Carla Raiza: violino, rabeca e cultura popular
A violinista que se tornou rabequeira
Existem trajetórias musicais que não cabem em uma linha reta. A de Carla Raiza é uma delas.
Violinista de formação, ela trilhou o caminho clássico: conservatório, orquestra, a pressão silenciosa de um ambiente que mede tudo em termos de acerto e erro. Mas, em algum momento desse percurso, ela desviou o olhar, encontrou a rabeca e nunca mais voltou atrás.
Jean de Oliveira a recebeu no Podcast do Violino Didático para uma conversa que foi, ao mesmo tempo, íntima e reveladora.
Violino e rabeca: instrumentos diferentes, mundos diferentes
Logo no início da conversa, Carla faz questão de estabelecer uma distinção importante. Os instrumentos pendurados na parede durante a gravação não são violinos: são rabecas.
Para ela, nomear corretamente importa. A rabeca carrega uma identidade própria, uma história própria, e apagá-la dentro do termo genérico “violino” seria perder algo essencial.
Essa preocupação com a nomenclatura diz muito sobre quem ela é como artista e pesquisadora. Carla mergulhou de cabeça no universo da rabeca, tanto sonoramente quanto historicamente, e encontrou um universo que, nas palavras dela, é “muito rico”.
Hoje, ela toca rabeca em projetos de cultura popular, incluindo o grupo Clarianas, formado por três cantadeiras que transitam entre música, teatro e tradição oral.
O que é uma cantadeira?
A palavra “cantadeira” talvez seja nova para quem cresceu dentro do ensino formal de música. Carla explica o conceito com cuidado.
Uma cantadeira é alguém que canta, mas que não passou pelo canto lírico ou por técnicas formais de vocalização. São pessoas que encontraram a voz no próprio corpo, na vida cotidiana, nas manifestações da comunidade.
E aqui Carla desfaz um equívoco comum: não saber o nome técnico de algo não significa não saber o que se está fazendo. Nas palavras dela, essas pessoas “são muito apropriadas dos seus corpos” e se comunicam através da música de uma maneira profunda.
O método nomeia as coisas, organiza, às vezes acelera o aprendizado. Mas a ausência do método não é ausência de conhecimento. É outro tipo de conhecimento.
Vida ou morte no conservatório
Carla e Jean pertencem à mesma geração. Mais do que isso: eles chegaram a tocar juntos na Orquestra de Guarulhos, um fato que veio à tona durante a conversa com a naturalidade de quem reencontra um colega antigo.
Os dois compartilham memórias parecidas sobre aquele período. A seriedade excessiva. A sensação de que tocar violino era “vida ou morte”. A pressão para ser impecável, mesmo sem as condições necessárias para isso.
E havia também as meias verdades. A ideia de que existiam apenas dois ou três destinos possíveis para um violinista: orquestra, cachês ou, na pior das hipóteses, dar aulas, o que chegava embalado em um tom quase pejorativo, como se ensinar fosse o prêmio de consolação de quem não conseguiu “vencer”.
Carla chama essas narrativas de meias verdades, não de mentiras. Porque estudar muito é necessário, sim. Mas numa audição para orquestra, você compete com outras cem pessoas que também estudaram muito, para uma ou duas vagas, diante de uma banca com critérios que estão parcialmente fora do seu controle.
“Você vai pensar que é só mérito e não é”, ela diz, com a franqueza de quem já passou por isso.
A ficha que cai em camadas
A virada não veio de uma vez. Carla descreve o processo como algo que “caiu em várias camadas e ainda está caindo”.
Mas o primeiro estalo foi perceber que ninguém havia contado para ela sobre as outras possibilidades. Que era possível criar projetos. Ter autonomia artística. Viver de música sem depender de uma banca de seleção, sem esperar que uma instituição abrisse uma vaga.
Essa descoberta não eliminou os desafios. Ser um artista independente, ela reconhece, significa se deparar com “um abismo de coisas” que precisam ser administradas. Mas saber que o caminho existe já muda tudo.
A escola mágica e o amigo que mudou tudo
A porta de entrada para o universo da cultura popular foi a ULM, escola que depois se tornaria a EMESP Tom Jobim. Jean também estudou lá, e os dois trocam memórias com saudade sobre a transição, que, para Carla, foi sentida como uma perda.
Mas foi nos corredores da ULM que ela conheceu Giovan de Ganzá, músico e compositor com formação em violão erudito e perfil de multiinstrumentista. Ele foi quem abriu os primeiros mundos.
Carla descreve a escola com uma imagem bonita: para ela, aquele prédio antigo, com elevador que travava entre andares e passagens inesperadas, era uma escola de magia. E foi dentro dessa atmosfera que ela recebeu algo que nunca havia recebido antes: uma música composta especialmente para ela.
Giovan chegou com uma folha e disse que havia escrito um Ponteio para violino solo, com o nome dela. E aquilo abriu uma fresta enorme na cabeça de Carla.
“Eu não sabia que eu podia ganhar uma música. Nem que eu podia presentear alguém com uma música.” Essa frase resume bem o tipo de transformação que aquela amizade provocou.
O CD traficado e a descoberta da rabeca
Não havia Spotify. Mal havia YouTube. Para descobrir música nova, a moeda de troca eram CDs gravados, passados de mão em mão como objetos preciosos.
Foi assim que Carla chegou ao grupo Anima e, por meio dele, ao violinista Flaemig Gramani, filho do compositor e pesquisador José Eduardo Gramani, autor do célebre livro sobre rítmica. Ouvir aquele trabalho foi um ponto de inflexão.
A rabeca entrou na sua vida não como substituta do violino, mas como um convite para uma pesquisa mais funda: sonora, histórica, cultural. E esse convite ela aceitou de corpo inteiro.
Cultura popular como caminho de volta para si
Carla fala do coco de roda, do boi, das festas no Morro do Querosene, em São Paulo, onde mestres do Maranhão residem e mantêm viva uma tradição. Ela foi encontrando essas manifestações aos poucos, e elas foram, cada uma, ampliando o seu vocabulário artístico.
Há uma ironia gentil nessa trajetória. O ambiente do conservatório tratava a música popular com certa condescendência. E foi exatamente na música popular que Carla encontrou profundidade, rigor e um tipo de entrega que o ambiente formal muitas vezes não consegue ensinar.
Isso não é uma crítica à formação erudita. É, talvez, uma crítica à estreiteza com que essa formação às vezes se apresenta.
O que a rabeca ensina sobre o violino
Há algo revelador no percurso de Carla: mergulhar na rabeca e na cultura popular a tornou uma professora melhor. Ela diz isso com clareza.
Aprender o que não fazer, passar por experiências que não deram certo, enfrentar o próprio limite, tudo isso contribuiu. A pessoa que estuda dez horas e sai “moída” para provar algo para si mesma é diferente da pessoa que estuda duas horas com presença e intenção.
Essa mudança de perspectiva é o tipo de coisa que não vem de um método, mas de uma jornada.
E a jornada de Carla Raiza, com toda a sua não-linearidade, é justamente o que a torna uma voz importante para quem está aprendendo a fazer as próprias perguntas sobre música.
Ouça o episódio completo no YouTube: CARLA RAIZA - Podcast do Violino Didático #063