Carol Panesi: violino, natureza e música popular brasileira
Carol Panesi é uma das referências do violino popular brasileiro. Compositora, intérprete e educadora, ela carrega uma trajetória construída com curiosidade, sensibilidade e uma relação profunda com a música regional brasileira. Jean de Oliveira a recebeu em Cotia para uma conversa que misturou infância, pandemia, floresta e o poder transformador do violino.
O papo começa com uma revelação que surpreende: Carol não começou no violino. Começou no piano, ainda na infância, influenciada pela prima que voltou dos Estados Unidos tocando as músicas que havia aprendido no ano. “Eu tinha isso dentro da minha casa e nem sabia”, ela conta, lembrando do piano da mãe que ficava encostado na sala como um móvel qualquer.
De prima em prima: o início no piano e a chegada ao violino
A prima foi a faísca. Quando ela chegou de férias tocando as musiquinhas do conservatório, Carol aprendeu tudo no mesmo período. Quando a prima foi embora, não havia mais jeito de parar. Ela entrou no conservatório do Rio de Janeiro e mergulhou de vez na música.
No conservatório, Carol passou por um curso fundamental que oferecia algo raro: variedade. Além do instrumento principal, os alunos experimentavam outros instrumentos a cada semestre, além de teoria, história da música e coral. Foi nesse ambiente que ela aprendeu flauta doce e, mais tarde, chegou o violino.
A chegada ao violino não foi um momento de epifania. “Não foi muito mágico assim”, ela admite com bom humor. Havia um projeto social com aulas de violino, e todo mundo participava. Mas o acaso que parece banal às vezes é exatamente o que muda uma vida.
Compor desde sempre: a vontade que não cabia no conservatório
Mesmo nas aulas de piano, Carol já sentia a coceira de inventar. Enquanto tocava as peças do repertório erudito, queria mudar a harmonia, criar uma melodia diferente, experimentar. A professora não deixava. “Isso aqui é música erudita”, era a resposta.
Mas ela não desistia. Pegava um trecho da música e compunha algo a partir dali. Foi assim que a prática de composição foi se consolidando, bem antes de qualquer formação formal nessa área.
Essa vontade de criar acompanhou toda a trajetória dela. Hoje, Carol é intérprete das próprias composições. “Se eu não tocar, quem vai tocar?”, ela brinca. E a resposta, como ela mesma reconhece, é que já tem muita gente tocando as músicas dela por aí.
Natureza é Casa: o álbum que nasceu na floresta
O álbum mais recente de Carol se chama “Natureza é Casa” e tem uma origem muito específica: a pandemia. Quando o mundo parou, ela foi morar num sítio isolado em Santo Antônio da Serra, em Xerém, no interior do Rio de Janeiro. Um lugar onde nem Uber chegava.
A floresta do lado de casa virou estúdio. Com o violino, frutas na bolsa e o celular para gravar as melodias que surgiam, Carol passava tardes inteiras à beira de um riacho. “Foi um processo de cura”, ela diz, falando sobre a reconexão com a natureza e com ela mesma em meio a um momento de tanta incerteza.
As músicas que nasceram ali têm uma cara diferente das que ela compõe ao piano. Quando o violino é o ponto de partida, vem forró, choro, frevo, as formas mais orgânicas da música regional. Quando o piano lidera o processo, a harmonia puxa outro tipo de melodia, outras texturas.
Violino em aldeias: emoção e continuidade
Depois do álbum, Carol começou a fazer imersões com povos originários. Ela foi ao Acre, desceu rios no Amazonas e chegou à comunidade de Cajatuba, no Rio Negro. Saiu de lá aos prantos.
Ela viaja com um violino especialmente escolhido para essas aventuras: resistente, todo pintado, pronto para tocar dentro de cachoeira se necessário. Nas aldeias, as crianças ficam fascinadas. O instrumento ao vivo, o som de perto, a possibilidade de tocar, tudo isso provoca uma reação que ela descreve com emoção genuína.
Jean trouxe esse assunto para um plano pessoal. Ele também nasceu musicalmente em um projeto social, aqui em Cotia, e revelou que o Violino Didático pensa em criar um braço social para além do conteúdo gratuito no YouTube. O desafio, como Carol reforça, é a continuidade. Ir uma vez é possível. Manter um projeto funcionando exige estrutura, parcerias e muito trabalho burocrático.
Música Universal e o legado de Hermeto Pascoal
Outro tema que aparece na conversa é o conceito de Música Universal, ligado à escola de Hermeto Pascoal. Carol promete aprofundar o assunto e o suspense fica no ar: ela descreve como “tirar uma cortina”. O que se sabe é que esse pensamento musical influencia diretamente as oficinas que ela ministra, nas quais compõe para o grupo presente, seja qual for o nível ou o instrumento.
Essa capacidade de criar na hora, para quem está ali, é o que conecta todas as facetas da carreira dela: a composição autoral, as trilhas sonoras, os arranjos, o trabalho didático. Tudo passa pela criação.
Uma carreira construída em muitas frentes
Carol faz trilha sonora de filmes e podcasts, toca vários instrumentos, tem home studio, dá oficinas e ainda mantém seu trabalho autoral com shows. A diversidade não é acidente: é estratégia e consequência natural de quem sempre quis criar em vez de apenas reproduzir.
Para quem pensa em viver de música, ela oferece uma perspectiva realista e ao mesmo tempo animadora. Os caminhos existem, mas a maioria das pessoas nem os enxerga. Trilha, arranjo, composição para projetos educativos, oficinas, trabalho autoral: são muitas portas para quem desenvolve de verdade a capacidade de criar.
A conversa com Carol Panesi é daquelas que ficam. Ela fala de música com a mesma naturalidade com que fala de floresta, de aldeia, de prima, de pandemia. Tudo está conectado, e o violino é o fio que costura tudo isso.
Ouça o episódio completo no YouTube: CAROL PANESI - Podcast do Violino Didático #070