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Carla Rincon: ensino coletivo e formação de professores

Podcast Violino Didático

Uma lenda do ensino de violino no Brasil

Quando Jean de Oliveira recebeu Carla Rincon no Podcast do Violino Didático, ele mesmo admitiu: o prazer era “inenarrável”. Não é exagero. Carla é uma das vozes mais relevantes sobre pedagogia do violino no país, com uma trajetória que mistura palco, sala de aula e pesquisa de forma pouco comum.

A conversa aconteceu presencialmente em Cotia, e os dois se conheceram ali mesmo, naquele momento. O papo fluiu como se fossem velhos colegas.

Do palco à coordenação pedagógica

Como violinista, Carla integra o Trio Iroko, ao lado de Elis Boni no violão e Marcelo Cláudio no acordeão. O projeto nasceu há quatro anos, após mais de 13 anos à frente do Quarteto Radamés Gnattali como primeira violinista, chegando a mais de 100 concertos por ano.

Além do trio, ela mantém um quarteto de cordas renovado, com músicos de São Paulo e colaboradores internacionais. Os convites ainda chegam, mas o ritmo é outro: mais espaçado, mais afetivo.

No ensino, ela migrou do trabalho individual para a coordenação. Há cerca de cinco anos, os professores André Cardoso e Marcelo Jardim a chamaram para coordenar a pedagogia de cordas do SINOS (Sistema Nacional de Ensino Social). A missão: melhorar e sistematizar o ensino coletivo nos projetos sociais de todo o Brasil.

O problema que ninguém resolve nas universidades

Carla colocou o dedo numa ferida real. As universidades formam professores para aulas individuais. Mas o que está crescendo no país são os projetos sociais, e eles precisam de outra coisa: ensino coletivo.

A maioria dos professores que chegam a esses projetos se sente despreparada. E, segundo ela, estão mesmo. Porque ensino coletivo exige formação específica, síntese de experiências e um conjunto de ferramentas que o modelo universitário tradicional simplesmente não oferece.

Foi para preencher essa lacuna que o SINOS criou um curso online com o passo a passo para professores aprenderem a dar aulas coletivas de cordas. O material está disponível no site Arte de Toda a Gente, na seção de pedagogia de cordas.

A primeira tabela niveladora brasileira

Um dos frutos mais concretos desse trabalho é a tabela niveladora criada pela equipe do SINOS. Antes dela, só existiam dois modelos assim no mundo: o britânico e o norte-americano.

A tabela define o que um aluno em cada nível, do 0.5 ao 6, é capaz de tocar. Isso vale tanto para o ensino coletivo quanto para o individual. E, além de nivelar, o projeto criou um repertório com mais de dez obras brasileiras por nível, incluindo peças de concerto para violino, viola, violoncelo e contrabaixo.

Foi um trabalho de pesquisa extenso. Carla atuou como pesquisadora contratada, trabalhando com grandes professores como Razera (violoncelo), Fávaro, Boré e outros. O resultado é um sistema chamado Ensino Sequencial, que organiza a progressão do aluno de forma clara e aplicável.

A mão do arco vem primeiro

Carla tem uma posição firme sobre como iniciar um aluno no violino: a prioridade é a mão do arco. Para ela, essa é a mão dominante do instrumento, e é por ali que o trabalho técnico deve começar.

Durante a conversa, ela e Jean notaram algo curioso: o violino exposto no estúdio é invertido. E tem uma razão pessoal para isso.

Carla desenvolveu distonia focal na mão do arco. Para continuar tocando, ela iniciou o processo de aprender do lado contrário ao tradicional. Além de terapêutico, esse processo trouxe revelações pedagógicas: coisas que ela considerava simples se mostraram bem mais complexas do ponto de vista do iniciante.

Essa experiência também levou Carla a pesquisar outros violinistas que tocam invertido. Ela descobriu que existem mais do que se imagina, inclusive em posições de destaque em grandes orquestras europeias.

Dois anos e meio para uma prova de orquestra

Outro ponto que chamou atenção na conversa foi o tempo necessário para preparar um músico para testes de orquestra ou conservatório. Carla estima, em média, dois anos e meio, dependendo das condições técnicas de quem chega.

Isso causa estranhamento em alguns alunos, que chegam querendo fazer uma prova na semana seguinte. Mas ela explica: o repertório orquestral é extenso, detalhado, cheio de nuances de diferentes compositores. Não se trata só de aprender notas.

E aqui entra um elemento que ela considera fundamental: a preparação emocional e mental.

Ansiedade performática: um tema ainda ignorado

Carla estuda ansiedade performática há anos. Nos Estados Unidos, tanto no bacharelado quanto no mestrado, ela teve formação específica na área. Hoje, faz parte de um grupo de cerca de 500 professores que se reúnem regularmente para discutir o tema, orientados pelo Dr. Green, professor de ansiedade performática da Universidade Juilliard.

A conclusão que esse grupo chegou é simples e poderosa: a ansiedade precisa ser trabalhada desde a sala de aula, não só na véspera de uma apresentação.

Isso significa ensinar o aluno a respirar, a ressignificar o que é uma performance, a entender que errar faz parte do processo. Uma das frases que Carla usa com seus alunos é direta: “agora toca e erra por favor”. O objetivo é desapegar, liberar, deixar o corpo tocar sem a pressão do acerto perfeito.

Segundo ela, os instrumentos de cordas friccionadas têm uma história longa de traumas pedagógicos. Professores que ensinam com pressão excessiva, exigências fora de tempo, frustrações acumuladas. Trabalhar esses traumas desde a iniciação é, para Carla, parte central do papel do professor.

Por que ela se apaixonou pela iniciação

A trajetória de Carla inclui mais de 40 alunos colocados em orquestras e conservatórios ao redor do mundo. Mas, com o tempo, ela foi se apaixonando cada vez mais pelo ensino para iniciantes.

O motivo tem lógica: é na iniciação que se previne o trauma. É ali que o professor pode construir uma relação saudável com o instrumento, cuidar da saúde emocional do aluno e semear os hábitos certos antes que os erros se instalem na memória muscular.

Ela cita inclusive um princípio técnico importante: nunca se deve tocar um trecho no tempo antes de a memória muscular estar suficientemente consolidada. Tocar rápido demais cedo demais gera tensão, medo e erros que se fixam. A velocidade vem depois, não antes.

Uma conversa que vai além do violino

O que essa conversa deixa claro é que Carla Rincon pensa o ensino de violino de forma sistêmica. Ela conecta técnica, emoção, pesquisa, formação de professores e políticas públicas com uma visão que vai muito além da sala de aula individual.

Seu trabalho no SINOS é um exemplo raro de como uma violinista de alto nível pode transformar sua experiência em algo que beneficia centenas de professores e, por consequência, milhares de alunos em todo o Brasil.

Ouça o episódio completo no YouTube: CARLA RINCON - Podcast do Violino Didático #067

Se você é professor e quer conhecer o material do SINOS, acesse o site Arte de Toda a Gente e procure a seção de pedagogia de cordas. Vale muito a visita.

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