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Helena Piccazio: blog, ansiedade e o que bancas buscam

Podcast Violino Didático

A convidada que escreveu o que faltava em português

Helena Piccazio chegou ao estúdio em Cotia com um pouco de sono, mas um cafezinho gentilmente oferecido pela equipe do Violino Didático resolveu o problema. Jean de Oliveira a recebeu com o título que ela realmente merece: dona dos textos mais bem escritos em língua portuguesa sobre violino.

Ela é a criadora do Papo de Violinista, blog que existe desde 2013 e 2014, e que muita gente conhece hoje pelo perfil no Instagram. Mas o coração do projeto sempre foi outro: um site cheio de textos cuidadosos sobre tudo que violinistas precisam ler e quase nunca encontram em português.

O buraco que um blog preencheu

A história do Papo de Violinista começa com uma percepção simples e poderosa. Helena encontrou muito material que mudou sua trajetória, tudo em inglês, e decidiu trazer esse conteúdo para quem não tinha acesso fácil a ele.

O ponto de partida foi o blog americano The Bulletproof Musician, escrito por Noa Kageyama, violinista formado na Juilliard que depois fez pós-graduação em psicologia da performance. Helena entrou em contato, pediu autorização para traduzir os artigos e ele respondeu: “vai”.

O tema central era ansiedade de performance, um assunto que vinte anos atrás quase não se discutia no meio musical brasileiro. “A gente falava ‘ah, fiquei nervoso’, e era meio que uma loteria”, lembra ela. Ou você conseguia tocar apesar do nervoso, ou não. Ponto final.

Hoje existem estudos acadêmicos em português, professores falando sobre o assunto, termos mais precisos. Mas foi o Papo de Violinista que abriu boa parte dessa conversa por aqui.

Psicologia da performance: de onde veio esse campo

Helena explica que a psicologia da performance nasceu nos Estados Unidos, dentro do universo dos esportes. Com o tempo, perceberam que as ferramentas funcionavam igualmente bem para artistas de alta performance, aquelas situações em que você precisa entregar o melhor no momento exato, sem margem para erro.

O campo migrou para a música e a adaptação exigiu pouquíssimos ajustes. Preparar um recital importante, enfrentar um teste de orquestra, escolher repertório, lidar com erros durante o estudo: tudo isso ganhou métodos, pesquisa e linguagem própria.

No Brasil, essa cultura chegou mais tarde. Helena saiu do país com 25 anos, há mais de duas décadas. Na época, os testes para orquestras no Brasil tinham pouca estrutura definida. Ela se lembra de fazer testes para a Orquestra Experimental ainda adolescente, em 1996, quando as diretrizes eram vagas. Quando voltou do exterior, já havia mudado muita coisa.

Do outro lado da banca

Helena faz parte do corpo docente da EMESP Tom Jobim, a Escola de Música do Estado de São Paulo, instituição da qual Jean também é egresso e tem imenso orgulho. Nessa posição, ela já participou de bancas de avaliação e tem uma visão que poucos estudantes costumam ouvir: o que acontece do outro lado da mesa.

A revelação mais importante é sobre a postura da banca. Quando um candidato entra na sala, a predisposição de quem avalia não é caçar erros. É o contrário.

“A gente quer ver as pessoas tocando bem”, ela diz. “A gente quer ver o que vocês estudaram, o que vocês têm de bonito, o que vocês encontraram de legal naquela peça.”

Ela dá um conselho prático e direto: se a estante de partitura está num lugar, não mude. A banca a posicionou ali por um motivo. Muitas vezes os candidatos a reposicionam para ficar parcialmente escondidos atrás dela, como uma barreira de proteção. Só que isso tem o efeito oposto ao desejado.

Sobre estar nervoso: tudo bem, realmente

Outro ponto que Helena faz questão de esclarecer é sobre o nervosismo em si. Estar ansioso antes de uma performance não é sinal de fraqueza e não é algo que a banca interpreta negativamente.

“Isso não conta”, ela diz com clareza. “Estar nervoso não faz você ser olhado como menos.”

Ela mesma fica ansiosa para tocar com orquestra. A ansiedade de performance tem muitos níveis e está presente na vida de músicos profissionais o tempo todo. O que muda é a relação que cada um desenvolve com ela.

O que ajuda, segundo Helena, é lembrar que a banca também quer ouvir música. Essa troca, por mais formal que seja o contexto, ainda é uma experiência humana e musical.

O que é música bonita e como desenvolver esse senso

Jean levantou uma pergunta que está no coração de tudo: o que é música bonita e como um estudante desenvolve o senso para reconhecê-la?

Helena foi honesta: é o tipo de coisa que você sabe quando ouve. Difícil de traduzir em palavras.

Mas ela trouxe um ponto fundamental. Intérpretes têm a capacidade de tornar qualquer coisa interessante. Qualquer som, de qualquer natureza. Ela menciona músicos de percussão como exemplo, aquelas pessoas que conseguem fazer de um objeto banal algo completamente fascinante.

O problema para estudantes, especialmente iniciantes, é que a técnica consome toda a atenção. Você quer acertar as notas, afinar, manter o ritmo, fazer um som que não seja horrível. No violino, isso é especialmente difícil, porque o instrumento resiste mais do que a maioria.

Nessa luta constante com os aspectos técnicos, a conexão com o que você quer ouvir se perde. E é justamente essa conexão que separa uma execução funcional de algo que toca quem está ouvindo.

Helena cita ainda um momento que presenciou na EMESP, num workshop de Ricardo Hertz (que também foi entrevistado por Jean no podcast). Ricardo mostrou na prática que as pessoas superestimam a nota certa como critério de beleza. Ele tocou notas “erradas” sobre uma harmonia fixa e demonstrou que mesmo assim é possível criar algo interessante. A nota certa, por si só, não é o que torna a música bonita.

A referência dos 10:43

Na conversa, Jean explica o porquê do horário inusitado de publicação dos episódios: 10h43. É uma referência direta ao Concerto Duplo de Bach, BWV 1043. O objetivo do Violino Didático é levar alunos do zero até esse concerto, e a lógica por trás disso é generosa: quem chega a tocar o Duplo em bom nível consegue executar 99% do repertório musical que uma pessoa comum vai precisar na vida, seja na igreja, em casamentos ou em aulas.

Helena, que é fã declarada do concerto, topou na hora gravar um trecho ao lado de Jean, cada um num violino. O plano ficou em aberto, com uma ressalva: Jean havia acabado de estourar a corda sol ao deixar o microfone cair sobre o instrumento.

Faz parte.

Uma conversa que importa

O episódio com Helena Piccazio é uma dessas conversas que ficam. Ela fala sobre o que escreveu, o que estudou, o que viveu, e o resultado é uma aula disfarçada de bate-papo.

Para quem estuda violino, seja no início da jornada ou já em estágios mais avançados, ouvir alguém com a trajetória dela falar sobre ansiedade, bancas e beleza musical é exatamente o tipo de perspectiva que muda a forma de estudar e de se preparar.

Ouça o episódio completo no YouTube: HELENA PICCAZIO - Podcast do Violino Didático #019

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