Igor Duarte: de Araranguá ao Violino Didático
De Araranguá a Cotia: 18 horas de viagem por uma conversa
Igor Duarte chegou a Cotia depois de 18 horas de viagem. Ele veio de Araranguá, em Santa Catarina. Não é o tipo de deslocamento que alguém faz por obrigação.
Mas Igor tem uma relação especial com o Violino Didático. Ele é um dos professores do canal e, segundo Jean de Oliveira, faz parte da história da educação do violino no Brasil.
Com apenas 22 anos (quase 23 na época da gravação), Igor já acumula uma trajetória que começa de onde ninguém esperaria: uma família sem nenhuma tradição musical.
Uma família sem músicos e uma internet que chegou tarde
Não havia instrumentos em casa. Nenhum pai, nenhum tio que tocasse. Tinha um primo distante que mexia com guitarra, violão e talvez violino, mas Igor nunca teve contato com ele.
A internet só chegou à casa de Igor em 2016. Para muita gente, aquele já era o segundo ou terceiro ano no YouTube. Para Igor, foi o primeiro contato com tudo aquilo.
Ele foi descobrindo o que o site podia fazer. Pesquisou pegadinhas, vídeos aleatórios. Até que sua mãe sugeriu algo diferente:
“Já que tu tem uma ferramenta que tu pode pesquisar qualquer coisa, pesquisa Vivaldi, As Quatro Estações.”
Igor nem sabia o que era isso. Mas pesquisou.
As Quatro Estações e uma memória que não era só dele
O vídeo abriu. Sem anúncio, direto para a música. Igor ficou 40 minutos sem pausar, ouvindo as quatro estações completas.
A reação foi imediata: “Cara, isso é muito bom.”
Mas a história tinha uma camada a mais. Sua mãe, anos antes de ele nascer, tinha três discos de música clássica: um com As Quatro Estações, um com as valsas de Strauss e um terceiro que ela não lembrava bem. Ela ouvia aquilo repetidamente, o dia inteiro.
E ela ouvia esses discos quando estava grávida de Igor.
Quando ele assistiu ao vídeo e ficou completamente encantado, ela disse: “Eu colocava As Quatro Estações o tempo todo quando tava grávida de ti.”
Talvez uma memória afetiva. Talvez coincidência. De qualquer forma, a conexão estava feita.
Do encantamento à decisão: quero aprender violino
Depois das Quatro Estações, Igor foi fundo. Quinta Sinfonia de Beethoven, Nona, Mozart ao piano. Ouvindo o dia todo, conhecendo os instrumentos.
O violino foi o que mais chamou atenção. Jean e ele chegaram a um acordo no episódio: o violino é o instrumento mais bonito. Fato estabelecido.
A decisão foi simples e direta: “Eu preciso aprender esse instrumento.”
Comprando o violino antes de saber qualquer coisa
Igor pediu um violino para a avó. A mãe não tinha condições de comprar, ele tampouco. A avó era quem ajudava com essas coisas maiores.
Foi a uma loja de música comum, daquelas que vendem saxofone, teclado, violão e violino no mesmo espaço. Não podia testar o instrumento. Não conhecia ninguém que tivesse um violino para experimentar antes.
A lógica dele era simples: comprar, tocar qualquer coisa e ver se a sensação era agoniante ou não. O som ele já sabia que era bonito. A dúvida era se apertar os dedos e passar o arco seria suportável.
Chegou em casa, abriu o estojo, passou breu (já havia pesquisado sobre isso no YouTube), e tocou a corda ré solta, desafinada.
Foi o suficiente. Não era agoniante. Era exatamente o que ele queria fazer.
Jean aproveitou o momento para fazer uma observação importante: muita gente acha que precisa do instrumento antes de buscar aulas. Na prática, é o contrário. O professor pode orientar sobre qual violino comprar, onde comprar, como evitar os modelos que mais atrapalham do que ajudam. Um violino de R$ 200 de plástico existe, mas raramente serve.
O jovem aprendiz que corria para a aula de violino
Na época, Igor trabalhava de manhã como jovem aprendiz, num programa do Senac que alternava meses de curso com meses dentro de uma empresa. À tarde, tinha aula na escola.
O único horário disponível para violino era o horário do almoço. Das 12h15 à 1h15. Ele saía do serviço correndo, fazia a aula, e corria de volta para chegar à escola às 1h30.
O violino ficava na escola de música. Complicado demais levar e trazer no rush do dia.
A primeira aula: uma experiência para esquecer (mas não dá)
O primeiro professor era pianista. Tocava piano muito bem. Violino? Igor não sabe até hoje se ele sabia tocar.
A orientação de postura foi uma só: “Do jeito que ficar mais confortável para ti.”
Igor colocou o violino torto, o arco de qualquer jeito. Começou a doer no primeiro minuto. Ficou 50 minutos sem tirar o instrumento do ombro, com dor, sem reclamar. Vergonha de falar.
O conteúdo da aula foi basicamente: corda mi, lá, ré, sol. Dedo um é si. Dedo dois é dó. Si, dó, dó, lá, si, dó.
Nenhuma orientação sobre como afinar. Nenhuma explicação sobre as partes do instrumento. Nenhuma conversa sobre postura real. Nos últimos 10 minutos, uma explicação de partitura que Igor não entendeu nada.
Saiu da aula moído e decepcionado consigo mesmo.
Jean reforçou algo importante aqui: alunos precisam falar com o professor quando algo dói. A dor não é parte do processo. É um sinal de que algo precisa ser ajustado.
Uma escola que encaixava qualquer professor em qualquer instrumento
Essa é uma realidade que Jean e Igor mencionaram sem rodeios. Em muitas escolas de música, especialmente fora dos grandes centros (mas não só), quando chega um aluno de violino, a escola não quer perder o aluno. Então coloca quem tiver disponível.
Professor de cavaquinho, de saxofone, de piano. Vai lá dar aula de violino.
As três primeiras aulas de Igor foram iguais: si, dó, dó, lá. Sem evolução. Sem correção de postura. Sem nada além do básico mais elementar.
Mas a escola percebeu que Igor não estava satisfeito e trocou de professor.
O segundo professor: alguém que realmente tocava
O novo professor chegou, abriu o estojo, se apresentou e tocou. Uma escala, uma passagem, qualquer coisa. Mas tocou.
Igor pensou: “Então esse aqui toca violino. OK.”
A aula ainda foi bem aleatória: sem saber segurar o arco direito, Igor já estava fazendo escala de sol maior, começando pela corda sol. Não havia uma progressão pedagógica clara. Mas ao menos havia um violinista na frente dele.
Era um começo diferente.
O que essa história diz sobre aprender violino
A trajetória de Igor até chegar ao Violino Didático como professor não foi linear. Começou com uma sugestão da mãe, passou por discos que ela ouvia grávida, chegou numa loja sem poder testar o instrumento e entrou numa escola onde o primeiro professor talvez nunca tivesse tocado violino na vida.
E ainda assim, ele chegou lá.
É exatamente o tipo de história que o Violino Didático existe para transformar. A mensagem de Jean é sempre a mesma: todo mundo é capaz de tocar violino. Igor é mais uma prova disso.
Ouça o episódio completo no YouTube: IGOR DUARTE - Podcast do Violino Didático #120