Janderson Modesto: o Tony Stark violinista do Brasil
Janderson Modesto tem sobrenome que diz modesto, mas a vida que construiu ao redor do violino não cabe em palavra pequena nenhuma. Violinista, ator, dublador, químico, engenheiro de computação e, sim, sósia oficial do Tony Stark no Brasil: é difícil resumir quem é esse cara em uma linha só.
Jean de Oliveira o recebeu no podcast depois de cruzar com o perfil de Janderson nas redes e pensar imediatamente: “esse cara precisa vir aqui”. E a conversa que se seguiu foi uma das mais ricas sobre trajetória, superação e o que o violino é capaz de fazer na vida de uma pessoa.
O Tony Stark que nasceu do violino
A comparação com Robert Downey Jr. começou há cerca de dez ou doze anos, quando um amigo assistia a um filme de Sherlock Holmes e virou para Janderson com aquele olhar de quem acabou de perceber algo óbvio. A partir daí, a história foi se desdobrando.
Com o tempo, Janderson abriu uma loja geek e, em um evento de cosplay em Santana do Parnaíba, resolveu fazer um teste: foi caracterizado de Tony Stark para ver qual seria a reação do público. O que aconteceu naquele 30 de julho, dia do seu aniversário, o convenceu de vez. As crianças corriam para tirar foto, o carinho era genuíno, e ele entendeu que o personagem tinha chegado para ficar. Tanto que, como ele mesmo conta com bom humor, perdeu o próprio Instagram para o Tony Stark.
A ironia não passou despercebida nem para ele: o homem de sobrenome Modesto vivendo de interpretar o personagem mais nada modesto do universo Marvel.
Uma ficha dentro do estojo
Dentro do estojo do violino de Janderson, há uma fichinha de papel. Nela, a data em que tudo começou: 21 de agosto de 1993. Ele olhou para ela justamente no dia em que gravou o podcast, e o detalhe diz muito sobre o tipo de relação que ele tem com o instrumento.
A história começa em um projeto musical dentro de uma Congregação, onde, como é comum nesses contextos, o caminho para o instrumento passava antes por meses de teoria musical. Janderson ficou desmotivado. Não tinha instrumento próprio, a família não tinha condições de comprar, e a metodologia de aprender Bona antes de segurar um violino fazia pouco sentido para ele.
Jean trouxe uma reflexão importante durante a conversa: essa lógica de começar pela teoria é mais uma decisão gerencial do que musical. Como organizar o ensino de muitas pessoas sem instrumento suficiente para todos? Janderson concordou. E acrescentou que, quando começou a dar aulas particulares, fazia questão de colocar o instrumento na mão do aluno desde o primeiro contato.
Começar sem queixeira, sem arco certo, sem YouTube
Quando o violino finalmente chegou para Janderson, veio doado, e veio incompleto. Sem queixeira, sem espaleira, com um arco 3/4 para um instrumento 4/4. Ele começou torto, literalmente.
Mas começou. E evoluiu rápido o suficiente para que as próprias pessoas ao redor percebessem que havia algo diferente ali. Ainda na igreja, alguém lhe disse: “você pode procurar uma outra escola, porque essa evolução sua tá diferente”.
Para completar o cenário, não havia internet acessível. Janderson lembra que em casa o acesso à rede só chegou por volta de 2004 ou 2005, e ainda assim era lento demais para carregar uma foto. YouTube, então, era ficção científica. Para ouvir gravações de referência, ele atravessava a cidade inteira de trem, de Taboão até o Vergueiro, para visitar dois amigos, o Dinei e o Daniel, que tinham fitas de vídeo com Isaac Perlman e Max Vengerov.
O jovem que atravessava a cidade para ouvir Vengerov
A referência máxima de Janderson na adolescência era Maxim Vengerov. Ele descreve a sensação de ver o violinista tocar com uma imagem que ficou na memória: “a impressão que eu tinha é que ele não tocava o violino, ele comia o violino”.
E não era só a música. Vengerov é conhecido por ser apaixonado por musculação. Janderson ria ao lembrar que o violinista russo tira a camisa e parece o Hulk, o que derruba de vez o mito de que força física e agilidade no violino não combinam.
Essa admiração foi o combustível que o fez enfrentar o desconforto de ir até a Escola Municipal de Música de São Paulo pessoalmente, de trem, só para perguntar como funcionava o processo seletivo. Não havia site funcional para consultar. Era assim: pegar o trem, descer no Vergueiro, ir lá, perguntar.
O que o violino conecta
O que fica mais evidente ao longo da conversa é que o violino não foi apenas um instrumento para Janderson. Foi o fio que conectou tudo: as amizades, os caminhos na música, a presença em palco que levou ao trabalho como ator e dublador, e até a construção do personagem Tony Stark.
Ele mesmo disse: tudo o que aconteceu na minha vida provavelmente foi por conta do violino. E quando um homem com currículo tão variado quanto o dele aponta para um único ponto de origem, vale a pena prestar atenção.
A conversa com Jean também tocou em temas que qualquer estudante de violino vai reconhecer: o instrumento imperfeito do começo, a falta de recursos, o desânimo com metodologias que parecem mais burocracia do que música. E, acima de tudo, a persistência que faz toda a diferença.
Ouça o episódio completo no YouTube: JANDERSON MODESTO - Podcast do Violino Didático #028