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Israel Fogaça: violino, jazz manouche e a arte de improvisar

Podcast Violino Didático

Israel Fogaça é um dos maiores improvisadores do violino no Brasil. Violinista de formação sólida, transitou com naturalidade entre a música clássica e o jazz, construindo uma trajetória singular que o levou a ser referência no chamado jazz manouche, ou gypsy jazz, no país.

Quando Jean de Oliveira o recebeu no Podcast do Violino Didático, a conversa fluiu com a mesma leveza de uma improvisação bem conduzida. Foram trocadas histórias sobre infância, professores marcantes, kartódromos e, claro, muito violino.

A bandeira do jazz manouche

Israel define com clareza a missão que mais defende hoje: unir a música clássica ao jazz. Para isso, mantém parcerias com grandes nomes da música brasileira, entre eles o maestro Júlio Medalha, o maestro João Carlos Martins e o maestro Amilson Godói, do Arte Viva.

O grupo que lidera é o Sampa Hot Jazz, uma reunião de amigos que transita pelo gypsy jazz, pelo jazz tradicional e pela música popular brasileira. O time, conta ele, vai se moldando de acordo com o objetivo de cada projeto.

Para quem nunca ouviu falar em gypsy jazz, Israel explica com entusiasmo. O estilo ficou famoso pelo lendário violinista Stéphane Grappelli, filho de italiano nascido na França, e pelo guitarrista Django Reinhardt, um cigano que adaptou temas tradicionais do jazz a uma linguagem própria. O resultado foi o que os ciganos chamavam de jazz manouche, ou manouche, como também é conhecido.

Cinco violinos pendurados na parede

A história de Israel com o violino começa bem antes de qualquer professor formal. Desde os sete ou oito anos, ele pegava o instrumento por conta própria, colocava uma fita cassete ou sintonizava a Rádio Cultura, e ficava tocando junto, improvisando por instinto.

“Ficava brincando com os temas”, conta ele. Era assim, sem saber ler uma nota sequer, que ele já tirava melodias de ouvido e explorava o instrumento com liberdade total.

O ambiente em casa ajudava. Havia cinco violinos pendurados na parede. Para Israel, eram brinquedos de tarde. Basta imaginar o cenário: uma criança curiosa, instrumentos ao alcance das mãos e nenhuma barreira para experimentar.

Seu pai, violinista de formação, estudou no Conservatório Santa Marcelina e teve aulas com Valdir Beluco, em Botucatu. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo, entrou na matriz do Bradesco e seguiu carreira por lá até se aposentar. Mesmo assim, nunca abandonou a música de todo, e foi ele quem deu as primeiras lições ao filho.

Aula todo dia, não uma vez por semana

Estudar com o pai em casa tinha uma vantagem enorme: as aulas eram diárias. Enquanto a maioria dos alunos tinha um encontro semanal com o professor, Israel praticava todo dia, com teoria e prática em dose contínua.

Houve um momento em que ele disse que não queria mais tocar. A resposta do pai foi direta e sem pressão: “Você não toca para mim, você toca para você. Se não quiser, tudo bem.” No dia seguinte, Israel já estava de volta ao violino.

Essa ausência de obrigação forçada é algo que Jean destacou na conversa. Há músicos que precisam de algum incentivo externo para manter a prática. Outros simplesmente não conseguem ficar sem o instrumento. Israel claramente pertencia ao segundo grupo.

Cláudio Cruz e a Escola Municipal de Música

A transição do pai para um professor formal veio através de Cláudio Cruz, que então era um jovem professor de cerca de 18 anos na Escola Municipal de Música de São Paulo. A escola funcionava numa casarão na Rua Guimarães Passos, na Vila Mariana, antes de se mudar para a Vergueiro.

Israel entrou na escola junto com Soraia Landim, filha do violinista Jaime Landim. O ambiente era rico: havia coral, contraponto, música de câmara, percepção musical. O maestro Jorge Salim dava aulas de câmara. Naomi Monteiro ensinava teoria.

Nos corredores, Israel cruzava com músicos que anos mais tarde tocariam nas principais orquestras do país. Ele lembra de ver o trompista Sergei Elzar de Carvalho esperando sua aula, ainda estudante, com a trompa grande no colo.

Na percepção musical, Israel se saía especialmente bem. Ele atribui isso aos anos de brincadeira com o violino antes de qualquer estudo formal. Construir a nota no instrumento, ouvir com atenção e experimentar desde cedo formou um ouvido apurado que a teoria apenas confirmou.

Jean aproveitou o ponto para falar de algo que defende com frequência: o desenvolvimento auditivo deve ser prioridade desde o primeiro contato com o violino. Israel concordou prontamente. Em instrumentos de afinação livre, como os de corda, quem não ouve não afina. E quem não afina, mesmo estudando por anos, pode acabar como o clássico pato: não nada direito, não anda direito, não voa direito.

Violino e kartódromo

Quem segue Israel sabe que o violino divide espaço com outra paixão: o kart. Ele chega a competir em até quatro campeonatos amadores por mês, e é justamente por isso que passa com frequência por Cotia, cidade natal de Jean.

A paixão pelos carros vem de família. Ele e os primos cresceram admirando automóveis, assistindo filmes de corrida e, cá entre nós, fazendo manobras nas ruas que ele prefere não detalhar muito. O kartódromo veio como forma de canalizar tudo isso de maneira controlada.

Mas há um preço. Antes de apresentações importantes, Israel evita as pistas. A musculatura dos braços fica tensa depois de uma corrida, as articulações endurecem e o rendimento no violino cai. Já houve pequenos acidentes, nada grave, mas o suficiente para lembrar que os dois mundos exigem cuidado.

Estudar menos, mas com mais qualidade

Um dos momentos mais honestos da conversa foi quando Israel falou sobre como sua relação com o estudo mudou ao longo do tempo. Ele admitiu que, por muitos anos, repetiria trechos de forma mecânica, sem parar para ouvir de verdade o que estava fazendo.

Hoje, estuda menos horas, mas com muito mais qualidade. Antes de repetir algo que não está saindo, ele escuta uma referência de alguém que faz bem. Entende o que precisa ser feito. Depois pratica com intenção.

“É uma maturidade que você alcança só depois que vê o resultado”, ele disse. Essa frase resume bem uma jornada de décadas tocando, errando, aprendendo e voltando ao violino com mais sabedoria a cada vez.

A conversa com Israel Fogaça é um convite para repensar como nos relacionamos com a música. Seja pelo caminho da improvisação, pela elegância do jazz manouche ou pela disciplina diária de quem cresceu com cinco violinos pendurados na parede.

Ouça o episódio completo no YouTube: ISRAEL FOGAÇA - Podcast do Violino Didático #095

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