Irineu Franco Perpétuo: jornalismo e música clássica no Brasil
Irineu Franco Perpétuo é, sem exagero, uma das maiores referências em jornalismo musical do Brasil. Crítico, apresentador, tradutor e colaborador de longa data da imprensa cultural, ele construiu uma carreira sólida ao lado da música de concerto, mesmo sem jamais ter tocado um instrumento profissionalmente. Jean de Oliveira recebeu Irineu para uma conversa longa, descontraída e cheia de histórias que explicam como alguém chega a ocupar esse lugar tão singular na cultura brasileira.
A conversa começou já com bom humor: Irineu confessou que as pessoas costumam confundi-lo com o comentarista esportivo Casagrande. Óculos parecidos, jeito de falar similar, e até um funcionário da TV Cultura que chegou a dizer ao pai que “o Casagrande estava no Prelúdio”. Irineu levou na esportiva, como se diz.
O jornalista que virou referência em música clássica
Para quem ainda não o conhece, Irineu Franco Perpétuo acumula hoje algumas frentes de trabalho bem definidas. Ele é jurado do Prelúdio, o tradicional programa de competição musical da TV Cultura, presente desde a primeira edição, em 2005. Na Rádio Cultura FM, apresenta o programa semanal Império Musical, exibido às quintas-feiras às 22h, com reprise aos sábados às 15h. Todos os episódios, do primeiro ao 127, estão disponíveis no site da TV Cultura. Além disso, é colaborador da Revista Concerto, a publicação cultural especializada em música de concerto mais antiga do Brasil.
Ele também faz o que chama de “quebra-galhos da vida de concerto”: escrever textos de programa, traduzir legendas de ópera, esse tipo de serviço invisível mas essencial para o ecossistema musical.
Uma revista que sobreviveu a tudo
A Revista Concerto tem uma história de resistência impressionante. Irineu brincou que já viu morrer muitas publicações culturais ao longo da carreira, mas a Concerto teima em sobreviver. O maior teste veio na pandemia: uma revista especializada em música ao vivo, cobrindo uma atividade que simplesmente parou.
Mas a equipe não deixou a publicação silenciar. Irineu usou uma comparação poderosa para explicar essa escolha. Durante o cerco nazista a Leningrado, na Segunda Guerra Mundial, quando os locutores da rádio já não tinham forças para falar, eles deixavam um metrônomo ligado ao microfone. A rádio não podia ficar muda. O sinal era: estamos vivos. Para Irineu, a Revista Concerto fez o mesmo durante a pandemia. Diminuiu de tamanho, adaptou o conteúdo, acompanhou a resistência dos músicos com lives e streams, mas não parou.
Três anos de piano sem virar pianista
Uma pergunta que muita gente se faz é: Irineu toca algum instrumento? A resposta é não, pelo menos não profissionalmente. Já com uns 23 anos, quando percebeu que seguiria pelo jornalismo musical, ele decidiu tomar aulas de piano. Não para tocar, mas para entender o processo de dentro. Queria sentir na pele o que é articular mente e corpo, treinar um músculo, materializar a música através de um instrumento.
Foram três anos de piano. Ele mesmo faz questão de deixar claro: isso não o coloca em condição de competir com nenhum pianista de verdade. Mas abriu uma janela importante para compreender o fenômeno musical de forma mais concreta.
Antes disso, nenhuma aula formal de música. O que existia era curiosidade genuína, alimentada desde a adolescência.
O acidente que virou vocação
A trajetória de Irineu no jornalismo musical não foi planejada. Ele entrou na Folha de S.Paulo por um programa de treinamento que, naquele semestre, tinha foco em jornalismo esportivo. Ele foi treinado para cobrir esportes. O jornal, nas palavras dele, “perdeu muito dinheiro” com essa aposta.
Quando apareceu uma vaga efetiva, a equipe de seleção leu o perfil dele e concluiu: esse cara vai para o Caderno de Cultura. Estava feito o destino.
Dentro da redação, ele percebeu que precisava encontrar um nicho. E havia um gap enorme na cobertura de música clássica no Brasil dos anos 1990, época pré-internet. Ou o jornalista era um especialista que reconhecia de ouvido 25 gravações diferentes da Chacona de Bach, ou era alguém que não sabia ao certo se Mozart veio antes ou depois de Beethoven. Não havia meio-termo.
Irineu se posicionou nesse espaço do meio. Com o pouco que sabia, já era uma referência pequena entre os colegas. Ele percebeu que, se levasse aquilo a sério, teria um caminho.
A adolescência que virou profissão
Irineu conta que todas as suas “doenças” que depois viraram profissão surgiram na adolescência. Ele cresceu lendo os clássicos da literatura e um dia se perguntou: e na música, quem são os equivalentes a Dostoiévski e Shakespeare? O pai tinha uma coleção de LPs comprados em banca. Os encartes vinham cheios de informação. Era por ali que se aprendia.
Ele chegou a frequentar o bazar do Pequeno Cotolengo, aqui em Cotia, para comprar a coleção de LPs da Folha com os clássicos da música. Depois vieram os CDs, as revistas inglesas importadas como Classic CD e BBC Music, às vezes alguma Diapason francesa. Era assim que se acompanhava o mercado internacional antes da internet existir.
Essa origem de diletante apaixonado moldou o comunicador que ele é hoje. Irineu diz que nunca perdeu a memória de como é querer saber, ser leigo, ter curiosidade sem ter vocabulário técnico. E isso, na visão dele, é o que permite conversar com o público sem afastar ninguém.
O problema com a palavra “erudito”
Um dos momentos mais interessantes da conversa foi sobre nomenclatura. Irineu detesta o termo “música erudita”. Para ele, a palavra carrega uma mensagem implícita perigosa: é música para quem entende. Como se fosse preciso ser erudito para apreciar.
Ele prefere “música clássica”, que é o termo usado no mundo inteiro. O argumento dos puristas, de que “clássico” tecnicamente se refere ao período do Classicismo, ele rebate com uma pergunta simples: e os filmes chamados de clássicos foram gravados no classicismo?
Para Irineu, criar barreiras de linguagem é a última coisa que esse universo musical precisa. O meio já tem dificuldades suficientes para se aproximar do grande público. Inventar mais uma não ajuda ninguém.
É uma visão que ressoa diretamente com o que o Violino Didático defende: a música é para todos, e a linguagem que usamos para falar dela deve abrir portas, não fechar.
Ouça o episódio completo no YouTube: IRINEU FRANCO PERPETUO - Podcast do Violino Didático #079