Gabriel Meca: versatilidade e música brasileira no violino
O violinista que não separa os mundos
Há músicos que constroem carreiras sólidas dentro de um único universo. E há aqueles que circulam por vários mundos ao mesmo tempo, sem perder a identidade em nenhum deles. Gabriel Meca, violinista paulistano de 21 anos, pertence claramente ao segundo grupo.
Jean de Oliveira o descreveu, logo de cara, como “um dos violinistas mais versáteis” que conhece. Não é elogio vazio. Meca toca na Academia da OSESP, integra um quarteto de cordas focado em música brasileira e tem raízes profundas no choro, no samba e até no pandeiro.
De Heliópolis para a OSESP
A história começa no Instituto Baccarelli, projeto social de música instalado na comunidade do Heliópolis, em São Paulo. Meca entrou em 2010, aos 7 anos, sem imaginar que a música viraria profissão.
Como acontece com todas as crianças do Baccarelli, o começo foi no coral. Depois vieram os instrumentos de sopro: trombone primeiro, trompete em seguida. O violino só apareceu depois de um encontro improvável.
Em 2012, sua bisavó, fã declarada de André Rieu, levou o garoto para ver o espetáculo quando o músico holandês veio ao Brasil. Alguma coisa mudou naquele dia. O violino chamou, e Meca atendeu.
André Rieu e o preconceito que não faz sentido
O nome de André Rieu abriu um parêntese importante na conversa com Jean. Meca tocou num ponto que muita gente prefere evitar: o preconceito velado dentro do próprio meio violinístico.
Ele conta que se envolveu recentemente numa “conversa acalorada” nas redes sociais. Alguém havia comentado que uma violinista tocava música pop porque “não tinha conteúdo para tocar outra coisa”. Meca rebateu: a música em questão era bacharel em violino pela Unicamp, com repertório técnico sólido, e simplesmente escolheu outro caminho.
A discussão foi além. Alguém usou David Garrett como exemplo negativo, chamando-o de “piada no meio violinístico”. A resposta de Meca foi direta: quem fala assim geralmente é estudante que acabou de descobrir os grandes concertos românticos e acha que aquilo é tudo que existe.
“Os grandes músicos não têm preconceito nenhum com pessoas que fazem outras coisas”, ele afirmou. É uma observação que vale guardar.
A Academia da OSESP e um semestre inteiro de estágio
No momento da gravação, Meca estava no último semestre da Academia da OSESP, a formação de alto nível mantida pela orquestra. Para quem acha que “academia” soa como algo tranquilo, ele desfaz a impressão rapidamente.
Além das aulas de instrumento, há aulas teóricas, música de câmara, recitais de câmara e recitais de encerramento de semestre. Os alunos também fazem estágios com a própria OSESP, e pode surgir a possibilidade de cachê com a orquestra.
Só no ano anterior à gravação, Meca havia participado de 12 programas com a orquestra, numa temporada de cerca de 30. Quase metade da temporada, aos 21 anos.
O Quarteto Aporá e a música brasileira em concerto
Paralelamente à Academia, Meca integra o Quarteto Aporá, conjunto de cordas com foco declarado em música brasileira. O grupo surgiu oficialmente em 2019 e passou por algumas mudanças de formação até chegar ao que se consolidou antes de entrar em compasso de espera.
A formação mais recente contava com Felipe Bueno e Gabriel Meca nos violinos, Luan Simplício na viola e Leonardo Salles no violoncelo. Cada integrante carregava um background diferente: Felipe com o jazz, Leonardo com uma linguagem pop no violoncelo descrita por Meca como única, e Luan com profundo conhecimento dos ritmos nordestinos.
O grupo trabalhava tanto repertório original para quarteto quanto arranjos de músicas que normalmente não chegam a esse formato. Colaboraram com artistas como André Michellet e Cristian Budu, com arranjos assinados também por Paloma Pitaia, ex-colega de Meca na Academia e já convidada do podcast.
“A gente cria uma proposta para apresentar em concerto e também fazer uma pequena formação de público”, explicou Meca. Essa ideia de levar a música brasileira popular para o ambiente de concerto, sem esterilizá-la no processo, é uma das marcas do grupo.
O Quarteto está em pausa por conta da viagem de Felipe Bueno para a Áustria, mas o trabalho construído até aqui já é considerável.
A pandemia que virou escola de choro
Uma das histórias mais curiosas que Meca conta envolve a pandemia de 2020. Antes do distanciamento social, ele já convivia com músicos populares, graças principalmente à amizade com Brenner Rosales, violista que veio de Campo Grande (MS) e trouxe consigo uma rede de instrumentistas de choro e música popular.
Quando a pandemia chegou, Meca estava morando com os outros integrantes do Quarteto. Juntos, com instrumentos em mãos o dia inteiro, eles trabalharam o Quarteto de Smetana, o de Mozer e, ao mesmo tempo, foram se contaminando mutuamente com os repertórios de cada um.
Meca pegou o songbook de choro e começou a ler, tocando junto com quem tocava bandolim, pandeiro e violão ao redor. Mais do que isso: aprendeu a tocar pandeiro também, e foi transpondo essa linguagem rítmica para o violino.
“Botar o pandeiro no violino”, como ele mesmo resumiu, com bom humor.
Por que o choro e o violino se encaixam tão bem
Meca tem uma análise interessante sobre essa relação. Para ele, a música brasileira, e o choro em particular, tem uma proximidade estrutural grande com a música do período clássico e barroco europeu.
As formas são parecidas. A harmonia segue lógicas similares. O que muda, na prática, é a acentuação rítmica. Saber transitar entre os dois universos, segundo ele, abre possibilidades na música de concerto que dificilmente aparecem para quem ficou só dentro do repertório erudito.
Não é teoria. É o que ele viveu, morando com pessoas que tocavam esses instrumentos e forçando o próprio ouvido a absorver uma linguagem nova.
Sobreviver e tocar: a carreira que sempre foi plural
Meca cresceu sem muita folga financeira. O primeiro instrumento foi comprado pela família, e depois disso tudo foi por conta própria. Casamento aqui, trabalho avulso ali, até aprender a tocar melodia de nota no violão para tocar na igreja e garantir algum dinheiro.
Essa trajetória explica, em parte, por que a separação entre “música séria” e “música popular” nunca fez muito sentido para ele. Não era uma questão filosófica: era pragmática. A música que pagava as contas era aquela que ele sabia tocar, qualquer que fosse o estilo.
Com o tempo, o que começou como necessidade virou convicção. Hoje ele defende ativamente que músicos jovens em formação não criem muros artificiais entre repertórios. “Cada música tem seu ambiente e seu momento”, ele diz, mas saber transitar entre eles é o que forma um músico completo.
21 anos e um projeto de vida em andamento
Jean pausou a conversa em algum momento para perguntar a idade de Meca. A resposta, 21 anos, criou um momento de reconhecimento genuíno.
Fazer cachê com a OSESP, estar na Academia, manter um quarteto ativo, escrever arranjos, tocar choro com propriedade: Jean apontou que há violinistas de 40 ou 50 anos que ainda estão tentando chegar onde Meca já chegou. Para quem começa a carreira hoje, esse nível de atuação representa um projeto de vida de décadas.
Meca ouviu, agradeceu, e seguiu em frente na conversa. Com a naturalidade de quem ainda está no começo e sabe disso.
Ouça o episódio completo no YouTube: GABRIEL MECA - Podcast do Violino Didático #098