Ir para o conteúdo

Emiliano Patarra: maestro, regente e condutor de pessoas

Podcast Violino Didático

Emiliano Patarra é maestro, professor, diretor artístico e uma das figuras mais ativas da cena orquestral brasileira. Jean de Oliveira o recebeu no Podcast do Violino Didático com uma confissão bem-humorada: foi Patarra quem o salvou de dormir na rua várias vezes. A história ficou por ser contada, mas o ambiente já ficou caloroso antes mesmo da primeira pergunta.

A conversa que se seguiu foi rica, direta e cheia de reflexões que extrapolam o mundo da música. Patarra falou sobre gestão de equipes, liderança, o nome da profissão e o verdadeiro papel de quem está à frente de uma orquestra.

Três orquestras, uma faculdade e um conservatório

Quando Jean perguntou sobre as atividades musicais do momento, Patarra simplesmente começou a listar. É diretor artístico e maestro titular da Orquestra Gru Symphony, a Orquestra Jovem Municipal de Guarulhos. Também assume a mesma função na Orquestra Filarmônica de Marília. Dirige ainda o Conservatório Municipal de Guarulhos, leciona na Faculdade Santa Marcelina em diversas disciplinas e coordena o curso de música da mesma instituição.

Diante da lista, Jean brincou com a imagem da ampulheta de Hermione Granger. Patarra riu, mas logo trouxe a resposta com seriedade: o segredo está em delegar bem e acreditar no trabalho coletivo. “Nenhum desses trabalhos, quando funciona bem, é mérito exclusivamente meu”, disse ele.

O maestro como gerente de equipe

Uma das ideias centrais da conversa foi a comparação entre o maestro e um gestor corporativo. Patarra usa essa analogia em suas aulas de regência. Para ele, reger é coordenar pessoas, tomar decisões que afetam a todos e construir um ambiente onde diferentes potenciais possam se encontrar.

Mas há uma diferença crucial em relação a uma empresa comum: na orquestra, todos os setores se influenciam o tempo inteiro. Se o trombonista acelera, o violinista sente. Se o flautista atrasa, a orquestra toda oscila. É uma equipe que interage integralmente, em tempo real, diante de um público que avalia cada concerto ao vivo.

Essa exposição constante cria uma tensão que Patarra reconhece como parte do trabalho. Não é algo a ser eliminado, mas compreendido e gerenciado.

O jogador certo no lugar certo

Outra reflexão poderosa veio quando Patarra falou sobre o aproveitamento das pessoas. Ele usou a analogia do futebol: uma equipe se estrutura com os jogadores disponíveis, e o papel do condutor é enxergar onde cada um rende mais.

Ele deu um exemplo direto ao próprio Jean: um violinista tecnicamente brilhante pode não ter o perfil de chefe de naipe. Outro pode ser um camerista excelente, mas jamais um solista. Não é questão de capacidade técnica, é questão de função. Encaixar cada pessoa no papel certo é, para Patarra, uma das principais responsabilidades de quem lidera.

“Não adianta querer que ele se organize de outra maneira”, resumiu. “É entender quais são as peças que eu tenho e onde elas se encaixam melhor para que a máquina funcione.”

Regente, maestro ou conductor: qual o nome certo?

Um dos momentos mais instigantes da conversa foi a análise do próprio nome da profissão. Patarra tem uma opinião clara: o termo “regente”, usado no Brasil, é ruim. Vem de “rei”, e traz a conotação errada de poder absoluto, uma imagem do século XIX que ainda persiste no imaginário popular.

“Maestro” é melhor, na visão dele. Na Itália, o título é dado a qualquer músico com longa trajetória, como sinal de respeito. Tem raiz no conceito de professor, o que faz sentido para alguém que conduz e ensina ao mesmo tempo. Mas há o risco de confundir a reverência pelo percurso com o simples exercício da profissão: um jovem de 22 anos pode reger muito bem sem ainda ser um maestro no sentido pleno do termo.

“Diretor” tem uma conotação burocrática que não o entusiasma. Já o termo em inglês, “conductor”, é o que Patarra considera ideal.

Por que “conductor” é a palavra certa

A explicação foi uma das mais bonitas de toda a conversa. Um condutor, na física, é o fio que permite a passagem da eletricidade. Sozinho, ele não faz nada. Mas sem ele, nada acontece.

Patarra usou essa imagem para desmistificar o papel do maestro: ele não é dono de nada. Ele porta algo que não é dele. Seu papel é permitir que o potencial de cada músico entre em contato com o dos outros, que a partitura deixada pelo compositor se transforme em som vivo, e que tudo isso chegue ao público de uma forma que faça sentido para aquele momento específico.

“A batuta não desafina”, brincou ele, retomando um dito clássico dos músicos de orquestra. A piada esconde uma verdade: sem os músicos, o maestro é só um homem com um graveto na mão.

Decidir na hora certa vale mais do que decidir certo

Patarra também tocou em um princípio de liderança que vale muito além da música. Em situações de pressão, uma decisão boa tomada na hora certa é mais valiosa do que a decisão ideal tomada tarde demais.

Ele usou uma imagem bem visual: um bando de macacos na floresta que precisa reagir à chegada de um urso. Se ninguém decidir nada, todos morrem. Subir na árvore pode não ter sido a melhor saída, mas pelo menos foi uma saída coletiva, tomada a tempo.

Essa clareza sobre responsabilidade e tomada de decisão atravessou toda a conversa. Para Patarra, liderança é isso: assumir o rumo, aceitar que pode errar e garantir que a equipe se mova junta.

Uma conversa que vai além do violino

Esta conversa entre Jean de Oliveira e Emiliano Patarra é daquelas que ficam. Não porque fala sobre técnica ou repertório, mas porque trata de algo mais amplo: o que significa coordenar pessoas em torno de algo belo e exigente.

Para quem toca em orquestra, estuda regência ou simplesmente lidera equipes em qualquer área, as reflexões de Patarra são um presente direto e sem enrolação.

Ouça o episódio completo no YouTube: EMILIANO PATARRA - Podcast do Violino Didático #061

Continue lendo