Eugênio Rocha: de presente de aniversário ao ensino do violino
Eugênio Rocha é um dos primeiros professores contratados pelo Violino Didático. Sua história com o violino, porém, não começa em conservatório nem em escola de música. Começa em segredo, numa loja, às vésperas do aniversário da então esposa.
Nativo de Belo Horizonte, Eugênio já tocava violão e guitarra quando decidiu comprar um violino de presente. O instrumento foi entregue com um livro didático e muita boa vontade. Não demorou muito para o violino acabar encostado num canto. E foi exatamente daí que tudo começou.
O violino que ficou no canto, mas não por muito tempo
Com o instrumento em casa, Eugênio foi chegando aos poucos. A habilidade de violonista ajudou a mão esquerda, mas a direita, com o arco, era outro mundo. Sem professor, sem método claro, ele foi tentando por conta própria.
Um dia, numa apresentação qualquer, ele viu um menininho tocando violino com fitinhas coloridas nos dedos. A conclusão foi imediata: era assim que eles faziam. Chegou em casa, pegou um rolo de fita crepe e marcou o espelho do violino todo. Chegou a ter onze marcas, quase como as casas de um violão.
Foi tirando músicas de ouvido. Achava que estava tocando bem. E, de certa forma, algo estava funcionando, mesmo que longe do ideal.
A maldição do breu e a primeira ligação desesperada
Antes de qualquer aula, houve um episódio memorável. Eugênio pegou o violino pela primeira vez e não saiu nenhum som. Nenhum. Convicto de que o instrumento tinha vindo com defeito, ele ligou para o violinista cujo contato estava no cartão que veio com o instrumento.
O violinista, do outro lado da linha, explicou com paciência o que é o breu. Aquela pedrinha de resina que precisa ser passada na crina do arco para criar atrito com as cordas. Sem ela, não há som. Eugênio passou horas esfregando o breu no arco, sem saber do truque de usar uma lixa de unha para tornar a resina porosa mais rapidamente.
Nessa hora, Jean de Oliveira aproveitou para apresentar o breu aos ouvintes e ainda trouxe à tona a famosa “maldição do breu”: jamais olhe para ele contra a luz e diga que parece sabão. Segundo a lenda, se você fizer isso, o breu cai e quebra em duzentos pedaços em menos de um mês. Eugênio confirmou a crença sem hesitar.
O dia em que a professora levantou da cadeira
Depois de um tempo tocando sozinho, Eugênio viu um cartaz no Palácio das Artes de Belo Horizonte: seleção para músicos de uma Orquestra Jovem, com limite de idade até 30 anos. Ele estava chegando perto do limite, mas decidiu se inscrever. Só para confirmar que já sabia tocar, dizia a si mesmo.
Para se preparar, procurou uma professora particular. Chegou na primeira aula confiante, falou que era autodidata, que tocava guitarra, que tinha aprendido sozinho. A professora pediu que tocasse. Ele tocou algumas músicas tiradas de ouvido, depois se animou e tentou o Prelúdio da Partita nº 3 de Bach.
Na parte com a técnica de bariolage, onde a mesma nota é tocada em cordas diferentes, ele tocou três cordas soltas seguidas. A professora se levantou da cadeira. “Não é assim que faz”, ela disse. E completou: se ele quisesse ser aceito como aluno, teria que admitir que não sabia nada e começar do zero.
Eugênio calçou, nas palavras dele, as sandálias da humildade. Abandonou a ideia da orquestra e começou pelo Suzuki volume um.
Uma professora que formou um futuro professor
A professora tinha jeito de general, era da velha guarda, mas tinha uma qualidade rara. Em cada lição do Suzuki, ela explicava o que estava sendo trabalhado: postura do arco, estacado, retomada, paralelismo. Ela nomeava cada elemento técnico com clareza.
Eugênio anotava tudo. Cada lição tinha uma ficha com os objetivos. Ele não sabia na época, mas estava construindo a base do que viria a ser sua própria metodologia como professor.
Arquitetura, crises de saúde e a virada
Por muito tempo, o violino conviveu com outra vida. Eugênio é arquiteto formado, embora tenha migrado logo para o design gráfico. A música sempre esteve presente, mas como hobby. Ele tocava guitarra, mas nunca teve uma banda que decolasse. Ficava mais sozinho com os instrumentos.
As coisas mudaram quando vieram problemas sérios de saúde. Primeiro uma paralisia facial que comprometeu o lado esquerdo do corpo. Depois, o coração dando sinais de alerta. Dois filhos, contas a pagar, estresse acumulado.
Foi nesse momento que a então esposa agiu. Ela tinha ouvido Eugênio mencionar, de passagem, que um amigo baterista tinha feito um curso de licenciatura em educação musical na Universidade Estadual de Minas Gerais. Um dia ela chegou com o comprovante de inscrição no vestibular já pago. A mensagem era direta: ela queria o marido vivo.
Eugênio foi fazer a prova sem estudar nada. Não leu os livros de literatura indicados. Mas foi respondendo as questões com coerência interna, deduzindo respostas a partir do que fazia sentido. Tirou nove de doze na prova de literatura. E passou.
De aluno curioso a professor do Violino Didático
A trajetória de Eugênio Rocha é um retrato fiel do que o Violino Didático acredita: qualquer pessoa pode aprender violino, independentemente do ponto de partida. Ele começou por acaso, errou muito, levou uma bronca memorável de professora, precisou recomeçar do zero e, ainda assim, chegou a ensinar o instrumento que quase foi um simples presente esquecido.
A conversa com Jean de Oliveira é generosa em detalhes e momentos que fazem a gente rir, se identificar e, principalmente, se animar a pegar um instrumento e tentar.
Ouça o episódio completo no YouTube: EUGÊNIO ROCHA - Podcast do Violino Didático #005