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Bárbara Galante: violino, câmara e vida em Viena

Podcast Violino Didático

Bárbara Galante é o tipo de violinista que colegas elogiam pelas costas. Jean de Oliveira fez questão de mencionar isso logo no começo da conversa: ela é uma das raras pessoas do meio sobre quem ele nunca ouviu uma palavra mal dita. Em um ambiente competitivo como o mundo do violino, isso diz muito.

Bárbara vive em Viena, dá aulas em uma universidade particular, toca em um quarteto austríaco, é solista convidada de orquestras no Brasil e na Europa, integra um ensemble de música barroca em Salzburg e ainda mantém o próprio trio. A agenda dela, que chegou para a equipe do Violino Didático antes da gravação, deixou todo mundo de queixo caído.

Uma paixão que começou com três anos

A história com o violino começou cedo de verdade. Bárbara cresceu acompanhando o pai, trompetista da Jazz Sinfônica de São Paulo, nos ensaios e concertos. Foi ali, com três anos de idade, que ela viu pela primeira vez a violinista María Canilla tocando solos e se apaixonou de vez pelo instrumento.

Sua mãe, cantora, preferia que ela estudasse cello. O argumento era razoável: violino no começo não é fácil de ouvir. Mas Bárbara não quis saber. Quando o pai tentou brincar dizendo que não havia mais violino disponível na loja, ela simplesmente chorou. A decisão estava tomada.

Ela começou a estudar com quatro anos, em outubro, poucos meses antes de completar cinco. A primeira professora foi a violista Adriana Skin Cariol, que mais tarde se tornaria coordenadora da EMESP Tom Jobim. Bárbara fala dela com carinho genuíno: uma das pessoas mais maravilhosas que já conheceu no meio musical.

O método Suzuki e uma declaração polêmica

O método Suzuki foi a base do início dos estudos de Bárbara. E ela não poupou ironia ao comentar sobre quem diz que o método não funciona. Afinal, olhando para quem passou por ele, os exemplos não faltam: Hilary Hahn, Ray Chen, Josué Rozado são alguns dos nomes que ela citou com bom humor.

As aulas com a professora Adriana eram cheias de carinho. O violino tinha adesivos de borboletas, havia marcações coloridas no braço do instrumento, histórias sobre aranhas, e a professora ria com afeto das ambições da pequena aluna. Bárbara lembra com clareza de ter tentado vibrar enquanto ainda tocava peças do terceiro livro do Suzuki, o que arrancava gargalhadas da professora.

Essa vontade intensa de tocar bem, antes mesmo de ter as ferramentas técnicas para isso, parece ter sido uma marca sua desde sempre.

Vibrato: ansiedade, liberdade e a mão errada

O tema do vibrato rendeu uma das trocas mais ricas da conversa. Jean compartilhou que estava aprendendo vibrato pelo lado esquerdo do violino, o que arrancou uma confissão de Bárbara: ela também foi aprender vibrato com mais profundidade apenas quando chegou à Europa, porque queria tocar Tchaikovski sem que o professor reclamasse.

Os dois assistiram juntos, na véspera da gravação, a um vídeo de Ray Chen competindo com crianças prodígio. E Jean percebeu algo que nunca tinha notado antes: crianças prodígio, muitas vezes tocando caprichos de Paganini ou concertos de alto nível, frequentemente vibram de forma rudimentar ou quase não vibram.

Bárbara trouxe uma perspectiva importante sobre isso. Ela mencionou as escolas chinesas, onde muitas crianças tocam sem espaleira desde cedo, o que resulta em um tipo de vibrato diferente. E foi direta: quem acha que existe apenas um jeito certo de vibrar deve guardar essa opinião para si.

Para ela, o que importa não é a mecânica do vibrato, se é de dedo, de punho ou de braço. O que importa é a variedade de cores que ele pode produzir: amplitude, velocidade, intensidade. Técnica é meio, não fim.

A música acima do instrumento

Essa visão sobre o vibrato abre uma questão maior, que perpassa toda a trajetória de Bárbara. Ela nunca foi apegada à ideia de ser solista. O que sempre a moveu foi a música de câmara, o encontro entre músicos, a escuta coletiva.

Quando Jean perguntou se ela sempre foi mais ligada à música do que ao violino, a resposta foi direta: sim. Sempre. O violino é um meio de expressão, não um fim em si mesmo. E essa é exatamente a mensagem que ela carrega para as aulas que dá em Viena e para os projetos que desenvolve no Brasil.

Ela mencionou que, ao longo da carreira, nunca planejou entrar em orquestras específicas como a Filarmônica de Minas Gerais ou a OSESP como uma meta a ser conquistada. Ela foi seguindo seus próprios interesses, estudando, melhorando, se envolvendo com projetos sociais e de ensino. As portas foram se abrindo naturalmente.

Projetos sociais e o ensino como vocação

Além da carreira performática, Bárbara tem um envolvimento consistente com projetos de formação no Brasil. Ela comentou sobre diferentes formas de ajudar músicos que querem aprender, melhorar ou se preparar para provas de orquestra.

Essa dimensão do ensino não parece ser algo separado da carreira artística para ela. É parte do mesmo movimento: acreditar que a música tem algo a oferecer e querer compartilhar isso da melhor forma possível.

Ao dar aula para crianças, Bárbara busca replicar o ambiente carinhoso que teve com a professora Adriana: aquele espaço onde aprender é cheio de afeto, de estímulo, de espaço para a intensidade natural que uma criança apaixonada traz consigo.

Elegância, coleguismo e uma pizza em Cotia

A conversa com Jean foi gravada num domingo à noite, após Bárbara chegar de viagem às 5h30 da manhã. Ela parou para comer pizza antes de chegar ao estúdio, colocou a fofoca em dia com Jean, assistiu vídeos do Ray Chen, e ainda encontrou energia para uma conversa generosa e afiada.

Essa disponibilidade, esse calor no trato com as pessoas, talvez explique por que ela é unanimidade entre os colegas. Bárbara Galante é alguém que cuida da própria trajetória com seriedade e, ao mesmo tempo, carrega o meio musical com leveza.

Ouça o episódio completo no YouTube: BARBARA GALANTE - Podcast do Violino Didático #043

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