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Fabio Vanini: o luthier que salvou o violino de Jean de Oliveira

Podcast Violino Didático

Fabio Vanini é luthier especializado em instrumentos de arco e foi o primeiro profissional da área que Jean de Oliveira visitou na vida. A conversa entre os dois trouxe à tona histórias curiosas, revelações técnicas e uma amizade construída ao longo de anos de convivência no universo do violino.

Não é todo dia que um podcast começa com uma história de acidente, choro e quase processo judicial. Mas foi exatamente assim que a relação de Jean e Fabio ganhou um capítulo inesquecível, e foi por esse episódio que a conversa começou.

O dia em que o violino de Jean quebrou dentro do ônibus

Quem acompanha Jean de Oliveira sabe que ele é uma pessoa intensa. Fabio lembrou, bem-humorado, do dia em que o violinista chegou ao ateliê com o estojo balançando e o mundo desmoronando na cabeça.

A história é a seguinte: Jean voltava de um ensaio quando um policial cortou o ônibus em que ele viajava, forçando uma freada brusca. Ele tinha as duas mãos ocupadas, foi arremessado de costas contra o ferro do motor e sentiu o case amassando. Ao abrir o estojo, encontrou o tampo do violino rachado.

Naquele dia, ele queria processar a empresa de ônibus, a prefeitura, todo mundo. Fabio conta que a reação de Jean foi uma das mais marcantes que já testemunhou de um músico diante de um acidente com o instrumento. O violinista Samuel Moreira de Melo, que também estava no ônibus, assistiu a tudo de perto.

O violino em questão é um Thomas Perry, luthier irlandês considerado o Stradivari da Irlanda. O instrumento havia sido presenteado a Jean por uma senhora que o viu tocando, ainda na adolescência, e foi passado a ele pelo maestro do projeto. Jean tinha entre 15 e 16 anos na época e carrega o violino como instrumento principal até hoje.

Fabio foi quem primeiro deu a Jean uma noção real do valor daquele instrumento. A frase que ficou gravada foi mais ou menos esta: se eu fosse comprar esse violino de você, você poderia ficar com o meu carro. O violino foi posteriormente levado à Robertson’s, loja especializada, onde confirmaram que provavelmente saiu do ateliê de Thomas Perry, mas pode ter sido construído por outros luthiers sob sua supervisão, no conceito de instrumento de oficina.

O que faz um luthier, afinal?

Muita gente pensa que luthier é sinônimo de quem fabrica instrumentos. Fabio esclarece logo de início: a profissão vai muito além disso.

O luthier é responsável por tudo que envolve o instrumento, desde a construção até a manutenção preventiva. Tem clientes que levam o violino simplesmente para saber se está tudo bem, sem nenhum problema aparente. E Fabio defende essa prática, comparando com uma consulta médica de rotina.

Ele também faz questão de destacar sua ética no trabalho. Não inventa problemas onde não existem. Segundo ele, quem faz o trabalho direito sempre terá algo para fazer, sem precisar criar demanda artificial.

Seu atendimento inclui violinos, violoncelos e contrabaixos, mas o violino domina, simplesmente porque há muito mais violinistas do que instrumentistas dos outros naipes.

Neto e filho de luthier, mas com uma diferença importante

Fabio vem de família de luthiers. Seu pai e seu avô trabalharam com violões. Mas ele é rápido em apontar que luteria de violão e luteria de violino são áreas bem distintas, apesar de compartilharem o nome.

A diferença fundamental está na filosofia de construção. O violão é feito para não ser desmontado: quando sofre um dano grave, quase sempre é perda total. O violino, ao contrário, foi concebido para ser aberto, descolado, restaurado e fechado inúmeras vezes com o mínimo de dano possível.

É por isso que violinos sobrevivem por séculos e violões não. A estrutura interna do violino é a mais limpa possível, com altíssimo refinamento manual. O violão tem uma estrutura robusta, pensada para aguentar a tensão das cordas sem possibilidade de manutenção interna profunda.

Fabio vai além e compara: um luthier de violões tem mais em comum com um marceneiro do que com um luthier de violinos. Não é uma crítica, é uma diferença técnica real de conceito e execução.

Os absurdos que um luthier encontra no dia a dia

Um dos momentos mais animados da conversa foi quando Fabio descreveu alguns dos problemas que já encontrou em instrumentos que chegaram ao ateliê.

O maior absurdo que já viu: um espelho colado com prego no braço do violino. E não foi em algum lugar obscuro, mas em instrumentos vindos de escolas tradicionais.

Os problemas são duplos. Primeiro, prego e madeira são incompatíveis a longo prazo: o prego enferruja e acaba marcando a madeira. Segundo, se algum dia for necessário restaurar a peça e o prego quebrar dentro, as ferramentas do luthier ficam comprometidas. Por isso, metal não entra dentro de madeira na luteria de violinos.

Ele aproveitou para ensinar mais um detalhe histórico curioso: os violinos barrocos originais tinham o braço fixado com um cravo. Hoje, há 150 a 200 anos, usa-se encaixe e cola, sem nenhum metal. A evolução da técnica foi também uma evolução de durabilidade e possibilidade de restauro.

Um ofício cheio de história e responsabilidade

O que fica da conversa com Fabio Vanini é a percepção de que a luteria é muito mais do que um trabalho técnico. É uma relação de cuidado com objetos que carregam memórias, trajetórias e emoções profundas.

O violino de Jean é prova disso. Um instrumento que sobreviveu a um acidente, passou pelas mãos de Fabio e ainda hoje é o instrumento principal do violinista. Para Fabio, ver um músico receber de volta um instrumento restaurado e voltar a tocá-lo é uma das maiores satisfações da profissão.

A parceria entre luthier e músico, como ele mesmo diz, é de dependência mútua: sem o luthier, o músico não vai muito longe. Mas sem o músico, o luthier também não.

Ouça o episódio completo no YouTube: FABIO VANINI - Podcast do Violino Didático #020

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