Gabriel Oliveira: o empresário por trás da Oliver Strings
Gabriel Oliveira é dono de uma das maiores lojas especializadas em violino do Brasil, a Oliver Strings, sediada em Guarulhos, São Paulo. Apesar do tamanho do negócio, ele é surpreendentemente discreto. Jean de Oliveira foi o primeiro a admitir: era hora de mudar isso.
A conversa entre os dois revelou uma trajetória incomum. Gabriel começou tocando violino na igreja, passou pelo Conservatório de Guarulhos e, antes mesmo de terminar a formação básica, já vendia acessórios musicais de um armário de almoxarifado. Literalmente.
Do armário da empresa à loja própria
Aos 15 anos, Gabriel trabalhava como jovem aprendiz numa empresa comum. O estoque do seu empreendimento? Um armário compartilhado no trabalho, cheio de afinadores digitais, cavaletes e espiralhas. A necessidade tinha criado o negócio.
Tudo começou porque ele sentia falta de acessórios com preço acessível para violinistas iniciantes como ele. A solução foi importar pelo eBay, que naquela época, em torno de 2009 e 2010, era praticamente o único canal viável para trazer produtos musicais do exterior.
“A gente nem tinha Aliexpress ainda, era mais eBay”, lembra ele. Naquele tempo, conseguir um cartão internacional já era um feito. Quem conseguia, achava violinos antigos por 150 ou 200 dólares que valiam muito mais aqui no Brasil.
Violino importado, talento de luthier e o primeiro lucro
O próprio instrumento de Gabriel veio de fora. Ele comprou um violino pelo eBay, mandou para um luthier ajustar, tocou por um tempo e depois vendeu. O retorno foi bem maior do que o investimento. Ali ficou claro que havia um mercado.
Não era especulação, era oportunidade real. O mercado brasileiro tinha pouca oferta, importação ainda era barata e descomplicada, e a demanda por instrumentos bons a preço justo era grande. Gabriel enxergou isso antes de muita gente.
Ele também mencionou o Ita Music, uma referência da época para quem buscava violinos de qualidade. A linha T20 era a recomendação padrão, inclusive do professor Renato Kutner, que lecionava no conservatório onde Gabriel estudou. “Era a recomendação do Kutner também”, disse Gabriel, num momento de coincidência que arrancou risos dos dois.
O conservatório, o Kung Fu e os golpes do professor
Falar do Conservatório de Guarulhos abriu espaço para uma das histórias mais divertidas da conversa. O professor Renato Kutner, figura querida entre ex-alunos, tinha um hábito peculiar: no meio das aulas, parava tudo para mostrar golpes de Kung Fu.
Jean confirmou ter ouvido histórias semelhantes de amigos que estudaram com Kutner. Um deles, segundo Jean, quando não havia estudado o repertório, usava a tática de pedir ajuda com escalas para desviar a atenção do professor. Passava a aula inteira em técnica pura e escapava da bronca, pelo menos até a prova do final do ano.
São histórias que qualquer músico que passou por conservatório reconhece com um sorriso. Gabriel as contou com naturalidade, sem nostalgia forçada. Foram parte de uma formação que claramente moldou sua visão sobre o universo do violino.
Oliver Strings: de jovem aprendiz a empresário
Quando o contrato de jovem aprendiz estava encerrando, a empresa já tinha até passagem comprada para Gabriel continuar em outro estado. Ele recusou. Queria montar o próprio negócio. A decisão foi difícil, mas a convicção era maior.
O nome Oliver Strings veio depois, assim como a loja física em Guarulhos. Hoje, Gabriel não precisa estar lá todos os dias. Ele mora em Atibaia há quatro anos, numa casa com jardim, o tipo de vida que sempre quis desde que casou. Vai à loja segunda, quarta e sexta, e monitora o restante remotamente.
Ele faz piada com isso: diz que tenta delegar, mas às vezes acaba “delargando”, deixando demais nas mãos de outros sem o acompanhamento necessário. É o eterno dilema do empreendedor que construiu tudo com as próprias mãos e ainda sente dificuldade em soltar.
Cordas, mercado e uma novidade guardada a sete chaves
Um dos trechos mais interessantes da conversa foi sobre o mercado de cordas para violino no Brasil. Gabriel foi direto: existe um vácuo enorme entre as cordas baratas, por volta de 40 a 60 reais, e as de alto nível, que chegam a 200 reais ou mais.
Ele citou Mauro Calisto como um caso emblemático. A marca tem forte memória afetiva entre violinistas que aprenderam nos anos 2000, mas a qualidade mudou ao longo do tempo. Quem ainda recomenda hoje, segundo Gabriel, está preso a uma lembrança do que a corda já foi, não do que ela é agora.
Para preencher esse espaço no mercado, a Oliver Strings está desenvolvendo uma corda própria, chamada Orquest Pro. Com núcleo de nylon, o objetivo é oferecer qualidade equivalente à faixa das cordas premium, mas com preço entre 80 e 100 reais. Alguns músicos já estão testando, incluindo Wellington Rebolsas, que aprovou e chegou a achar que seria mais cara.
A arte da embalagem ainda está sendo finalizada, e a data de lançamento não foi confirmada. Mas o projeto está claramente avançado e é uma das apostas mais ambiciosas da Oliver Strings para os próximos meses.
Um império feito de consistência
O que mais chama atenção na história de Gabriel Oliveira é a linearidade. Não houve um momento de virada dramático, nenhum investidor misterioso, nenhuma jogada de marketing mirabolante. Foi um armário de almoxarifado, depois o eBay, depois uma loja, depois outra, e assim foi crescendo.
A Oliver Strings é o resultado de alguém que entendeu cedo o que o mercado precisava e teve disciplina para construir algo sólido em cima disso. Jean, que conhece bem esse universo, resumiu bem ao longo da conversa: é raro encontrar alguém com tanto conhecimento técnico e visão de negócio ao mesmo tempo.
Ouça o episódio completo no YouTube: OLIVER STRINGS - Podcast do Violino Didático #047