Gabriela Queiroz: professora da UFRJ e violinista da OSB
Gabriela Queiroz é professora da Escola de Música da UFRJ desde 2009, quando tinha apenas 24 anos. Violinista da Orquestra Sinfônica Brasileira, ela construiu uma trajetória que mistura precocidade, determinação e muito estudo. Jean de Oliveira a recebeu no Podcast do Violino Didático com entusiasmo, descrevendo a masterclass de Gabriela como uma das mais marcantes que já assistiu.
Nascida em João Pessoa, na Paraíba, Gabriela começou seus estudos de violino ainda na cidade natal. Aos 17 anos, prestou uma audição para a Orquestra Sinfônica Brasileira, passou, e no mês seguinte já estava morando no Rio de Janeiro. Tudo aconteceu de forma muito rápida, como ela mesma define: as coisas em sua vida sempre foram precoces.
Da Paraíba direto para a Sinfônica Brasileira
A mudança para o Rio foi quase abrupta. Gabriela havia terminado o ensino médio em João Pessoa, tinha experiência na Sinfônica da Paraíba, mas mal imaginava que passaria por uma audição e, dias depois, estaria vivendo numa nova cidade. Já integrante da OSB, ela cursou a graduação no Rio enquanto tocava profissionalmente.
Essa combinação entre estudo e prática orquestral moldou a violinista que ela se tornou. Não foi uma trajetória convencional, com etapas bem separadas. Foi tudo ao mesmo tempo, e ela aprendeu a lidar com isso.
Um concurso que quase não existiu
A entrada na UFRJ também carregou uma dose de acaso. A vaga aberta originalmente exigia doutorado, mas nenhum candidato se inscreveu naquele ciclo. A universidade então abriu uma segunda seleção, desta vez para nível de mestrado. E, numa situação descrita como rara até pelos padrões da época, acabou aceitando candidatos com bacharelado.
Gabriela tinha apenas o bacharelado. E se inscreveu.
O processo seletivo foi dos mais exigentes que ela já enfrentou. No primeiro dia, havia uma prova escrita com tópicos divulgados com antecedência: cerca de doze temas para estudar, e alguns eram sorteados na hora para serem desenvolvidos à mão, ali mesmo, durante horas. Gabriela saiu com a mão entorpecida de tanto escrever. Depois, ainda precisava fazer a leitura em voz alta do que havia escrito, com a banca acompanhando.
No segundo dia, recital. Repertório longo, que incluía concerto romântico, fuga de sonata, peça brasileira, peça estrangeira e leitura à primeira vista. Tudo comentado: tocar e explicar, ao mesmo tempo, aspectos históricos e de estilo.
No terceiro dia, aula didática cronometrada para a banca, sem aluno presente.
Ela tinha 24 anos.
O tópico que mais deu trabalho: ornamentação barroca
Entre os temas de estudo, um causou dificuldade especial: ornamentação no período barroco. Gabriela não dominava o assunto. Foi atrás de livros especializados, a maioria em inglês e francês. Uma amiga fagotista alemã, chamada Ariane, emprestou um material raro que ela havia trazido da Alemanha: uma espécie de mapa que se desdobrava e trazia tudo sobre ornamentação barroca. Outros livros foram encomendados pelo correio, lidos, traduzidos e resumidos.
O sorteio, no dia da prova didática, foi gentil com ela. O tópico escolhido foi técnica do instrumento, exatamente o terreno onde se sentia mais à vontade. Ela cronometrou o ensaio, levou um relógio para a sala e terminou dentro do tempo. Quando saiu, pensou: “tomara que eu nunca mais precise repetir isso na vida”.
Chicago ficou para depois, e o emprego veio primeiro
Na época do concurso, Gabriela estava com tudo planejado para fazer o mestrado em Chicago, com seu professor Shmuel Ashkenasi, na Roosevelt University. Passagem comprada, moradia garantida, matrícula aprovada. O concurso da UFRJ surgiu no meio desse planejamento.
Ela lembra que estava em Chicago, estudando a Fuga da Sonata nº 1 de Bach, quando a notícia chegou. Ironicamente, essa mesma fuga caiu como peça obrigatória na prova da UFRJ. Ela precisou mudar a passagem de avião, voltar ao Brasil, se inscrever no concurso e encarar todo aquele processo.
Quando passou, ligou para o professor por Skype, emocionada. Ele foi direto: “fica aí”. Explicou que o que faziam juntos nas aulas particulares equivalia, em carga, ao que ele oferecia aos alunos regulares do mestrado. E completou, com bom humor: “tenho aluno aqui que está sem emprego e você está triste porque ganhou um”. Gabriela ficou no Rio.
Para ilustrar a complexidade da fuga que estudava, ela tocou um trecho ao vivo durante a conversa. São quatro vozes executadas em um único violino: uma voz inicia o tema, outra entra fazendo o mesmo, enquanto a primeira passa a funcionar como acompanhamento. Ouvir é impressionante.
A professora jovem demais para os porteiros
Entra na universidade com 24 anos traz uma situação curiosa: os porteiros barravam Gabriela regularmente na entrada. Sem o crachá de aluno, ela precisava explicar que era professora. Levou um tempo até que todos a reconhecessem.
Há uma história que ela conta com carinho. Certo dia, estava na biblioteca pesquisando, quando o celular emitiu um som. Um funcionário que trabalhava há décadas no local veio chamá-la atenção: “menina, sem celular aqui”. Ela pediu desculpa, guardou o aparelho e continuou. Não disse nada sobre quem era.
Ao sair, preencheu o formulário de empréstimo de livros com seu registro de professora, o SIAP. O funcionário olhou, percebeu e ficou desconcertado. Dali em diante, até o dia em que se aposentou, ele a chamava de “professora” com toda a cerimônia.
Com os alunos, a situação também era peculiar. Muitos tinham idade parecida com a dela. Alguns já a conheciam da OSB Jovem, onde a viam como profissional. Outros chegavam sem nenhuma referência e encontravam uma professora que parecia colega de turma. Gabriela deixava cada um à vontade para escolher o tratamento. Nunca fez questão de ser chamada de senhora ou de você: o que importava era a aula.
Hoje, com 38 anos, ela ri ao dizer que torce para ser barrada de novo na entrada. Seria sinal de que ainda parece muito jovem.
Uma trajetória fora do roteiro
O caminho convencional seria: graduação, mestrado fora do Brasil, doutorado, retorno para a universidade. Gabriela pulou etapas. Chegou à UFRJ antes do mestrado, consolidou a carreira na OSB, e construiu uma trajetória que ela mesma define como marcada pela precocidade.
O que fica da conversa é a imagem de uma violinista que nunca esperou o momento certo chegar. Quando a oportunidade aparecia, ela estudava o que precisasse, encomendava livros de outro país, viajava, voltava e se preparava. E tocava, sempre.
Ouça o episódio completo no YouTube: GABRIELA QUEIROZ - Podcast do Violino Didático #035