Ir para o conteúdo

Catarina Rossi: viola, rabeca e música em transformação

Podcast Violino Didático

Catarina Rossi é violista, ex-pesquisadora de rabeca e uma das músicas mais curiosas que já passaram pelo Podcast do Violino Didático. Ela e Jean de Oliveira têm uma história em comum que começa muito antes de qualquer gravação: os dois aprenderam música no mesmo lugar, quando ainda eram crianças, em Cotia. Essa conversa tem o sabor especial de quem se reenconta depois de muitos anos.

O papo foi leve, cheio de memórias e reflexões honestas. Catarina falou sobre o caminho que a levou da viola à rabeca, sobre o mestrado na Unicamp, sobre um CD gravado com André Mehmari e sobre como a relação com a música vai mudando ao longo da vida.

Da infância em Cotia ao violino (e logo depois, à viola)

Catarina começou no mesmo espaço onde Jean deu seus primeiros passos na música. Ela se lembra de pegar o instrumento quase só na hora da aula coletiva, como fazia a maioria dos colegas. Mas Jean, segundo ela, foi um grande incentivador desde cedo: ele fazia arranjos, colocava todo mundo para tocar e já mostrava possibilidades além do repertório do curso.

Ela começou no violino, mas logo migrou para a viola. E foi nesse instrumento que sua trajetória ganhou fôlego de verdade, especialmente quando entrou na Unicamp.

Unicamp, orquestra e o cansaço de uma caixa

Na graduação em viola pela Unicamp, Catarina viveu a fase do sonho clássico: tocar todos os concertos do repertório, ir para fora, entrar em orquestra. Ela trabalhou em duas orquestras tradicionais e reconhece a beleza do que é fazer música com cem pessoas pensando no mesmo propósito.

Mas chegou um momento de esgotamento. “Como uma pessoa pode tocar uma coisa tão bonita e ser tão chata?”, ela disse, com toda a ironia. A beleza do projeto coletivo existe lado a lado com o desgaste de conviver com personalidades muito diferentes. Esse cansaço a fez questionar o caminho.

Ela chegou a pensar em voltar para o violino e até tentou, mas o professor Esdras foi direto: “Não dá. Com o violino a resposta é muito rápida, não tem tempo de pensar.” A viola permite mais peso, mais respiro. O violino, não.

A rabeca que veio do maestro

O que aconteceu a seguir foi algo que a própria Catarina descreve como uma virada inesperada. Ainda criança, ela havia ganhado uma rabeca do maestro do lugar onde estudava, em Cotia. O instrumento ficou guardado por anos, quase esquecido.

Foi o mesmo professor Esdras quem a relembrou desse presente e sugeriu: por que não fazer um mestrado em rabeca? Catarina foi para o Recife durante uma greve na Unicamp, ficou vinte dias, conheceu rabequeiros das mais diversas tradições e voltou completamente tomada pelo instrumento.

A pesquisa que resultou desse percurso investigou o processo de “contemporaneização” da rabeca: como ela foi saindo dos contextos de cultura tradicional e se movimentando para novos territórios. O mestrado foi concluído em 2019 e, segundo Catarina, já está desatualizado porque o campo explodiu. Hoje existe um grupo de WhatsApp com trezentos rabequeiros trocando ideias e criando coisas novas.

O CD com André Mehmari

Um dos momentos mais marcantes da conversa foi quando Catarina falou sobre gravar um CD de rabeca com o compositor e pianista André Mehmari. Ela o define com uma palavra: generosidade. Da alma, do ser e da música.

A gravação nasceu de um projeto enviado durante a pandemia. Catarina foi à casa de André com o músico Rafael Cesário, passaram uma tarde juntos, gravaram vídeos e decidiram levar o projeto adiante. O CD foi aprovado e realizado.

Ela admite que ficou tensa no início: André Mehmari é um músico de altíssimo nível, capaz de tocar praticamente todos os instrumentos. Mas ele tem um jeito de deixar os parceiros à vontade que faz emergir o melhor de cada um. Catarina disse que, ao ouvir o disco recentemente, se surpreendeu: “Que CD bonito que esse homem fez. Que a gente fez.”

Depois vieram shows, incluindo uma apresentação no Festival de Garanhuns, com a participação de Rafael Cesário. Catarina conta que ficou mais nervosa no palco do que no estúdio, exatamente porque a presença de músicos tão potentes ao vivo aumenta a pressão.

Rabeca e o fim (por ora) da fase acadêmica

Hoje Catarina trabalha com viola erudita e está em uma pausa da pesquisa em rabeca. Ela é clara ao dizer que foi pesquisadora, mas que esse ciclo, pelo menos por ora, se encerrou. A vida musical, ela observa, é feita de fases e caixas que a gente vai abrindo e fechando.

Há também um cuidado evidente na forma como ela fala sobre a rabeca e a cultura do Nordeste. Como alguém que chegou ao instrumento por fora dessa tradição, ela reconhece que ocupa um lugar de admiradora e pesquisadora, não de portadora dessa memória. Esse respeito atravessa toda a conversa.

Uma trajetória que não se encaixa em linha reta

O que fica dessa conversa é a imagem de uma música que não aceita ser reduzida a um único papel. Catarina foi violinista, virou violista, pesquisou rabeca, gravou um CD, trabalhou em orquestra e continua mudando. Ela e Jean, que também passou por tantas transformações na própria trajetória, riram muito ao reconhecer isso um no outro.

A mensagem que fica é simples e poderosa: a música não é uma linha reta. É uma série de encontros, de instrumentos ganhos de presente, de professores que aparecem na hora certa, de viagens que mudam tudo.

Ouça o episódio completo no YouTube: CATARINA ROSSI - Podcast do Violino Didático #073

Continue lendo