Ingrid Zur: a violista que cruzou o mundo pela música
Ingrid Zur é o tipo de artista cuja trajetória parece roteiro de filme. Nascida na Argentina, formada em Israel, radicada em Frankfurt há décadas e veterana da Filarmônica de Israel, ela chegou ao Brasil a convite do Mozarteum Brasileiro para uma série de masterclasses. Foi nessa visita que Jean de Oliveira teve a chance de sentar com ela para uma conversa que rendeu muito mais do que uma biografia musical.
O resultado foi uma conversa franca, bem-humorada e cheia de reflexões sobre o que significa, de verdade, tocar bem um instrumento.
De Buenos Aires ao violino, quase por acidente
Tudo começou com um avô que morava a uma quadra de casa. Aos seis anos, Ingrid foi levada pelos pais para estudar com esse vizinho violinista, que a tratava como neta. Ela ia três vezes por semana, adorava o cachorro dele e, sem perceber, foi mergulhando no instrumento.
Dos 10 aos 18, estudou com Lier Spiller, um dos maestros mais reconhecidos de Buenos Aires na época. Nomes como Alberto Lysy passaram pela escola do mesmo professor. A base argentina foi sólida, mas o mundo que viria a seguir era muito maior do que a jovem Ingrid imaginava.
O lado negro da força: a viola
Na academia, Ingrid estudou violino por quatro dos cinco anos do curso. No quinto, encontrou a viola, e a vida mudou de direção. Sua professora de violino ficou decepcionada. Ingrid nunca mais voltou ao instrumento de origem.
A explicação que ela dá para essa escolha diz muito sobre quem ela é: não gosta de estar na frente. A viola, por natureza, ocupa um papel de suporte, de cola harmônica, de abraço sonoro. “Eu posso abraçar tudo”, ela disse, com uma clareza que vai além da preferência técnica. É uma questão de personalidade, de onde se sente em casa dentro de uma orquestra.
Jean, que assistiu às masterclasses antes da conversa, não deixou passar: ela ensina violino como ninguém, mesmo tendo trocado de instrumento há décadas. Todos os presentes nas aulas saíram impressionados.
Israel, um kibbutz e quinze anos que mudaram tudo
Aos 18 anos, Ingrid foi visitar o tio em Israel. O plano era ficar seis semanas. Ficou um ano. Depois voltou à Argentina, se organizou, conseguiu uma bolsa para estudar na Academia de Tel Aviv, que era uma das mais renomadas do mundo naquela época, e construiu uma carreira sólida no país.
Casou com um fagotista israelense, teve um filho, e por quase 15 anos Israel foi seu lar. O ponto alto desse período foi uma vaga na Filarmônica de Israel, uma das grandes orquestras do mundo.
Mas a vida tinha outras curvas pela frente.
Frankfurt: três malas, uma criança e 10 mil marcos
A mudança para a Alemanha não foi sonho de Ingrid. Foi desejo do marido, que via oportunidades nas orquestras alemãs. Ela chegou com três malas, o filho de três anos no colo e 10 mil marcos no bolso para durar três meses.
Com um mês, já tinha um posto como assistente de spalla em uma orquestra perto de Colônia. A língua não era barreira: alemão era uma das línguas da casa, herança da mãe, que havia fugido da Alemanha durante a Segunda Guerra. Mas falar o idioma e querer estar naquele país eram coisas muito diferentes.
Ingrid carregou por anos uma resistência interna à Alemanha. A identidade judaica, que cresceu nela durante os anos em Israel, pesava. Por quase uma década, ela se recusou a falar alemão em casa, mesmo dominando o idioma. Esse conflito, ela contou com rara honestidade, foi parte do custo emocional de construir vida em Frankfurt.
Bernstein, Pavarotti e um palco que tremeu
A carreira na Alemanha trouxe experiências que poucos músicos vivem. Ingrid tocou em uma época em que os maiores nomes do século passavam pela orquestra: Bernstein, Mehta, Maazel, Ager, Zuckerman, Perlman, Pavarotti.
Dois momentos ficaram guardados na memória. O primeiro foi de nervos puros: chamada às 9h30 para substituir alguém às 10h, sem ter ensaiado a Quinta Sinfonia de Mahler em sua vida. Lá estava Leonard Bernstein regendo, com aqueles olhos azuis fixos nela. Ela ficou paralisada. Ele notou, se aproximou e disse com gentileza: “Tudo bem, menina. Fica tranquila.”
O segundo momento foi de puro espanto: Jesse Norman e Pavarotti subiram juntos ao palco. Com o peso combinado dos dois, o assoalho começou a tremer. Ingrid pensou que era terremoto.
O Brasil e a tesoura que dói
A primeira vez que Ingrid veio ao Brasil foi em 1990 ou 1991, com a Orquestra de Rádio de Frankfurt, contratada pelo Mozarteum. Uma turnê por várias cidades, incluindo São Paulo.
Sobre a Sala São Paulo, ela guardou uma impressão que vai além da arquitetura. Ao ver as pessoas em situação de rua encostadas na fachada do equipamento cultural mais sofisticado da cidade, ela sentiu tristeza. “A tesoura é tão grande no Brasil”, ela disse, comparando com a Argentina daquela época. Dentro, o público bem vestido. Do lado de fora, uma realidade completamente separada.
Jean concordou, e reconheceu que hoje enxerga nessa imagem o retrato real do país, algo que quando jovem o revoltava e hoje entende como sintoma de uma desigualdade estrutural.
Música com alma, não só com técnica
Um dos momentos mais marcantes da conversa veio quase no fim, quando Ingrid disse algo que Jean parou para anotar. Ela falou sobre a diferença entre tocar bem e tocar com sentido, e resumiu assim: “O corpo que toca, a alma que toca, a cabeça somente explica.”
Para ela, a habilidade técnica é o mínimo. O que realmente importa é a relação humana, a presença, a entrega. Ela disse, sem rodeios, que prefere trabalhar com alguém com quem tenha uma boa relação a um músico tecnicamente impecável que traga dificuldades no convívio.
Essa visão se conecta diretamente ao trabalho que ela faz nas masterclasses: não é só sobre dedilhado ou arcada. É sobre o que a pessoa comunica quando toca.
Uma artista de mundo que chegou para ficar
A relação de Ingrid com o Brasil se aprofundou a partir de 2001, quando ela passou a vir todos os anos para fazer audições do Festival de Schleswig-Holstein em parceria com o Mozarteum, selecionando jovens músicos brasileiros para o evento europeu. Depois da pandemia, essa relação ganhou ainda mais forma, com aulas online e, finalmente, a visita presencial para as masterclasses que motivaram essa conversa.
Ingrid Zur é uma dessas figuras raras que viveram a música por dentro, em orquestras de elite, em ensaios com lendas, em países que não eram os seus. E que, mesmo assim, segue curiosa, generosa e com muito a ensinar.
Ouça o episódio completo no YouTube: INGRID ZUR - Podcast do Violino Didático #101