Ir para o conteúdo

Emmanuele Baldini: violino, missão e redes sociais

Podcast Violino Didático

O convidado que ninguém esperava ter mais de 10 mil postagens

Quando Jean de Oliveira recebeu Emmanuele Baldini no estúdio em Cotia, a primeira revelação já veio nos minutos iniciais. Jean mencionou que Baldini era, querendo ou não, o maior produtor de conteúdo de violino da internet. O próprio convidado ficou surpreso ao checar: mais de 10.100 publicações só no Instagram.

“Comecei cedo, quando isso ainda era muito pouco usual”, disse Baldini. “Sobretudo pessoas ligadas à música e à arte não estavam muito presentes no Instagram.”

A revelação deu o tom de toda a conversa: um músico de altíssimo nível que escolheu, conscientemente, estar presente onde a maioria dos seus pares não estava.

Quem é Emmanuele Baldini

As atribuições de Baldini ocuparam, por conta própria, uma boa parte da conversa. Ele é spalla da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), professor da Academia da Osesp, solista, músico de câmara, regente da Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí e, a partir de 2024, diretor artístico da Orquestra Sinfônica de Ñuble, no Chile. Para completar, apresenta um programa semanal na Rádio Cultura.

Jean fez questão de contextualizar para quem está começando: spalla é aquele violinista à frente da orquestra, que toca de pé, em posição de destaque. É, em termos práticos, o principal violinista da instituição.

O choque de um italiano no Brasil

Baldini nasceu na Itália e chegou ao Brasil carregando dois grandes choques de realidade. O primeiro era o tamanho do país. “Na Itália, mesmo no lugar mais afastado, em meia hora você está numa cidade com vida musical e professores”, explicou. A Itália, berço do violino como instrumento moderno, tem tamanho aproximado ao de Minas Gerais. O Brasil é outra escala completamente diferente.

O segundo choque foi a desigualdade na oferta cultural. Baldini lembrou que uma cidade como Fortaleza, à época, não tinha orquestra sinfônica profissional. Vindo de São Paulo para o interior, as diferenças já eram grandes. Imaginar o restante do país foi impactante.

Esses dois choques moldaram a visão que ele desenvolveria sobre comunicação e alcance.

Por que um spalla da Osesp foi para as redes sociais

A decisão de Baldini não veio de influência externa. Foi instinto, ele mesmo admitiu, com a ressalva de que “poderia ter dado muito errado”. Na Itália, sua comunicação era quase inteiramente presencial e interpessoal. No Brasil, percebeu rapidamente que as redes sociais eram o único veículo verdadeiramente igualitário.

“Não tem nenhum tipo de barreira socioeconômica”, disse ele. “Não tem barreira de condição.”

Ao olhar para outros espalas de grandes orquestras, inclusive europeias, Jean observou que muitos sequer têm Instagram. Alguns nem Facebook. Baldini concordou com a observação e foi além: cada um é livre para seguir o caminho que achar melhor. Mas para ele, estar presente nas redes faz parte de uma missão.

“Eu sinto a minha vida na música como uma missão”, disse Baldini. “Parte importante dessa missão é deixar essa energia que a gente procura fazendo música alcançar o maior número de pessoas possível.”

Contra a mediocridade, a resposta é presença

Um dos momentos mais diretos da conversa foi quando Baldini falou sobre conteúdo de baixa qualidade na internet. Para ele, virar as costas para as redes sociais não é solução. Pelo contrário: é deixar o espaço livre para quem produz desinformação.

“O caminho para combater a mediocridade não é ignorar a internet”, disse. “É usá-la, porque é uma linguagem atual e de grande alcance. Se a gente deixa de fazer isso, está dando espaço justamente para os impostores.”

Jean e Baldini ainda tocaram num ponto que ressoa para qualquer pessoa que hesita em postar nas redes: a caixinha de perguntas. Baldini abre a caixinha durante viagens, nos tempos mortos de aeroporto. Ele tem livros para ler, textos para escrever para o programa de rádio, mas a caixinha virou um passatempo útil. E sim, há respostas bem-humoradas que saem naturais demais.

