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Carlos Moreno: do violino ao pódio de maestro

Podcast Violino Didático

O maestro mais rock and roll do Brasil

Quando Jean de Oliveira recebeu Carlos Moreno no Podcast do Violino Didático, a apresentação veio carregada de entusiasmo. Maestro, compositor, violinista e cantor, Carlos acumula títulos com a naturalidade de quem simplesmente nunca parou de fazer música.

Perguntar o que ele faz musicalmente gerou a resposta mais honesta possível: “Eu acordo músico, almoço músico, passo o dia inteiro convivendo com essa arte.”

E essa não é força de expressão. É literalmente a vida dele.

Uma infância regada a música

A música entrou cedo na vida de Carlos. Sua mãe era pianista e cantora lírica, então o ambiente doméstico já era naturalmente musical.

Mas o estalo definitivo veio aos 5 anos, num concerto do Projeto Aquarius no Rio de Janeiro. Isaac Karabtchevsky regia a OSB, e o pequeno Carlos ficou hipnotizado pelos violinistas. O instrumento se movia, os músicos pareciam felizes, havia quase um balé acontecendo no palco.

Ele chegou em casa, pegou dois cabides e ficou na frente da televisão imitando o que tinha visto.

Sua mãe entendeu o recado. Com 6 para 7 anos, Carlos ganhou um violino e começou as aulas.

Os professores que fizeram a diferença

Carlos teve a sorte de encontrar, desde cedo, professores que entendiam o universo de uma criança. Um deles ensinava a fazer pipa e dava aula de violino. Outro levava balinhas. Parece simples, mas é exatamente esse tipo de conexão que mantém uma criança engajada.

Em Petrópolis, cidade onde cresceu, ele entrou para os Canarinhos, um coral franciscano que também incentivava uma orquestra. Foi lá que conheceu o Mestre Nair Pessanha, um dos professores que mais marcaram sua formação.

Pessanha era, além de violinista, uma pessoa de cultura enciclopédica. As aulas iam muito além do instrumento: havia sempre novidades de música de câmara, leituras, repertório variado. Uma formação que moldou o músico e o pedagogo que Carlos viria a ser.

Mais tarde, já no Rio de Janeiro, ele se tornaria aluno de Paulo Bosísio na Unirio, e lá a história ganharia mais um capítulo fundamental.

Paulo Bosísio: um acontecimento cósmico

O nome de Paulo Bosísio aparece com frequência entre os grandes violinistas brasileiros, e Carlos Moreno não é exceção. Jean, que já ouviu esse nome em dezenas de conversas, tem uma pergunta padrão para quem cita o professor: o que explica a aura de mestre que ele carrega?

A resposta de Carlos foi direta: “É um dom. O Paulo Bosísio é um acontecimento cósmico.”

Mas vai além do misticismo. Bosísio tem um conhecimento técnico profundo e, mais raro ainda, o dom da pedagogia. Saber tocar é uma coisa. Saber conduzir cada aluno de forma individual, enxergar o que cada um precisa no momento certo, é outra completamente difer.

Carlos lembra com gratidão que, quando precisava de um arco melhor ou de um violino mais adequado, Bosísio dava um jeito de conseguir. Sem cobrar. Sem fazer disso um favor pesado. Era simplesmente o que um mestre faz por um aluno que merece avançar.

Um detalhe que Jean destacou na conversa: Bosísio cita fontes para absolutamente tudo. Uma leitura, uma ideia, uma afirmação. Ele diz o livro, o capítulo, a página. Esse rigor intelectual, combinado com a generosidade humana, é o que o torna singular.

O canto que sempre acompanhou o violino

Poucos sabem, mas Carlos Moreno também tem uma história como cantor. Aos 10 anos, com uma voz de soprano de potência lírica, ele gravou como solista a Missa em Sol de Schubert, obra para orquestra, coro e barítono.

