Ir para o conteúdo

Gabriela Fogo: da orquestra do Pão de Açúcar ao doutorado nos EUA

Podcast Violino Didático

Gabriela Fogo tem uma história que começa com natação, continua num ginásio de esportes e termina, por enquanto, num doutorado em performance de violino nos Estados Unidos. Não foi um caminho planejado. Foi, nas palavras dela mesma, totalmente ao acaso.

Violonista nascida em Itaquera, zona leste de São Paulo, Gabriela é doutora em performance pela Florida State University e está prestes a iniciar uma fellowship no Iris Collective, em Memphis, Tennessee. Lá, ela vai dar aulas, tocar em grupos de câmara e integrar a orquestra do projeto. Uma combinação, como ela disse ao Jean de Oliveira, das duas coisas que mais gosta de fazer.

A mãe que viu uma orquestra e decidiu o destino da filha

A história do violino na vida de Gabriela começa com a mãe dela. Uma mulher que, segundo Gabriela, sempre procurou cursos gratuitos para os filhos na cidade de São Paulo.

Certa vez, a família foi ao Ginásio do Ibirapuera para uma aula de natação, que ficava a quase duas horas de ônibus de Itaquera. No caminho, a mãe viu uma orquestra tocando e, ali mesmo, decidiu: a filha ia aprender violino.

Gabriela nunca tinha visto um violino ao vivo. Não teve muito a dizer sobre o assunto. Ela foi matriculada no método coletivo do Instituto Pão de Açúcar, o projeto Jafé, e começou a estudar com nove anos, um ano abaixo da idade mínima. Ela chegou a convencer o maestro de que completaria dez anos antes do início das aulas.

Como ela resumiu com bom humor: a mãe não pode reclamar do caminho que a filha tomou, porque a ideia foi dela.

Chaveirinho na orquestra

No começo, Gabriela ia às aulas porque a mãe a levava. Sem muita escolha, sem grande encantamento. O curso era para alunos de dez a dezoito anos, e ela era a mais nova de todos. Por anos, o apelido dela no projeto foi Chaveirinho.

Houve um momento em que ela quebrou o braço e não quis mais voltar. A mãe insistiu. Ela voltou.

O ponto de virada foi entrar na orquestra mais avançada do projeto. Aquele ambiente de tocar junto com outras pessoas mudou algo nela. A motivação para melhorar apareceu de verdade, junto com os amigos que ela foi fazendo ao longo dos anos.

A orquestra tocou em lugares como o Teatro Municipal de São Paulo e a Sala São Paulo. Mas também tocou em supermercados, para funcionários do próprio Pão de Açúcar. Era muito tempo junto, muitas viagens, muitos momentos compartilhados na adolescência.

Jean fez uma observação precisa sobre isso durante a conversa: quem aprende violino de forma isolada costuma parar no primeiro sinal de desânimo. Gabriela concordou. Quando você tem amigos que fazem a mesma coisa, o instrumento vira um elo. Fica mais difícil abandonar.

Ela ainda guarda amizades dessa época. E diz que serão amigos para sempre.

O professor que apontou o caminho para os EUA

Quando as aulas passaram a ser em grupos menores, exclusivamente de violino, Gabriela teve como professor Pablo Leon. Esse período foi decisivo para ela começar a levar o instrumento mais a sério.

Mas foi num festival, anos depois, que o caminho para os Estados Unidos se abriu. Num festival em Poços de Caldas, ela conheceu o professor Carmelo de los Santos, que o público do canal Violino Didático já conhece bem. Ela o ouviu tocar e decidiu que queria estudar com ele.

Foi Carmelo quem a avisou: a parte mais difícil seria o inglês. Gabriela começou a estudar o idioma por volta de 2012, ainda durante o bacharelado na Faculdade Cantareira. Tentou ir em 2014, quando se formou, mas não passou na prova de proficiência. Não desistiu. Continuou estudando. Em 2016, conseguiu a nota exigida e, junto com ela, uma bolsa de estudos. Estava feita a mudança.

Quase dez anos fora e um sotaque diferente

Gabriela está nos Estados Unidos desde 2016, quase dez anos. Ela e o marido, o violoncelista Luís Barnoevo, que também gravou um episódio do podcast no mesmo dia, falam apenas português em casa. Mesmo assim, Jean notou algo diferente na fala dela, um americanismo sutil que não é só o uso de palavras em inglês, mas algo no ritmo do português mesmo.

Ele pediu para quem estiver ouvindo deixar nos comentários se percebeu o mesmo.

A cidade onde moraram na Flórida, Tallahassee, não tem uma grande comunidade brasileira. Diferente de Orlando, onde os brasileiros são muitos. Isso fez com que a imersão no idioma e na cultura americana fosse ainda mais intensa.

Do acaso ao doutorado

A trajetória de Gabriela Fogo é um exemplo de como o acaso pode ser o melhor plano. Uma mãe que não tinha nada a ver com música. Um ginásio de esportes. Uma orquestra vista de passagem. Uma criança que quebrou o braço e quase desistiu.

De tudo isso saiu uma doutora em performance de violino, prestes a integrar uma das mais respeitadas instituições musicais do estado do Tennessee.

A conversa com Jean de Oliveira toca em pontos que vão muito além da técnica: a importância do ambiente coletivo no aprendizado, o papel da família, a persistência com o inglês, a decisão de atravessar um oceano atrás de um professor.

É uma história que vale ser ouvida com calma.

Ouça o episódio completo no YouTube: GABRIELA FOGO - Podcast do Violino Didático #084

Continue lendo