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Daniele Salina e Amanda Mathias: como tudo começou para professoras de violino

Podcast Violino Didático

Dar a primeira aula de violino é uma experiência que poucos professores esquecem. O nervosismo, a falta de método, a sensação de que saber tocar não significa saber ensinar. É exatamente sobre isso que Daniele Salina e Amanda Mathias conversaram com Jean de Oliveira em um bate-papo cheio de sinceridade e histórias que qualquer professor de música vai reconhecer.

As duas são professoras do Violino Didático e têm trajetórias distintas, mas com um ponto em comum: nenhuma das duas começou da forma convencional. E é justamente essa honestidade sobre os primeiros passos que torna a conversa tão rica.

Do banheiro do projeto social ao Baccarelli

Amanda Mathias começou no violino de uma forma que ela própria descreve como “não convencional”. Ela entrou num projeto social e logo percebeu que o método de ensino deixava muito a desejar. O professor entrava na sala, afinava o instrumento, entregava na mão do aluno e dizia: “Se vira.”

Inconformada, Amanda começou a ajudar os colegas com dificuldades. O lugar? Um quartinho nos fundos do banheiro, onde ficavam materiais de limpeza. Ela mesma resume com bom humor: era contrabando de informação. Jean brincou que o corte para aquele momento tinha que ser certeiro: “Professora de violino começou dando aula no banheiro.”

De lá, Amanda seguiu para o Instituto Baccarelli, em São Paulo, onde atuou como monitora do naipe de cordas da orquestra infantil. Ainda sem remuneração, mas já construindo um currículo. Entre seus alunos dessa época estão nomes que ela cita com carinho: Wesley Vasconcelos e Gabriel Meca, hoje músicos com carreiras sólidas.

A primeira aula paga de verdade veio em 2008 e 2009, numa escola na Mooca. Amanda tinha 18 anos e ganhava cerca de R$ 700 por mês. Ela conta que mandou currículo para todas as escolas de música que encontrou no Google, sem saber nem onde ficavam os bairros. “Mandei para tudo que é lugar, nem sabia onde era Corinthians ou Tatuapé.”

A intuição como primeiro método

Quando Amanda chegou à sala de aula, ela não tinha um método definido. Sua principal referência era a própria experiência: como ela teria gostado de aprender? A partir disso, ela criou uma abordagem intuitiva.

Ela evitava entregar o instrumento logo de cara, com medo de acidentes. Apresentava as peças do violino, explicava o arco e só depois colocava o instrumento nas mãos do aluno. Para tornar as primeiras notas mais encantadoras, aprendeu harmonias do método Suzuki no piano e acompanhava os alunos enquanto eles tocavam cordas soltas. A sensação para as crianças era de estar fazendo música de verdade, e estava.

“Se você não tem o piano por trás, a criança sente que não está fazendo muita coisa”, ela explica. Com o acompanhamento, tudo mudava.

Daniele Salina: a pressão de passar uma música nova por semana

Daniele Salina começou a dar aula logo que entrou na Unicamp, com 24 anos. Ela também recorreu ao Google para encontrar escolas e mandou currículos aos montes. A primeira resposta veio de uma escola na Lapa, em São Paulo, onde começou com uma única aluna de 12 anos.

Sua principal referência também era a memória das próprias aulas. Ela estudou pelo método Suzuki e, sem formação formal como professora Suzuki, recorreu ao que tinha guardado: como o professor segurava o arco, como explicava a postura, quais eram as primeiras instruções. Ela nunca ensinava o aluno a afinar o violino no início, ela mesma afinava uma vez por semana.

Um dos pontos que ela identifica como maior fraqueza no começo era a ansiedade de avançar rápido demais. Ela achava que precisava apresentar uma música nova a cada aula. As variações do método Suzuki, que deveriam durar semanas, eram comprimidas em poucas sessões. Só com o tempo ela entendeu que repetição e consolidação são tão importantes quanto o avanço.

Jean de Oliveira: os 50 reais que pagavam a condução

Jean também entrou na conversa com a sua própria história de início. Ele cresceu em Cotia, interior da Grande São Paulo, e começou no violino aos seis anos num projeto social. Dos seus 30 anos de vida, 24 foram tocando violino. “Não tenho muitas lembranças da minha vida antes do violino”, ele conta.

Aos 12 ou 13 anos, prestou o teste para a então Universidade Livre de Música, hoje EMESP Tom Jobim. Tocou o Capricho Básico de Sérgio Assad e impressionou a banca. Mas havia um problema prático: precisava de dinheiro para pagar a condução de Cotia até a estação da Luz, três vezes por semana, sem linha amarela de metrô.

A solução foi negociar com o Maestro Márcio Damo, seu primeiro professor: Jean ajudaria nas aulas do projeto em troca de ajuda com as passagens. Eram cerca de R$ 75 por mês. Junto com isso, começou a dar aulas particulares para uma aluna do próprio projeto chamada Bianca, cuja mãe pagava R$ 50 mensais por reforço.

Jean é o primeiro a admitir que era um péssimo professor no começo. Com 13 ou 14 anos, ele tinha muita facilidade no instrumento e pressupunha que todos os alunos aprenderiam da mesma forma. A abordagem era simples e ingênua: “É só fazer. Se eu consigo fazer, é só fazer.” Hoje ele reconhece que sentiu falta da habilidade de se colocar no lugar do iniciante, algo que veio com o tempo e com a experiência.

O que essa conversa revela sobre o ensino de violino

Os três professores compartilham uma mesma lição: há uma diferença enorme entre tocar bem e ensinar bem. Saber o instrumento é o ponto de partida, mas a pedagogia é uma habilidade que precisa ser desenvolvida separadamente.

Amanda usou a empatia como bússola. Daniele usou a memória de como aprendeu. Jean aprendeu na prática, errando com os primeiros alunos. Cada caminho foi diferente, mas todos levaram ao mesmo lugar: professores que hoje ensinam com consciência, método e cuidado genuíno com quem está começando.

E talvez seja exatamente isso que torna esse bate-papo valioso para qualquer professor de violino: a coragem de dizer “no início eu não sabia nada” e mostrar que isso faz parte do processo.

Ouça o episódio completo no YouTube: DANIELE SALINA & AMANDA MATHIAS - Podcast do Violino Didático #010

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