Jhonatan Camargo: o violinista dos trens e metrôs de São Paulo
Jhonatan Camargo é o tipo de violinista que você pode encontrar no lugar mais improvável: dentro de um vagão de trem ou metrô em São Paulo. Não por acaso, não por necessidade imediata, mas por uma escolha consciente de levar música a quem raramente tem acesso a ela. É exatamente essa história que Jean de Oliveira foi contar no episódio 11 do Podcast do Violino Didático.
A conversa é daquelas que prendem do começo ao fim. Jhonatan fala com leveza, humor e uma sinceridade rara sobre como o violino atravessou toda a sua vida, das primeiras notas aos palcos improváveis da maior cidade do Brasil.
Quem é Jhonatan Camargo
Jhonatan cresceu em Pirituba, zona norte de São Paulo, e começou a estudar violino aos 12 anos em um projeto de escola de período integral. A escolha, na verdade, não foi bem uma escolha: ele queria flauta transversal. Chegou lá, não tinha flauta disponível. Tinha violino, viola, violoncelo e contrabaixo.
Com estatura baixa e mãos pequenas, as opções maiores ficaram de fora. O violino coube. E foi amor, ainda que demorou um pouco para ele perceber.
Ele foi ficando nas aulas mais do que o necessário, pedindo ao professor para praticar além do horário, e isso não passou despercebido. O maestro começou a dar aulas extras a ele, e com 13 para 14 anos Jhonatan já tocava em casamentos com o grupo Vivace.
O violino de vaquinha e a responsabilidade que veio com ele
Um detalhe da infância de Jhonatan ficou marcado na conversa: seu primeiro violino custou R$ 200 e a família toda fez uma vaquinha para comprar de presente. Era um violininho chinês com uma pintinha vermelha num canto. Pequeno detalhe, grande peso.
Essa generosidade criou nele um senso de responsabilidade que ele carrega até hoje. Ele não deixou o instrumento empoerado. Não virou peça decorativa. Ele honrou as pessoas que acreditaram nele antes mesmo de ele acreditar em si mesmo.
Jean aproveitou o momento para falar diretamente com quem ouve: muita gente tem violino debaixo da cama, em cima do guarda-roupa, esquecido num canto. Jhonatan é um lembrete vivo do que acontece quando você decide honrar o compromisso que fez com você mesmo.
Com os cachês dos casamentos, de R$ 50 a R$ 100 por apresentação, ele foi guardando dinheiro com um propósito claro: comprar seu próprio violino intermediário, uma Eagle. E comprou. Com o dinheiro que ganhou tocando.
A pausa, o ator de festas infantis e o reencontro com o violino
Aos 16 anos, Jhonatan parou de estudar violino. A vida cobrou outras escolhas, e ele foi trabalhar em outras áreas: uma madeireira, e depois eventos como ator em peças infantis e recreação. Chegou a montar uma empresa de recreação infantil.
Foi voltando de um desses eventos, todo fantasiado e com pintura artística no rosto, que ele viu algo dentro do vagão do metrô que mudou tudo. Um violinista tocando ao lado de um violoncelista e uma percussionista, fazendo música brasileira para os passageiros.
Aquilo o parou. Ele desceu na mesma estação que eles e foi conversar. Disse que também era violinista. O músico, chamado Fábio, pediu para ele tocar um pouco. Ouviu, gostou, e plantou a semente: “O metrô precisa disso. Você vai ver como é gratificante. Você volta para casa com uma energia muito boa e ajuda muita gente.”
A frase ficou na cabeça de Jhonatan. E ele voltou ao violino.
Tocar no trem por um motivo nobre, e no metrô por um motivo honesto
Um dos momentos mais divertidos da conversa foi quando Jean confessou que também tocou no metrô, mas por motivos bem menos nobres. Ele estudava na EMESP, morava em Cotia, e no horário de pico o transporte era um inferno. A solução: ir para uma estação movimentada, tocar durante o pico, ganhar uma grana e ir embora depois que o trânsito escoasse.
Jhonatan riu, mas não deixou de reconhecer: era uma estratégia genial. Não pegar trânsito e ainda sair com dinheiro no bolso.
A diferença é que Jhonatan foi além disso. Ele enxergou no metrô e nos trens uma oportunidade real de democratizar o acesso à música. As linhas de trem chegam a regiões distantes da cidade, onde o acesso à cultura erudita ou instrumental é quase inexistente. Levar o violino até lá, para essas pessoas, passou a ser o propósito.
Os presentes inusitados de quem para para ouvir
A conversa também teve espaço para leveza e boas risadas. Jean perguntou qual foi o presente mais inusitado que Jhonatan já recebeu tocando nos trens. A resposta: uma marmita com isca de peixe, limão e tudo mais, deixada por uma senhora que parecia ter acabado de sair do restaurante.
Ele saiu da estação com a sacolinha, abriu, veio o vapor, veio o cheiro. Almoço resolvido. Voltou para tocar depois.
Jean também teve o seu: uma paçoca fora da embalagem, já em farelos, colocada diretamente no estojo. A intenção era boa. A embalagem ficou pelo caminho.
Esses pequenos episódios dizem muito sobre o que acontece quando a música vai até as pessoas. Não é só apreciação estética. É afeto, é conexão, é o que alguém tem para oferecer naquele momento.
O que o violino pode fazer que você ainda não imaginou
Jhonatan também mencionou que depois de começar a tocar nos trens e metrôs, foi convidado para dois programas de televisão. Coisas que ele nunca imaginou que aconteceriam por causa do violino.
Essa é uma das perguntas que Jean fez e que ficou ressoando: o que você já fez que não imaginava que faria por causa do violino? Para Jhonatan, a lista é longa e ainda está crescendo.
Atualmente, ele divide o tempo entre os metrôs de São Paulo, onde ainda leva música de forma regular, e apresentações em casamentos e eventos. O trabalho social e o trabalho profissional caminham juntos, e um alimenta o outro.
A trajetória de Jhonatan Camargo é um lembrete poderoso de que o violino não precisa ficar restrito a salas de concerto. Ele cabe em vagões lotados, em praças de interior, em festinhas com paçoca fora da embalagem. E transforma tudo por onde passa.
Ouça o episódio completo no YouTube: JHONATAN CAMARGO - Podcast do Violino Didático #011