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Cláudio Cruz: trajetória do spalla da OSESP

Podcast Violino Didático

O passo mais elegante do palco

Antes de tocar uma única nota, Cláudio Cruz já impressionava. Jean de Oliveira guarda na memória a imagem do maestro entrando no palco quando ainda era adolescente na EMESP: peito estufado, postura impecável, presença de sobra.

A história por trás desse porte tem um nome inusitado: Clodovil. O famoso estilista e deputado foi convidado, em 1985, para dar uma aula de palco a uma jovem orquestra de câmara chamada Crescendo. Ele entrou na sala, apontou para o jovem Cláudio e disse que era o pior de todos. E completou: no momento em que você pisa no palco, você já é um artista.

Foi uma lição que Cláudio nunca mais esqueceu.

Uma família de músicos amadores, no melhor sentido

Cláudio Cruz cresceu numa família onde a música era presença constante, mas nunca profissional. Sua mãe tocava um pouco de órgão em casa. Seu pai era lutier e violinista amador, com um conhecimento técnico profundo sobre o instrumento.

Aos 7 ou 8 anos, Cláudio começou no piano. Aos 10, migrou para o violino, aprendendo com o próprio pai. Tentou alguns professores externos, mas não se adaptou. A didática paterna parecia suficiente, por enquanto.

O pai havia aprendido o ofício da luteria com Rafael Leone, um lutier que atuou no Brasil, e construiu uma trajetória importante nos Estados Unidos. Aos fins de semana, enquanto outros meninos brincavam, Cláudio tinha aulas de fabricação de violinos.

Aos 15 anos, sozinho no Rio de Janeiro

Foi o professor Eric Lenninger quem mudou tudo. Ele ouviu Cláudio tocar em São Paulo e deu um recado direto: posso te dar aulas, mas você precisa vir para o Rio, onde lecionava na Unirio.

Cláudio não queria ir. Mas queria estudar com Lenninger. E foi.

Com 15 anos, saiu de casa, cruzou o país e foi morar sozinho no Rio de Janeiro. Para a família, foi tranquilo. Para ele, foram semanas de choro noturno, até começar a se enturmar.

Ele tinha uma bagagem curiosa nessa mudança: calças de tergal, camisa social, sapato e meia. Chegou à Orquestra Jovem do Rio de Janeiro e encontrou todo mundo de bermuda e chinelo. O apelido não demorou: Cruz. E ele assume que mereceu.

Mas a adaptação veio rápido. A calça jeans substituiu o tergal. As amizades foram se formando. E essas pessoas, Cláudio afirma, ainda são queridas até hoje.

A escola que moldou um violinista

O maior choque ao deixar as aulas do pai não foi a disciplina. Foi o acesso a uma escola de violino sólida e estruturada. Lenninger era herdeiro da tradição de Carl Flesch, através de Max Rostal, e ensinou a Cláudio uma abordagem técnica rigorosa, especialmente para a mão esquerda.

Com o tempo, Cláudio também absorveu elementos da escola de Galamian. Hoje ele usa o arco mais próximo dessa segunda vertente, mas mantém quase intacto o que aprendeu com Lenninger para a mão esquerda.

Na Orquestra Jovem, o maestro David Machado logo percebeu o talento do jovem paulista e o colocou no revezamento dos espalas. Anos depois, quando Machado assumiu o Teatro Municipal de São Paulo, ele se lembrou de uma dívida: Cláudio não havia recebido a bolsa a que tinha direito. O convite para tocar como solista veio como forma de acerto. Foram 32 apresentações no total.

A ligação com o Rio que muita gente não sabe

Em 2018, Cláudio Cruz voltou ao Rio de Janeiro, desta vez como maestro titular da Orquestra do Teatro Municipal. Por conta própria, teria ficado para sempre: adorou a orquestra, adorou o público, adorou a cidade.

Mas a política falou mais alto. Com a troca de governador, ele foi dispensado. O governador que o contratou estava preso; o novo não o manteve. Cláudio resume com leveza: tente ser governador do Rio e não ser preso.

O carinho pela cidade, porém, permanece intacto. Ele fala do público carioca com admiração genuína: fiel, culto, apaixonado por música.

A história do Florian e o violino na frente do corpo

Durante a conversa com Jean, veio à tona um detalhe técnico que conecta gerações. Florian, professor de Jean na EMESP, passou aos alunos um ensinamento sobre postura: colocar o violino mais à frente do corpo, para que as duas mãos fiquem no campo de visão e o controle seja maior.

Essa ideia teria chegado ao Florian numa conversa casual com Cláudio, talvez num intervalo de ensaio. Uma observação simples, quase de passagem, que tocou fundo e virou ensinamento.

Cláudio, ao ouvir a história de Jean, fez uma ressalva importante: isso é muito particular. Quem tem braços longos precisa abrir mais o violino para o lado. Quem tem braços curtos pode trazê-lo mais à frente. Não há regra universal.

O que havia de errado, na visão dele, era o extremo oposto: pescoço virado ao máximo, cotovelo jogado para o lado, instrumento quase apontando para trás. Uma posição que era comum e que prejudicava muita gente.

O teste na EMESP que Cláudio nem lembrava

Jean contou, ao vivo, como foi o teste de admissão na EMESP. Ele tinha uns 13 anos. Havia dez professores de violino na banca, quando o normal seria três ou quatro. Ele não sabia quem era nenhum deles.

Tocou um capricho de Sarasate, aprendido de ouvido pelo YouTube, a partir de uma masterclass de Vengerov. Quando Cláudio perguntou pela partitura, Jean respondeu que não havia: tinha aprendido só de ouvido.

Cláudio ficou com uma expressão de interrogação. Jean foi embora sem certeza. Passou.

Foi só depois que soube que aquele senhor com a cara de interrogação era o spalla da OSESP. E aí começou a entender o peso daquele momento.

Um caminho construído cedo e com as mãos

O que chama atenção na trajetória de Cláudio Cruz é a combinação de precocidade e trabalho braçal. Aos 12 anos, já procurava emprego. Aos 13, era office boy na Método Engenharia e trabalhava num escritório de contabilidade. Aos fins de semana, aprendia a fabricar violinos com o pai.

Não havia um caminho fácil traçado. Havia música em casa, incentivo da família e muita disposição para ir atrás, mesmo quando isso significava chorar de saudade, sozinho, num quarto no Rio de Janeiro.

Essa disposição é o que atravessa toda a conversa: a ideia de que o caminho para a música exige entrega real, sem atalhos.


Ouça o episódio completo no YouTube: CLAUDIO CRUZ - Podcast do Violino Didático #033

Se a história do Cláudio Cruz te inspirou, lembre-se do que Jean repete sempre: todo mundo é capaz de tocar violino. O primeiro passo é simplesmente começar.

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