O canto e o violino sempre caminharam juntos para ele. Nos Canarinhos de Petrópolis, as duas linguagens se desenvolveram lado a lado e, segundo Carlos, isso fez toda a diferença na sua formação como músico e como regente.

17 anos, método Suzuki e mais de 100 alunos

Aos 17 anos, Carlos descobriu o método Suzuki por meio de uma aluna de Bosísio, a Su Soren, que fazia um trabalho expressivo no Rio de Janeiro. Ele foi apresentado à professora Shinob Saito, uma das primeiras teacher trainers de violino no Brasil.

O método encantou Carlos imediatamente. Ele já tinha facilidade para lidar com pessoas, já era monitor dos alunos mais novos nos Canarinhos. O Suzuki simplesmente formalizou algo que já era natural nele.

Com 18 anos, criou o Centro Suzuki de Petrópolis. Em poucos anos, chegaram a mais de 100 alunos, com aulas individuais, aulas em grupo e pais presentes como manda a tradição do método. Carlos tinha, diante de si, uma orquestra infanto-juvenil inteira.

O movimento cresceu. As orquestras de Petrópolis e do Rio se uniram e tocaram na Sala Cecília Meireles e no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois vieram outros encontros, outras cidades, outras orquestras. Tudo movido por um jovem que ainda estava aprendendo enquanto ensinava.

A filosofia que ficou

Carlos fala do método Suzuki com a convicção de quem viveu seus resultados de perto. Mas ele é cuidadoso ao explicar por que tantos professores acham que o método não funciona.

A questão não é o método. É a falta de formação do professor.

Abrir o livro do Suzuki e ensinar as musiquinhas não é aplicar o método. É preciso ter conhecimento profundo do instrumento para entender o que está sendo proposto em cada peça, o que está sendo desenvolvido tecnicamente naquele momento específico da formação. Sem essa base, qualquer método parece vazio.

E a filosofia central, a que ele carrega até hoje como maestro e pedagogo, é simples e poderosa: a criança cresce onde o elogio rega. Não é permissividade. É reconhecer o momento certo de dizer “que lindo o que você está fazendo” e entender o efeito que essa frase tem sobre uma criança que está tentando.

Da regência ao Mozart Brasileiro

A trajetória de Carlos como regente começou mais cedo do que ele esperava. Aos 15 anos, compôs uma peça para cordas e foi convidado pelos próprios freis para regê-la. Foi sua estreia no pódio.

Decadas depois, ele se tornaria maestro da Orquestra Acadêmica Mozart Brasileiro, criada em 2016 a partir de um projeto de Sabine Lovatelli. A orquestra, ligada ao Mozarteum Brasileiro (instituição com 42 anos de história), tem como missão trazer ao Brasil os maiores nomes da música mundial e oferecer aos jovens músicos a experiência de tocar ao lado dessas referências.

No repertório recente da orquestra: Diana Damrau, Bryn Terfel, Nana Mouskouri. Músicos da Filarmônica de Berlim e da Filarmônica de Bona.

Para um garoto que ficou hipnotizado por violinistas num concerto aos 5 anos, chegar a esse ponto tem um sabor muito particular.

A missão que orienta tudo

Carlos Moreno é um nome que atravessa décadas da música brasileira com uma consistência rara. Cantor de coral na infância, violinista formado por mestres generosos, criador de um centro Suzuki aos 18 anos, regente de orquestras universitárias e sinfônicas, e hoje maestro de um projeto que coloca jovens brasileiros ao lado dos maiores músicos do mundo.

O fio que conecta tudo isso é a mesma coisa que ele aprendeu com Bosísio, com Pessanha, com os freis de Petrópolis: a diferença que um professor pode fazer na vida de alguém que ainda não sabe o quanto é capaz.

É exatamente esse tipo de conversa que o Podcast do Violino Didático existe para ter.

Ouça o episódio completo no YouTube: CARLOS MORENO - Podcast do Violino Didático #078

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