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Galldino: violino, Teatro Mágico e vida na Itália

Podcast Violino Didático

Galldino é o tipo de músico que faz o violino parecer outra coisa. Não no sentido de esconder o instrumento, mas no de revelar tudo o que ele pode ser. Jean de Oliveira o recebeu no estúdio do Violino Didático, em Cotia, para uma conversa longa, honesta e cheia de histórias que valem muito a pena conhecer.

O encontro já começou com uma curiosidade: Galldino veio direto de Pinheiros, onde estava hospedado. Mas sua casa fica bem mais longe. O violinista mora na Itália há alguns anos, numa cidade pequenininha de cerca de 7.000 habitantes, na fronteira entre o Vêneto e a Lombardia, vizinha de Verona. Sim, a cidade de Romeu e Julieta e do famoso festival de ópera ao ar livre, realizado numa arena romana que sobrevive até hoje.

Do Teatro Mágico ao palco de 20 anos

A visita ao Brasil tinha um motivo especial: Galldino veio para tocar numa apresentação comemorativa dos 20 anos do Teatro Mágico, projeto musical criado pelo cantor e compositor Fernando Anitelli. Mais de 60 músicos e artistas passaram pelo projeto ao longo dessas duas décadas, e a ideia era reunir o maior número possível deles num show de reencontro.

Galldino esteve entre os pilares desse projeto. Ele conta que conheceu Fernando antes do Teatro Mágico existir, quando os dois faziam parte de uma banda chamada Madalena 19. A banda acabou, Fernando foi para os Estados Unidos estudar inglês, e quando voltou chamou Galldino para gravar um disco. Esse disco se chamou Teatro Mágico, e assim nasceu o projeto que tomaria conta da carreira de tanta gente.

A origem do nome, aliás, vem de um livro: o romancista Hermann Hesse usa a imagem do teatro mágico em algumas de suas obras. Fernando Anitelli se apropriou dessa referência e transformou numa ideia de show, de encontro, de arte viva. O primeiro espetáculo foi para poucas pessoas, mas a sensação foi imediata de que havia algo diferente ali.

Jean lembrou que conheceu o Teatro Mágico em 2008, por indicação da violista Catarina Ross, num festival em Bragança Paulista. A descrição que ele fez foi precisa: todo mundo que ele conhecia que sabia do projeto era fã de verdade. Nunca encontrou ninguém indiferente.

Dez anos e a decisão de parar tudo

Galldino ficou dez anos no Teatro Mágico. Sua última participação oficial foi em 2014. E então veio uma decisão que ele descreve com a clareza de quem pensou muito antes de agir: parar tudo para estudar violino.

Não que ele não tocasse bem. Jean foi rápido em deixar isso claro para quem acompanha a conversa. Quando os dois se conheceram na Faculdade Cantareira, Galldino já era um violinista de alto nível, com carreira consolidada. A questão não era competência, era satisfação. Era aquela crítica interna que os artistas carregam, o olhar exigente sobre o próprio trabalho, a sensação de que havia coisas que ele ainda não entendia, não conseguia captar do jeito que queria.

Como ele mesmo resumiu: por mais que a gente compartilhe a arte com o público, no fundo é pra gente mesmo. O público é bem-vindo, mas se o artista não está satisfeito com o que faz, não adianta aplauso.

Ele tinha um projeto solo que andava bem, shows lotados. Mas não tinha estrutura de divulgação, não tinha escritório, e acabava gastando mais tempo gerenciando do que tocando. Em 2015, decidiu que era hora.

A Itália como refúgio de estudo

A ideia inicial era ficar no Brasil, estudar em isolamento, trabalhar apenas se aparecesse algo. Ele tinha guardado um dinheiro do trabalho com trilhas musicais, o suficiente para passar um ano sem se preocupar com renda.

Foi aí que lembrou de um detalhe importante: sua irmã morava na Itália. Entrou em contato, ela topou recebê-lo num quartinho em troca de ajuda com as despesas básicas. O plano mudou de endereço.

Antes de embarcar, vendeu praticamente tudo: quatro violinos, pedалeiras, equipamentos acumulados ao longo dos anos de carreira. O objetivo era juntar mais fôlego financeiro para estudar sem pressa e sem pressão.

Na Itália, o estudo foi solitário e intenso. Sem professor, sem método externo. Apenas ele, o instrumento e o tempo. Galldino descreve esse período como um reencontro com o violinista que ele queria ser. Uma espécie de redescobrimento, parecido com algo que ele já fazia nas férias antes de ir para São Paulo: ia para a casa de sua mãe em Vargem Grande Paulista, de frente para o mato fechado, e ficava o dia inteiro estudando violino.

Tinha até um refúgio mais radical nessa época: uma casa de pedra no alto de uma montanha, sem energia elétrica, num lugar chamado Gomeral, perto de Guaratinguetá. Foi sentado na beira de uma pedra, olhando para baixo e imaginando uma plateia, que ele tomou a decisão de mudar para São Paulo. Uma cena que parece de roteiro, mas foi real.

Autodidata com fome de aprender

Galldino se define como autodidata. Estudou sozinho por muito tempo, teve alguns professores ao longo do caminho, depois foi para a faculdade. Mas mesmo na fase da Cantareira, quando ainda morava no interior, ele tinha um método próprio para aprender.

Quando vinha a São Paulo, ficava na casa de colegas e passava a semana entrando nas salinhas de aula, pedindo para tocar, pedindo feedback. Chegava na segunda com a cabeça cheia de dúvidas e voltava no fim de semana com ela cheia de respostas. Informal, intenso e muito eficiente.

Essa postura de buscar o aprendizado onde quer que ele esteja diz muito sobre quem é Galldino como músico. Não é alguém que espera a oportunidade chegar. É alguém que vai até ela, mesmo que para isso precise vender tudo e atravessar o oceano.

Rabeca, ópera e a vida entre dois mundos

Na conversa, apareceu mais um instrumento: a rabeca. Galldino já tocou, já gravou com ela, e numa feliz coincidência, uma fã do Teatro Mágico prometeu levar de presente uma rabeca feita no Nordeste para o show do dia 20. Um instrumento que ele poderia levar de volta para a Itália, para a cidade pequenina vizinha de Verona, onde cada primavera traz uma nova temporada de óperas numa arena de dois mil anos.

É um contraste bonito: um violinista brasileiro, nascido no interior de São Paulo, morando numa cidade que faz festival de ópera no mesmo lugar onde gladiadores lutaram. E ainda assim completamente fiel à sua própria história, ao seu jeito de aprender, ao violino que escolheu desde cedo e nunca largou.

Ouça o episódio completo no YouTube: GALLDINO - Podcast do Violino Didático #102

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