começou a tocar na orquestra de Poços de Caldas. Passou pelos segundos violinos, pela viola por necessidade, pelos primeiros violinos e, por volta dos 15 anos, virou espalla da orquestra. Praticamente todos os naipes, menos o cello.
A orquestra pagava uma pequena bolsa. Esse dinheiro foi fundamental: com ele, Ariel pagava as aulas que viria a fazer em São Paulo. Um tio de Brasília ajudava com a passagem de ônibus. Com 14 ou 15 anos, ele viajava sozinho de São João até a capital, três horas e meia de viagem, para estudar com o professor Baldini. O pai ficava preocupado, mas deixava.
O encontro com Elisa Fukuda
Foi num festival em Poços de Caldas que Ariel tocou pela primeira vez para Elisa Fukuda. Ele sabia quem ela era. Era um sonho. E ficou nervoso.
A Elisa, como ele conta, é uma professora extraordinária. Atenciosa, cuidadosa, transformadora. Ela escrevia em cadernos o que o aluno devia trabalhar em casa, um método simples e poderoso. Recentemente, ao visitar os pais em São João, Ariel encontrou um desses cadernos antigos e ficou relendo as anotações com emoção.
De curiosidade revelada durante a conversa: a Elisa tinha o hábito de dar aula nos finais de semana para os alunos do interior. Ariel ia todo domingo para São Paulo. Sábado descansava da viagem. Domingo, aula. Durante a semana, escola em São João.
Uma memória marcante desse período: certa vez, depois de uma aula em que Ariel ficou enrolando as respostas com “ãn” e “hm”, Elisa virou para ele e disse, com clareza: “Olha, Ariel, você já tem 16 anos. Tá na hora de aprender a falar sim ou não.” Ele nunca esqueceu.
Quando a paixão vira profissão
A decisão de seguir a música profissionalmente foi tomando forma naturalmente. Ariel tocava, recebia um dinheiro da orquestra, fazia conexões, estudava com professores importantes. Por volta dos 13 anos, quando entrou em Poços, algo se acendeu de vez.
Seus pais nunca fizeram pressão em sentido contrário. Pelo contrário: sempre incentivaram. Com um pai violinista e uma mãe organista, o ambiente familiar já apontava para aquele caminho há muito tempo.
Do festival de Poços ao palco em Campinas
Jean de Oliveira lembrou que a primeira vez que viu Ariel pessoalmente foi em Poços de Caldas, por volta de 2010, quando Ariel e Thiago Paganini tocaram o Duplo Concerto de Bach com a Camerata. Jean estava nos segundos violinos. Ariel era concertino. Foram quatorze anos até o próximo encontro presencial, dessa vez em Cotia.
Na época da gravação deste episódio, Ariel estava em São Paulo numa temporada de concertos. Na semana anterior, havia feito um trio de câmara com amigos. Na semana seguinte, um recital em Campinas com o pianista Marcos Aragoni, com programa pesado: a Chacona de Bach, a Sonata n.1 de Beethoven, a Sonata n.1 de Villa-Lobos e a Tzigane de Ravel. Tudo numa mesma noite.
Como Jean resumiu bem: “Uma atacada só.”
Espalla em Manaus
Há mais de dois anos, Ariel ocupa o posto de espalla da Amazonas Filarmônica, em Manaus. É um cargo de liderança artística dentro da orquestra, exigente e cheio de responsabilidade. Ele fala sobre isso com naturalidade, como alguém que encontrou seu lugar.
A trajetória de Ariel Sanches é um exemplo concreto de que grandes músicos podem surgir de qualquer lugar, com qualquer método, com qualquer ponto de partida, desde que haja dedicação, boas referências e pessoas que acreditem no caminho.
Ouça o episódio completo no YouTube: ARIEL SANCHES - Podcast do Violino Didático #071