A história do livro 480 Hinos com Dedilhados para Violino
O livro 480 Hinos com Dedilhados para Violino nasceu de uma memória simples: uma senhora cantarolando na cozinha. Antes de ser um método, antes de ser uma partitura, ele foi uma saudade. E essa saudade tem nome: Maria de Lurdes.
Ela era porteira da Congregação Cristã no Brasil na comum da Granja Viana, em Cotia, interior de São Paulo. Por muitos anos, abriu as portas daquele lugar com a mesma naturalidade com que abria o coração para as pessoas. E foi ela quem, certa segunda-feira à noite, levou o neto Jean pela mão até a escolinha de música.
Como tudo começou: uma segunda-feira à noite na escolinha da CCB
A escolinha era o espaço onde crianças e jovens da congregação aprendiam a tocar os hinos do Hinário Nº 5. Jean de Oliveira tinha pouca idade quando pisou naquele salão pela primeira vez. O irmão Pimenta estava lá, pronto para ensinar as primeiras notas.
Foi com ele que Jean aprendeu a posicionar o arco, a colocar os dedos na corda e a encontrar as primeiras melodias. Bateu o bona, como se diz na tradição da CCB: passou pela prova que marca a entrada oficial do aluno no conjunto. Aquele momento, aparentemente pequeno, plantou algo que jamais saiu.
Mas havia algo que acontecia fora da escolinha e que talvez tenha sido ainda mais formador. Em casa, a avó cantarolava os hinos. Na cozinha, enquanto cozinhava. Pela manhã, enquanto arrumava a casa. Aquelas melodias do hinário foram o som de fundo da infância de Jean. Ele as absorveu sem perceber.
O que o tempo faz com o que a gente não sabe valorizar
Crescer é, muitas vezes, se afastar do que nos formou. Jean seguiu em frente, estudou violino com seriedade e foi fundo. Formou-se pela EMESP Tom Jobim. Fez cursos no Juilliard, no Premier Orchestral Institute, no Summer Music Institute da Universidade do Novo México. Criou o método MJO. Fundou o Violino Didático, hoje o maior canal de violino do Brasil em língua portuguesa.
O caminho foi longo e exigente. E, como acontece com muita gente, houve momentos em que a dedicação da avó não recebeu o reconhecimento que merecia. Não por maldade, mas pela pressa de quem está construindo, correndo, crescendo.
A dedicatória do livro carrega isso de forma honesta. É uma homenagem, sim, mas também é um pedido de desculpas. Jean reconhece, com as próprias palavras, que nem sempre soube valorizar o que Maria de Lurdes fez por ele. Levá-lo àquela segunda-feira à noite foi um gesto pequeno no tamanho, mas enorme nas consequências.
Por que transcrever todos os 480 hinos
A ideia do livro não surgiu do nada. Ela surgiu de uma pergunta que Jean ouvia com frequência dos alunos iniciantes da CCB: como toco os hinos que eu conheço desde criança?
O violinista iniciante enfrenta uma dificuldade real. As partituras tradicionais trazem muita informação ao mesmo tempo. Clef, armadura de clave, figuras rítmicas, dinâmica. Para quem está aprendendo, é fácil se perder antes mesmo de chegar na melodia.
A solução foi criar um sistema de dedilhado simplificado. Cada nota indica o número do dedo a ser usado: 1 para o indicador, 2 para o médio, 3 para o anelar e 4 para o mínimo. A cor indica a corda: vermelho para Mi, azul para Lá, verde para Ré e amarelo para Sol. Dois elementos visuais, e o aluno já sabe onde colocar o dedo e em qual corda.
O livro apresenta quatro padrões de dedos e duas posições. O primeiro padrão traz os intervalos 1-2 de 1 tom, 2-3 de semitom e 3-4 de 1 tom. O segundo inverte os dois primeiros: 1-2 de semitom e 2-3 de 1 tom. O terceiro aproxima os dedos 3 e 4. O quarto distribui todos os dedos a 1 tom de distância entre si. A 1ª posição padrão coloca o primeiro dedo a 1 tom da corda solta; a 1ª posição baixa o aproxima da pestana, a 1 semitom.
Não é um método de violino. O livro deixa isso claro. Ele não ensina a tocar do zero. Ele serve de apoio para quem já tem noções básicas e quer chegar logo nos hinos, sem precisar decifrar uma partitura convencional antes do tempo.
A parceria com Fernanda Teles
Transcrever 480 partituras é um trabalho enorme. Jean contou com a professora Fernanda Teles para essa tarefa. Ela fez a transcrição de todos os hinos do Hinário Nº 5 da Congregação Cristã no Brasil, aplicando o sistema de dedilhado em cada melodia.
O resultado cobre dez tonalidades. Mi♭ maior lidera com 92 hinos. Sol maior vem em seguida com 77. Lá♭ maior traz 74, Si♭ maior tem 65, Dó maior conta com 55 e Fá maior com 48. Ré maior reúne 40 hinos, Ré♭ maior tem 19, Lá maior traz 8 e Mi maior fecha com 2. Todas as tonalidades são maiores, o que é coerente com o repertório do hinário.
Cada partitura traz apenas a voz do violino, a linha da melodia. Isso reduz a poluição visual e mantém o foco no que o iniciante precisa: saber qual nota tocar, em qual corda e com qual dedo.
Para todas as avós que cantarolam pelos corredores do Brasil
Há um detalhe que Jean menciona ao falar do propósito do livro. Não é só sobre aprender violino. É sobre alcançar os hinos que fazem parte da história de muita gente.
Existe uma cena que se repete em lares de membros da CCB por todo o país. Uma pessoa mais velha cantarolando um hino enquanto faz alguma coisa. Na cozinha, no quintal, na varanda. Essa cena é comum porque os hinos do Hinário Nº 5 estão fundo na memória afetiva de quem cresceu na congregação.
O livro foi pensado para que os filhos e netos dessas pessoas possam pegar o violino e tocar aquilo que elas cantam. Para que a melodia que ficou na memória possa sair pelo instrumento. Para que a música que a avó trouxe consigo possa ser devolvida a ela, desta vez com arco e corda.
Maria de Lurdes cantarolava os hinos na cozinha de Cotia. Jean os aprendeu sem querer. Décadas depois, transformou essa memória em 480 partituras com dedilhado para que outros iniciantes possam fazer o mesmo.
Se você quer tocar os hinos da CCB no violino sem precisar decifrar partituras convencionais, conheça o 480 Hinos com Dedilhados para Violino, de Jean de Oliveira. É um livro feito de memória, gratidão e muita música.
Uma homenagem que chegou tarde, mas chegou
Nem toda dedicatória é simples de escrever. Algumas carregam peso. A de Jean para Maria de Lurdes carrega os dois lados: a gratidão pelo que ela fez e o reconhecimento honesto de que isso nem sempre foi valorizado como merecia.
Essa honestidade é o que torna o livro mais do que um material didático. Ele é um acerto de contas com a própria história. Uma forma de dizer que a avó que abriu as portas da comum e levou o neto até a escolinha fez mais do que parecia naquele momento.
Toda criança que hoje entra na escolinha de uma CCB e pega o violino pela primeira vez está, de certa forma, repetindo o gesto de Maria de Lurdes. E todo iniciante que abre esse livro e encontra o dedilhado de um hino que conhece desde pequeno está, de certa forma, repetindo o gesto de Jean.
A música que passa de geração em geração não precisa de muita coisa para continuar viva. Às vezes, basta uma segunda-feira à noite, uma mão estendida e a disposição de começar.