Bruce Wayne: violino, orquestra e música eletrônica
Bruce Wayne é violinista. E não, isso não é uma piada de nome: ele realmente toca violino de dia e combate o crime à noite. Ou ao contrário, como ele mesmo admite com um sorriso. No episódio 143 do Podcast do Violino Didático, Jean de Oliveira recebeu esse carioca de nome épico para uma conversa cheia de história, humor e muita música.
O resultado foi uma das conversas mais divertidas e reveladoras do podcast. Da herança musical da família ao palco do Rock in Rio, passando por festas com DJ nos quiosques da praia carioca, Bruce traçou um percurso que desafia qualquer ideia convencional sobre o que um violinista pode ser.
Uma família de violinistas com muito caráter
A história de Bruce começa antes dele. Seu avô foi violinista da OSB e da OSN, e fundou um grupo chamado Violinos do Rio: quatro violinos, contrabaixo, acordeom e, às vezes, piano. O repertório era tango, música italiana, coisas para os bailes da época. Uma figura do mundo popular, antes mesmo de isso ter esse nome.
Depois veio o pai, Ruben de Oliveira Filho, conhecido nas redes como Ruben Violino. Ele passou pela formação erudita, foi empurrado pelo avô a fazer prova para a OSN, passou, e entrou. Mas nunca se identificou com aquele ambiente. Sempre foi do choro, do rock, da música popular.
Bruce conta uma história antológica sobre o pai: numa prova de orquestra, anos 80 ou 90, o Ruben foi de camiseta cavada, exibindo a musculatura de quem tomava suplemento e sonhava ser bodybuilder. “Chegou na banca assim, mostrando os braços”, conta Bruce entre risadas. Passou, mas nunca quis saber daquele universo.
O nome, o Batman e o trauma de infância
Sim, o pai é fã de Batman. O suficiente para colocar o nome no filho. E a mãe chegou perto de se chamar Márcia, o que tornaria tudo ainda mais perturbador.
Bruce conta que até os dez anos tinha medo real de que os pais morressem. “Você não sabe o que é ser uma criança com muita criatividade e hiperatividade que se chama Bruce Wayne”, ele diz, com aquele humor que atravessa toda a conversa. A coleção de quadrinhos do pai durou até a mãe perder a paciência e rasgar tudo. Histórias que formam um personagem.
Cinco meses de violino e já estava trabalhando
Bruce começou a aprender violino com o pai quando foi morar com ele, por volta dos 15 anos. A primeira música foi a Sinfonia de Beethoven, mas os primeiros trabalhos foram bem mais pragmáticos: restaurantes, bares, recepções de casamento. Com apenas cinco meses de instrumento, o pai virou para ele e disse: “Vem trabalhar comigo”.
O repertório era Over the Rainbow, Fly Me to the Moon, músicas que funcionam em qualquer ambiente. Não havia metodologia formal, só observação e prática. Quando Bruce tentava perguntar ao pai como fazer determinada técnica, a resposta era sempre a mesma: “É assim, meu filho, faz”. Não funcionava.
Aí ele percebeu que precisava de outra abordagem.
A virada técnica e o contato com o erudito
Em 2012, Bruce decidiu de vez que ia estudar de verdade. Começou a ter aulas com Bernardo Bessler, e a descrição que ele faz é precisa: “Minha vida mudou da água pro vinho”. Ele segurava o arco de forma torta, tinha vícios acumulados de anos. Bessler parou tudo, corrigiu a base e só então avançou.
Ao mesmo tempo, Bruce entrou para a Academia Juvenil da Petrobras no Rio de Janeiro: aulas individuais de instrumento, prática orquestral e teoria nos sábados. Foi seu primeiro contato real com o repertório sinfônico e com a disciplina da música erudita.
Mas havia uma tensão crescente. Bruce gostava de jazz, estudava standards como Flamingo, e o pai um dia disse algo que ficou gravado: “Essa música é muito bonita. Mas você já viu alguém pedir essa música?”. Para um jovem de 16 anos tentando construir uma carreira, a frase pesou. E acabou influenciando os caminhos que vieram depois.
A Nova Orquestra: shows, não concertos
Hoje, Bruce é parte da Nova Orquestra, um projeto fundado em 2019 que se propõe a quebrar os paradigmas do formato orquestral tradicional. A começar pelo mais simples: eles tocam de pé. Quase sempre. A única exceção foi o primeiro show, numa edição da Game XP, com repertório de trilhas de jogos.
A proposta é clara: não fazem concertos, fazem shows. E isso muda tudo, da postura no palco ao figurino, que inclui óculos escuros, camisetas personalizadas e sacolas de brinde. Jean brincou com o visual ao vivo, e Bruce explicou com seriedade desarmante que os óculos têm função prática: bloquear o jogo de luz dos shows e permitir enxergar a partitura.
O argumento convenceu. Especialmente porque, no show com o Super Combo, Bruce foi sem os óculos e sentiu falta.
Festivais, parcerias e um palco no Detalhes
A lista de artistas com quem a Nova Orquestra já se apresentou é impressionante. Chico César, Rael, Rincón Sapiência, Baco do Blues, Super Combo, Farrapo Alaska. No G20, tocaram com Nei Mato Grosso e Moraes Moreira. No Rock in Rio, houve uma participação que Bruce prefere não detalhar, com uma história envolvendo Tigrona que, segundo ele, seria “meio complicada de compartilhar”.
Há também a cena dos quiosques na orla carioca, onde Bruce toca violino elétrico com DJs. Essa combinação de instrumento acústico com música eletrônica é uma das marcas do seu trabalho atual, e ele a descreve com naturalidade. Para quem cresceu vendo o avô tocar tango em bailes, a lógica é a mesma: tocar onde as pessoas estão.
O projeto social e o violino como ferramenta
Além dos shows, Bruce dá aulas em um projeto social no Rio, levando o que ele descreve como “uma visão diferente de violino”. Não ficou claro no papo quais são todos os detalhes do projeto, mas a intenção está alinhada com a trajetória: mostrar que o violino cabe em mais lugares do que se imagina.
Essa é, talvez, a linha que conecta tudo: o avô nos bailes, o pai nos restaurantes, Bruce nos festivais e quiosques. Uma família que sempre soube que o violino não precisa de um palco específico para funcionar.
Ouça o episódio completo no YouTube: BRUCE WAYNE- Podcast do Violino Didático #143