Cammy: de bióloga a violinista profissional em eventos geek
A menina do Street Fighter que virou violinista
O nome já diz muito sobre quem ela é. Cammy não é Camille, nem Camily: é Cammy, uma fusão inventada pelo pai entre dois personagens do Street Fighter, Cammy e Chun-Li. Faltou o chapéu no K, mas a personalidade ficou intacta.
Nascida em Uberlândia, Minas Gerais, Cammy cresceu num lar onde videogame e música conviviam sem nenhum conflito. O pai, do universo geek até a alma, sempre quis que os filhos tocassem alguma coisa. A avó, Nalva Guará, é nome grande no sertanejo brasileiro. Dessa combinação improvável nasceu uma das violinistas mais criativas da cena atual.
Uma avó famosa e um pai que jogava de madrugada
A influência musical veio pela linhagem materna. Nalva Guará, avó de Cammy, é cantora de sertanejo com história longa, que inclui até um namoro com Roberto Carlos. É o tipo de detalhe que aparece de surpresa numa conversa e deixa todo mundo boquiaberto.
Do lado do pai, o universo era outro: jogos, animes, cultura pop. A mãe entrou no pacote também, jogando de madrugada com o marido enquanto Cammy postava stories com tom de reprovação carinhosa. Com esses ingredientes todos, era difícil não desenvolver amor pela arte.
O piano, a professora rígida e o trauma do recital
Com 16 anos, Cammy entrou no conservatório de Uberlândia para aprender piano. Começou tarde, mas foi. O problema veio na forma da professora: rígida, intimidadora, do tipo que interrompia a aula na hora de um erro para perguntar, com frieza, “que nota é essa?”
O resultado apareceu no dia do recital. Cammy tinha decorado a música, tocava de olhos fechados, sabia cada nota. Mas na hora de subir ao palco, bloqueou. Uma outra professora sentou ao lado para tocar junto, o que só aumentou a ansiedade. Ela parou, saiu do palco chorando, e recebeu um certificado de participação que não queria.
O pior: tinha chamado colegas da faculdade de Biologia para assistir. Eles bateram palmas de pé, tentando animar. Ela queria sumir.
O professor que apareceu no corredor certo
Dias depois, ainda abalada, Cammy estava sentada no chão do corredor do conservatório quando um professor de violino passou por ali. O aluno dele tinha faltado. Ele convidou Cammy para entrar na sala só para experimentar.
Ela resistiu: não tocava violino, era a irmã que estudava o instrumento. Ele insistiu. Ela foi.
Quando colocou o violino no ombro pela primeira vez, a sensação foi imediata. “Isso aqui é mil vezes mais fácil do que piano”, ela pensou. Em segundos, perguntou se havia vaga na turma. Desceu direto para a coordenação e pediu a transferência.
Esse professor se chama Afonso, de Uberlândia. Um encontro de corredor que mudou uma vida.
Biologia de dia, violino nos 20 minutos livres
Cammy começou o violino ao mesmo tempo em que cursava Biologia. A faculdade era prioridade. O violino entrava nos buracos da agenda: 20 minutos por dia, quando dava. Pouco, mas constante.
Ela se formou, começou a dar aulas em cursinho pré-vestibular de forma voluntária e amava. Criava slides com Homer Simpson para explicar Darwin, colocava o The Rock ao lado de um bebê para ilustrar Lamarck, traduzia tudo para a linguagem da galera. Os alunos iam bem, ela era feliz.
Mas era voluntário. As contas não esperavam. Mandou e-mails para cursinhos particulares durante meses. Ninguém respondeu.
A decisão que mudou tudo
Foi aí que Cammy olhou para o violino de um jeito diferente. “Será que dá para ganhar dinheiro com isso?”, ela se perguntou. A dúvida é clássica, o medo é universal. Mas ela decidiu tentar.
Hoje ela vive 100% de apresentações: casamentos, serenatas, recepções e, claro, eventos geek. A carreira que ela hesitou em abraçar se tornou exatamente o que ela precisava. “Hoje eu sou muito feliz”, ela disse a Jean. “Faço meu horário, toco me divertindo, saio pulando.”
A biologia ficou para trás. A morfologia vegetal e os termos técnicos também. No lugar disso: arranjos de anime, trilhas de videogame e a liberdade de dizer não para o que não faz sentido.
Eventos geek: um mundo que ela já habitava
A transição para os eventos de cultura pop não foi uma estratégia calculada. Foi natural. Cammy já frequentava esses eventos desde pequena, cresceu vendo anime, jogando, comprando colecionáveis. Quando começou a tocar profissionalmente, era só uma questão de tempo até esse universo se encontrar com o violino.
O Catso, evento de Uberlândia onde ela cresceu, foi parte dessa formação. A capacidade de tocar músicas de séries, filmes e games com arranjo de violino abriu portas que a música clássica convencional não abriria da mesma forma.
Grupos de casamento, sociedade e a diferença de Uberlândia
Por anos, Cammy tocou com diferentes grupos de casamento, chegando a ser sócia de um quarteto fixo em Uberlândia. A estrutura era diferente do que Jean conhecia de São Paulo: lá, os grupos ensaiavam, tinham arranjos próprios, se encontravam com frequência. Cada sócio tinha uma função no negócio.
A cantora cuidava do contato com as noivas. Cada um tinha seu papel. A primeira pergunta de Cammy quando foi convidada para entrar? “Como vocês ensaiam?” Quando ouviu “uma hora antes de a noiva chegar”, fechou negócio na hora. Para ela, isso já era Premium.
Depois de quatro anos nesse grupo, ela partiu para a carreira solo. Hoje trabalha por conta própria, escolhe os eventos, define os horários e toca o que gosta.
O que a história de Cammy ensina sobre começar tarde
Cammy começou o violino com 16 anos, dividindo o tempo com a faculdade. Praticava 20 minutos por dia nos períodos de menor foco. Não tinha nenhum destino certo traçado para a música.
Ainda assim, chegou onde chegou. Isso tem tudo a ver com a mensagem central do Violino Didático: todo mundo é capaz de tocar violino. Não importa a idade em que você começa, nem o tempo que você tem por dia. O que importa é não parar.
O trauma do recital de piano poderia ter encerrado a história musical de Cammy antes de ela começar de verdade. Um professor no corredor certo, num momento de vulnerabilidade, mudou o rumo de tudo.
Ouça o episódio completo no YouTube: CAMMY - Podcast do Violino Didático #015