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Carolina Kliemann: da OSESP aos 4 anos de violino

Podcast Violino Didático

A violinista com seis gatos e uma carreira de décadas na OSESP

Carolina Kliemann chegou a Cotia depois de horas de estrada, cochilou no carro e foi direto ao ponto: violinista da OSESP desde 2007, integrante do duo Du Divas e sem qualquer pretensão de dar aulas. Simples assim.

Jean de Oliveira a recebeu no Podcast do Violino Didático com o título de “violinista mais gateira da OSESP”. A própria Carol não tinha tanta certeza, mas confirmou: seis gatos em casa.

Quatro anos de idade e um violino nas mãos

A história começa em Curitiba, nos anos 1980, dentro de uma família musical. A mãe tocava piano, o tio estudou violino, e os dois irmãos mais velhos de Carol foram matriculados em uma escola de método Suzuki que vivia um boom na cidade.

Carol era a caçula. Ia junto porque não havia com quem deixá-la em casa. E quis tocar porque queria fazer igual aos irmãos.

Parece simples. E foi. Com quatro anos, ela estava com o instrumento nas mãos.

Ler partitura antes de ler palavras

Uma das histórias mais surpreendentes do episódio veio da boca da própria mãe de Carol. Antes de ser alfabetizada, a menina já identificava as notas na partitura.

A professora duvidou. A mãe insistiu. A professora testou. Carol acertou.

Ela mesma admite não saber se o episódio é exatamente assim, já que não tem memória da cena. Mas a lógica faz sentido: ela cresceu ouvindo os irmãos praticarem. O olhar associou símbolos a sons antes que qualquer instrução formal chegasse.

O método Suzuki: o que funcionou e o que faltou

Jean e Carol entraram em um território importante: o que o Suzuki entrega, e o que ele deixa para trás.

No lado positivo, Carol aponta o gosto pelo instrumento. Com pouca idade, ela já tocava músicas reconhecíveis, subia num palco ao lado de alunos mais velhos e se sentia parte de algo maior. Isso cria motivação.

No lado da formação técnica, os problemas vieram depois. A mão direita, o arco, os golpes específicos como picatto, staccato e martelé: nada disso foi trabalhado de forma isolada. O foco era tocar as músicas, não desenvolver a técnica que sustenta cada movimento.

O resultado foi um trabalho de reconstrução técnica que Carol teve que fazer mais tarde, com outras professoras.

Jean reforçou o ponto com cuidado: o método em si não é o problema. O que define o resultado é a qualidade do professor. Em centros com formação Suzuki séria, os resultados são impressionantes. Ele mesmo visitou o estúdio Suzuki de Brasília e viu um aluno de 16 anos tocando Brahms com cadência própria, a caminho de uma competição nos Estados Unidos.

A ferramenta funciona. O que varia é quem a usa e como.

A professora Fukuda e os famosos “okays” no caderninho

Por volta dos 14 ou 15 anos, Carol começou a estudar com Elisa Fukuda, referência absoluta no ensino de violino no Brasil. E lá a régua mudou de patamanho.

Os estudos eram avaliados linha por linha. Um “ok” da professora significava que aquela linha estava aprovada. Sem o ok, voltava. E os alunos disputavam entre si quem chegava com mais okays no caderninho.

Carol ria ao contar. Jean também. Mas os dois reconheceram o valor daquele sistema: exigência com critério, sem elogio vazio.

Jean contou a própria experiência com a professora Fukuda. Tocou o Adágio da Primeira Sonata de Bach inteiro para ela, e a professora escutou do começo ao fim sem interromper. No final, disse: “ok, o que mais você tem?”

Depois do Mendelssohn, a avaliação foi mais detalhada: afinação boa, ritmo bom, mas sem cultura suficiente para tocar aquilo ainda. E a aula virou um trabalho direto no Kreutzer.

Para quem conhece a professora, “teve coisas boas” equivale a um elogio. É o jeito dela. E funciona.

Ser solista não é uma profissão, é uma gig

Como toda criança que começa cedo e vai bem, Carol passou pela fase de achar que seria solista. A professora até desaconselhava tocar em orquestra durante a formação: a preocupação era com a atenção dispersa, com hábitos ruins que surgem quando você toca em grupo antes de ter base técnica sólida.

Mas a vida adulta chegou. Contas para pagar, mercado para entender.

E Carol colocou em palavras algo que poucos falam abertamente: ser solista não é uma profissão. É uma gig. Um cachê. Mesmo os grandes nomes, como Perlman e Zukerman, tinham suas bases em universidades como Juilliard e Manhattan School of Music. Os recitais e concertos eram compromissos paralelos, não a fonte principal de renda.

O solo glamoroso existe. Mas ele sustenta muito menos gente do que a maioria dos estudantes imagina.

A disciplina que vem de fora, e a que precisa vir de dentro

Carol começou a praticar sozinha de verdade quando percebeu que estava se destacando. A lógica é parecida com a do esporte: quando você descobre que é bom em algo, quer ser melhor ainda.

Mas antes disso, quem garantia a prática diária era a mãe. “Ferro e fogo”, disse Carol, rindo. A havaiana na mão era metáfora, mas a seriedade não era.

Jean abriu um parêntese importante aqui: essa é uma das grandes vantagens de começar criança. A família impõe a disciplina que a criança ainda não tem condição de impor a si mesma. O adulto que começa hoje precisa encontrar essa força dentro de si, sem ninguém para cobrar. É mais difícil, mas é possível, e é o caminho.

Primeiros concursos, primeiras vitórias

Ainda pequena, Carol participou do concurso de Piracicaba e voltou com menção honrosa. Sem entender direito o que era, achava que ia ganhar uma rosa de verdade.

No mesmo ano, com nove anos de idade, foi ao Concurso Paulo Bosísio no Rio de Janeiro e tirou primeiro lugar na primeira fase.

A competição saudável entre colegas apareceu aqui como tema. Jean e Carol alinharam o conceito: não é comparação para diminuir o outro, é olhar para quem está à frente e querer chegar lá. Ver que um colega já está no Kreutzer e perguntar o que você precisa fazer para chegar naquele mesmo repertório.

Essa é a competição que forma. A outra, a que critica sem construir, só atrapalha.

Uma trajetória que começa onde a maioria acha que não dá

Carol começou sem pedir. Foi arrastada para as aulas pelos irmãos, sem intenção, sem projeto. E de lá construiu uma carreira de décadas na maior orquestra do Brasil.

A mensagem não é que você precisa começar aos quatro anos. É que o ponto de partida raramente tem a forma que a gente imagina.

Ouça o episódio completo no YouTube: CAROLINA KLIEMANN - Podcast do Violino Didático #057

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