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Iberê Carvalho: viola, câmara e o Ubuntu Ensemble

Podcast Violino Didático

Iberê Carvalho é violista, professor e uma das vozes mais atuantes quando o assunto é música de câmara no Brasil. Chefe de naipe de violas da Orquestra de Santo André, ele também ministra aulas em festivais espalhados pelo país. Mas o projeto que ocupa um lugar especial no seu coração tem outro nome: o Ubuntu Ensemble.

Foi em conversa com Jean de Oliveira que Iberê contou sobre cada uma dessas frentes de trabalho, suas origens musicais em Belo Horizonte, os anos estudando na Alemanha e as questões que considera urgentes para a música no Brasil.

O Ubuntu Ensemble e a luta contra o apagamento

O Ubuntu Ensemble nasceu de um pensamento coletivo e de uma necessidade real. Trata-se de um grupo de música de câmara com formação aberta, que vai de duos a pequenas orquestras. O diferencial está em quem o compõe: músicos e musicistas pretos e pretas de todo o Brasil, reunidos para fazer música e também para trazer à tona o apagamento histórico de pessoas negras dentro da música de concerto no país.

A logística de reunir tantas pessoas espalhadas pelo território nacional depende, acima de tudo, de financiamento. Quando o orçamento permite, Iberê traz músicos de regiões mais distantes. Quando não, ele trabalha com quem está mais próximo da cidade onde o concerto acontece. Foi assim em Salvador, assim em Minas Gerais, assim em São Paulo.

O concerto que consolidou o grupo aconteceu no Sesc, numa formação de cordas e piano. Havia verba de passagem e cachê, e foi possível reunir todos no mesmo palco. Esse tipo de resultado, porém, exige um trabalho que vai muito além de tocar bem o instrumento.

A veia de produtor que veio de uma madrinha musical

Quem produz, capta recursos, negocia contratos, cuida da iluminação e resolve a logística é o próprio Iberê. Ele reconhece que esse acúmulo de funções é uma realidade de quem quer fazer algo fora das instituições. E atribui essa gana produtiva a uma pessoa muito especial: a pianista Celina Tvin, sua madrinha musical.

Iberê foi para Belo Horizonte estudar e, logo no primeiro semestre, fez aula de música de câmara com Celina. Ela era diretora de três séries de concertos, membro do conselho artístico da Filarmônica de Minas e banca de concursos na Alemanha. Trabalhar próximo a ela foi uma escola prática de produção cultural. Foi ela quem lhe mostrou, no dia a dia, como se organiza, quem vai para onde, como se negocia verba e como se sustenta um projeto musical vivo.

Seis anos na Alemanha e a paixão pela câmara

Antes de assumir a cadeira na Orquestra de Santo André, Iberê passou quase seis anos na Alemanha. O foco dos estudos não era orquestra: era música de câmara. Quartetos de cordas, quintetos com piano, o universo da música para pequenos grupos. Ele conta, com bom humor, que o maestro Abel Rocha sempre diz que precisou insistir muito para trazê-lo para o naipe.

A orquestra não era o primeiro plano. Iberê sabia, porém, que música de câmara no Brasil não é um mercado consolidado. É um mercado que precisa ser construído, na força do trabalho, com facão na mão, como ele mesmo define.

Por que a música de câmara merece mais espaço no Brasil

Um dos momentos mais instigantes da conversa foi quando Iberê defendeu o potencial da música de câmara como política cultural. Grupos menores são mais versáteis, mais baratos de produzir e chegam a lugares onde uma orquestra sinfônica jamais chegaria: igrejas, escolas, centros comunitários, terreiros de candomblé.

Ele imagina um circuito nacional de música de câmara, com quartetos e quintetos espalhados pelo país em vans, tocando em qualquer espaço disponível. O repertório poderia ir do cânone europeu a arranjos de música popular, passando por encontros com grupos de percussão de comunidades, rappers ou bandas locais.

O ponto central, para ele, é abandonar a ideia de que a música erudita vai até as pessoas para “mostrar cultura”. Todo mundo já tem cultura. O que falta é encontro, troca, presença.

O problema da palavra “erudito”

Iberê toca em um debate que Jean de Oliveira também carrega como missão no Violino Didático: a questão da terminologia. A palavra “erudito” carrega um problema embutido. Ela vem de erudição, de algo restrito aos entendidos. E isso afasta o público antes mesmo de qualquer nota soar.

Ele prefere usar “música clássica” ou “música de concerto”. No mundo inteiro, o termo é “classical music”, seja para Beethoven, seja para Paganini. No Brasil, o “erudito” cria uma barreira psicológica: a pessoa sente que não vai ao concerto porque não é entendida. Ninguém pensa assim antes de ir ao cinema.

Para ilustrar, Iberê contou sobre uma amiga que ouvia principalmente funk e foi assistir a um concerto do grupo de percussão da UFMG, que tocava música contemporânea. Ela ficou tão impactada pela performance que passou a misturar, na mesma playlist, Anitta, Tigrinha e Workers Union de Louis Andriessen. A experiência ao vivo foi mais poderosa do que qualquer rótulo.

Outra ideia que percorre a conversa é a de que a separação entre popular e erudito é, em grande parte, artificial. Iberê lembra que boa parte do que chamamos de música clássica bebeu diretamente de fontes populares. E o caminho inverso também existe: ele aponta que “Tanto Mar”, de Chico Buarque, cita o tema da Fantasia Coral de Beethoven. O mesmo Chico que hoje é tratado como referência da alta cultura foi, em seu tempo, música popular.

Essa conversa reforça algo que o Violino Didático defende desde sempre: a música não cabe em caixinhas. Ela circula, se mistura e pertence a todo mundo.


Ouça o episódio completo no YouTube: IBERÊ CARVALHO - Podcast do Violino Didático #065

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