Ir para o conteúdo

Eliane Tokeshi: violino, USP e pedagogia da performance

Podcast Violino Didático

Eliane Tokeshi é, nas palavras de Jean de Oliveira, “a maior professora low profile de violino do Brasil”. Professora de violino na Universidade de São Paulo e vice-diretora em exercício da Orquestra Sinfônica da USP, ela é uma das figuras mais importantes do ensino do instrumento no país. E, surpreendentemente, ainda pouco conhecida do grande público.

A conversa com Jean aconteceu em Cotia, e rendeu muito mais do que uma troca de experiências entre músicos. Foi um mergulho honesto nas questões que cercam o ensino de violino no Brasil: como se aprende, como se ensina, e por que essas duas coisas não são a mesma coisa.

O que é pedagogia da performance (e por que ela importa)

Um dos termos que logo chamou atenção na conversa foi “pedagogia da performance”. Eliane explica que pegou emprestado o conceito de uma colega, a professora Sonia Ray, da Universidade Federal de Goiás.

A ideia surgiu de um incômodo real. Nos congressos de música, havia espaço para musicologia, análise e performance. Nas associações de educação musical, havia espaço para a educação em geral. Mas ninguém discutia com seriedade como se ensina a tocar um instrumento.

A pedagogia da performance tenta preencher essa lacuna. É uma abordagem multidisciplinar que envolve neurociência, psicologia, musicologia e análise, tudo voltado para um objetivo central: entender como se aprende e como se ensina a tocar. Na USP, Eliane oferece esse curso a cada dois anos como matéria optativa na graduação. O apelido entre os alunos diz tudo: “opcional porém obrigatória”.

Este ano, a matéria foi aberta também para extensão, com vagas para pessoas de fora da universidade. Uma oportunidade rara para qualquer violinista que queira entender o processo de aprendizado com mais profundidade.

A aula que se adapta ao aluno, não o contrário

Eliane tem uma visão bem definida sobre personalização no ensino. Ela conta que, se alguém olhar os planos de trabalho das disciplinas de violino que ela oferece na USP, vai achar tudo muito aberto e parecido entre si. Isso é proposital.

Para ela, deixar a ementa aberta é uma maneira de ter liberdade para tomar decisões diferentes para cada aluno. Um aluno pode precisar de um ritmo de aprendizado. Outro já chega com determinadas habilidades e pode avançar por outro caminho.

O que não muda, em essência, é o objetivo final: que cada aluno saia com material suficiente para que suas portas estejam abertas. Quais portas? Isso, segundo ela, depende de quem está do outro lado.

O mundo além das orquestras

Esse ponto gerou um dos momentos mais marcantes da conversa. Jean comentou que seu principal professor de violino ainda não entende bem o que ele faz. Nas raras vezes em que conversam, o professor sugere que ele deveria fazer testes para orquestras. Como se o sucesso só existisse dentro de um determinado formato.

Eliane entendeu imediatamente o que Jean quis dizer. Para ela, o mundo da música mudou, e a função do professor é acompanhar essa mudança. Ela citou uma frase do professor Paulo Bosísio que define bem essa filosofia: a função do professor é fazer o aluno feliz dentro do que ele pode fazer com o instrumento, e dentro do que ele quer fazer.

Isso significa que há espaço para o violinista de orquestra, para o camerista, para o professor universitário, para o músico popular, e também para quem escolhe um caminho completamente novo, como Jean fez com o Violino Didático. Não existe hierarquia entre esses caminhos.

Piracicaba, a escola do maestro Malikowski e uma sorte chamada oportunidade

A história de Eliane com o violino começa em Piracicaba, no interior de São Paulo. Ela conta que teve muita sorte, como ela mesma faz questão de dizer, por ter nascido numa família que valorizava a educação. E por essa família ter encontrado, em Piracicaba, a Escola de Música do Maestro Ernest Malikowski.

Ela entrou na escola com seis ou sete anos. Passou pela musicalização, tocou flauta doce, estudou piano, e chegou ao violino. A escola era, nas palavras dela, o seu quintal.

O maestro Malikowski e sua esposa construíram ali algo raro. Quando não havia recursos públicos disponíveis, eles usavam os próprios para comprar instrumentos de todos os tamanhos para as crianças, manter uma biblioteca imensa e trazer professores de fora para dar cursos. Entre esses professores, estavam nomes como Elisa Fukuda e Paulo Bosísio.

O impacto desse trabalho é concreto e mensurável. Na Orquestra Sinfônica da USP, uma orquestra profissional, há pelo menos cinco músicos vindos de Piracicaba. Tudo graças a um esforço que começou longe dos holofotes, numa cidade do interior.

Uma trajetória construída com gratidão e consciência

Eliane Tokeshi fala da própria trajetória sem falsa modéstia, mas também sem arrogância. Ela reconhece as condições que teve, nomeia os professores e as instituições que passaram pela sua formação, e conecta tudo isso ao trabalho que faz hoje.

Há uma coerência clara entre o que ela viveu e o que ela ensina. Quem passou por uma formação sólida e diversificada sabe, mais do que ninguém, o quanto isso faz diferença. E parece ser exatamente por isso que ela investe tanto em entender como esse processo funciona, e em transmiti-lo com mais consciência.

A conversa com Jean deixa essa impressão: Eliane Tokeshi é o tipo de professora que pensa sobre o ensino com o mesmo cuidado com que toca. E isso, no mundo do violino, ainda é mais raro do que deveria.

Ouça o episódio completo no YouTube: ELIANE TOKESHI - Podcast do Violino Didático #062

Continue lendo