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Guilherme Ficarelli: violoncelo, fisioterapia e saúde do músico

Podcast Violino Didático

Guilherme Ficarelli é fisioterapeuta, violoncelista e une as duas carreiras de forma muito particular. Ele não escolheu entre a música e a saúde: ele faz as duas coisas, e faz bem. Nessa conversa com Jean de Oliveira, Guilherme trouxe reflexões valiosas sobre como a prática musical afeta o corpo, para o bem e para o mal.

A conversa foi rica, descontraída e cheia de pontos que qualquer músico, iniciante ou experiente, vai reconhecer. Afinal, quem nunca sentiu aquela tensão nas costas depois de uma longa sessão de prática?

Uma família dentro da música

Guilherme começou no violoncelo aos 5 anos, por influência direta dos pais. O pai, Mário Ficarelli, foi professor na USP. A mãe tocou piano, violino e viola, e também lecionou música. Em casa, a música era a língua principal.

Ele foi alfabetizado musicalmente na clave de fá, o que já diz muito sobre o nível do ambiente em que cresceu. Começou com um violoncelo de 1/16, foi passando pelos tamanhos intermediários e chegou ao instrumento de tamanho inteiro com naturalidade.

Seus irmãos também seguiram a música: Alexandre Ficarelli toca oboé e André Ficarelli toca trompa, ambos com atuação em espaços importantes da cena musical brasileira.

A pausa de 10 anos e a virada pela fisioterapia

Aos 13 ou 14 anos, Guilherme parou com o violoncelo. Um evento familiar mudou o rumo das coisas, e a música ficou em segundo plano. Foi nesse período que ele descobriu a fisioterapia, por influência de um tio médico geriatra.

O que o atraiu foi o contato direto com o paciente: colocar a mão, sentir, e ver resultado. Ele prestou vestibular para medicina, chegou perto de entrar na USP pela Fuvest, mas acabou indo para uma faculdade particular. Com 23 anos de carreira em fisioterapia, ele olha para trás sem arrependimento.

Ao longo da formação, ele passou pela fisioterapia respiratória, trabalhou em UTI, e foi encontrando seu caminho na área ortopédica. Hoje está concluindo uma especialização em quiropraxia, com foco em terapias manuais: osteopatia, liberação miofascial e técnicas de manipulação.

O bichinho da música que não vai embora

Com 23 ou 24 anos, Guilherme foi assistir ao irmão Alexandre tocar como solista com a Orquestra da USP. Durante o concerto, um grupo de violoncelos se apresentou, e algo dentro dele se acendeu de novo.

Como ele mesmo disse: quem é tocado pela música uma vez não consegue ficar sem ela. É como água e óleo: não separa. Ele voltou aos estudos, procurou os mesmos professores da adolescência, e retomou o caminho com seriedade.

Jean de Oliveira aproveitou o momento para lembrar algo importante para quem ouve: muita gente tem esse mesmo bichinho. Aquele violino encostado no guarda-roupa, aquela aula na infância que ficou pela metade. A sensação de que falta algo. E a resposta, segundo os dois, é sempre a mesma: não adianta fugir.

Nunca é tarde, mas o contexto importa

A conversa tocou em um ponto que gera muita dúvida: a questão da idade para aprender um instrumento. Guilherme retomou o violoncelo depois de uma pausa de 10 anos, com o objetivo de seguir carreira profissional em orquestras.

Ele estudou com nomes de peso, como Robert Suol, professor da USP; RF Dantas, primeiro violoncelo do Teatro Municipal de São Paulo; Mauro Brucoli; e Johannes Gram, então primeiro violoncelo da OSESP. Os professores reconheciam sua postura e desenvoltura, mesmo depois da pausa.

Jean e Guilherme deixaram claro que há diferença entre aprender para tocar em grandes orquestras e aprender para tocar bem e com prazer. O primeiro caminho exige anos de formação desde cedo. O segundo está aberto para qualquer pessoa, em qualquer fase da vida.

Como a analogia do futebol ilustrou bem: quem começa cedo tem mais chances de chegar à seleção. Mas quem começa tarde ainda vai jogar, ainda vai se divertir e ainda vai se realizar. Na música, isso é ainda mais verdadeiro: professor, músico de eventos, camerista amador, há um milhão de possibilidades.

Saúde do músico: o tema que une tudo

A grande virada da conversa chegou quando Guilherme falou de algo que observou ao voltar para São Paulo depois de uma temporada fora: músicos em busca de fisioterapia. Muitos, com dores. Muitos, sem cuidado nenhum com o próprio corpo.

Ele até fez uma provocação bem-humorada: músico, em geral, é travado. E isso não é necessariamente um problema para quem quer começar. Se você acha que é travado demais para tocar violino, saiba que aprender o instrumento pode justamente te ajudar a soltar.

Mas há um lado sério nisso tudo. A prática musical, feita sem consciência corporal, pode gerar lesões. Tensão no pescoço, dor nos ombros, problemas na coluna: são queixas comuns entre instrumentistas de todos os níveis.

Guilherme introduziu o conceito de consciência corporal de forma simples e direta. Saber onde está cada parte do seu corpo, como ele se posiciona, o que está tensionando sem necessidade. Esse é o ponto de partida para uma prática mais saudável e mais duradoura.

A conversa prometia ir fundo nesse tema, com exemplos práticos e orientações concretas para quem toca ou quer começar a tocar.

Duas carreiras, uma visão

O que torna Guilherme Ficarelli uma voz tão interessante para músicos é exatamente essa combinação rara. Ele sabe o que é segurar um arco por horas. Sabe o que é a tensão de um ensaio, a exigência de uma naipe, a postura exigida pelo instrumento.

E sabe, com a mesma profundidade, o que acontece com o corpo quando tudo isso não é feito com cuidado. Ele fala com a autoridade de quem viveu os dois lados.

Para quem toca, para quem quer começar, ou para quem simplesmente sente que falta algo, essa conversa traz uma perspectiva diferente. Música e saúde não são mundos separados. Podem, e devem, andar juntos.

Ouça o episódio completo no YouTube: GUILHERME FICARELLI - Podcast do Violino Didático #002

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