Não se levar a sério demais: a lição que vale para violinistas e para a vida

Baldini falou com clareza sobre uma armadilha comum entre violinistas: o excesso de ego, a competitividade às vezes maldosa, a hipercrítica com os outros e a pouca crítica consigo mesmo.

Mas o ponto que ele levantou foi mais amplo. Ser rigoroso durante o estudo é necessário, até essencial. Terminou a sessão de estudo, porém, é hora de desligar um pouco. “Tem que viver a vida, tem que se zoar um pouquinho.”

Ele usou uma frase que resume bem essa perspectiva: “Você não está fazendo cirurgia em ninguém. Fica tranquilo.”

A aplicação real de uma passagem mal tocada num recital é, segundo ele, literalmente zero no mundo. Para o músico, é importante. Tem que ser. Mas a diferença entre a importância que aquilo tem para você e a importância que tem para o restante da cadeia produtiva é enorme.

O medo de postar e o que ele revela

Jean trouxe à tona uma discussão que vinha tendo com outros professores: o medo que violinistas têm de postar vídeos tocando nas redes sociais. E fez uma pergunta que parou Baldini por um instante antes do assentimento: “Esse medo é porque alguém já te criticou online?”

Na maioria dos casos, não. Ninguém ainda havia escrito nada. O medo era de algo que não tinha acontecido.

A hipótese de Jean foi direta: será que o medo não é das críticas alheias, mas das próprias críticas que o violinista faz mentalmente ao assistir vídeos de colegas? A lógica é simples: se você assiste a um vídeo de um colega e já pensa dez coisas negativas em silêncio, naturalmente vai imaginar que os outros farão o mesmo com você.

Baldini não só concordou como conectou isso ao comportamento nos festivais: violinistas costumam ser os mais fechados, os menos sociais, os que ficam no quarto do hotel estudando enquanto os violistas estão jogando sinuca e fazendo networking.

E foi aí que a piada saiu. “Você sabe qual é a semelhança e a diferença entre um naipe de primeiros violinos e uma máquina de lavar roupa?” Semelhança: vibra o mesmo tanto. Diferença: o que sai da máquina é mais limpo. Adaptação livre de uma piada clássica sobre violistas, convenientemente realocada.

Festivais não são para estudar, são para viver

Baldini foi enfático nesse ponto, e Jean endossou com a memória dos próprios festivais, quando ficava no quarto estudando enquanto poderia estar criando conexões. “Muitas das oportunidades que eu tive não vieram porque fiquei estudando a parte da orquestra. Vieram porque fui jogar sinuca com o pessoal.”

O festival exige preparação prévia, sim. Você chega com o repertório mais ou menos pronto. Mas o espaço em si é para networking, para criar relações com músicos de outros instrumentos, para viver experiências que a prática solitária não oferece.

Foi uma observação que vai de encontro ao que muitos estudantes de música acreditam: que dedicação total ao instrumento é sempre a escolha certa. Segundo Baldini, não é.

O que fica dessa conversa

Emmanuele Baldini é, por qualquer métrica, um dos violinistas mais completos em atividade no Brasil. Spalla, regente, solista, professor, comunicador. Mas o que mais chama atenção nessa conversa com Jean é a consistência entre o que ele faz e o que ele acredita.

Ele escolheu o Brasil, amou o Brasil desde o primeiro momento, e decidiu retribuir fazendo o que sabe. Não com arrogância de quem veio de fora ensinar algo, mas com a humildade de quem entendeu o tamanho do que encontrou e quis ser útil dentro disso.

E talvez seja exatamente por isso que, sem planejar, chegou a mais de 10 mil postagens.

Ouça o episódio completo no YouTube: EMMANUELE BALDINI - Podcast do Violino Didático #042

Continue lendo