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Jhonni Campos: do Mato Grosso à Universidade da Geórgia

Podcast Violino Didático

Jhonni Campos é um violinista de Mato Grosso que está escrevendo sua própria história nos Estados Unidos. Hoje, ele cursa o mestrado em Performance de Violino na Universidade da Geórgia, uma das escolas de música mais estruturadas do país norte-americano. A trajetória dele é daquelas que inspiram: do projeto de orquestra no Mato Grosso até se tornar o primeiro spalla negro da história da UGA.

A conversa com Jean de Oliveira foi direta, honesta e cheia de momentos marcantes. Jhonni chegou até o estúdio em Cotia depois de uma aventura e tanto com o Uber, mas isso ficou para trás rapidinho quando o papo sobre música começou.

Um mundo completamente diferente

Quando Jhonni pisou pela primeira vez na Escola de Música da Universidade da Geórgia, o choque foi imediato. Ele havia feito o bacharelado na UFMT, onde o prédio de música era compartilhado com outros cursos, como jornalismo e letras. Na UGA, encontrou um prédio inteiro dedicado só à música, com andares separados por área: um para pianistas, outro para cordas, outro para sopros e percussão.

O que mais impressionou não foi só o espaço físico. Foram as salas de estudo individuais, os masterclasses com solistas internacionais e o nível constante de exigência musical. Jhonni assistiu a um masterclass com Hilary Hahn e soube que Max Vengerov também passaria pela universidade em breve. Para ele, não é uma questão de sorte estar nesse ambiente: é uma questão de oportunidade que poucos brasileiros têm acesso.

O salto de mil por cento

Jean e Jhonni já se conheciam do Festival de Poços, em 2020. Jean foi direto ao ponto: percebeu uma diferença absurda no nível de Jhonni desde aquele encontro até hoje. E usou os próprios números: um salto de pelo menos mil por cento.

Jhonni não escondeu a resposta. Para ele, não existe segredo nem fórmula mágica. O primeiro passo é ter um bom professor, alguém que mostre os caminhos certos. O segundo é a dedicação real, intensa e constante.

No período de preparação para o processo seletivo da UGA, Jhonni estudava entre nove e dez horas por dia. Ele fez questão de explicar que essa rotina não era algo sustentável no longo prazo: era um momento específico, com um objetivo muito claro. A divisão era mais ou menos assim: uma hora de técnica pela manhã, duas horas de repertório, e mais blocos similares à tarde e à noite.

Ele e Jean alertaram juntos: não sigam esse ritmo como rotina. Não é saudável. Aquilo foi uma preparação pontual, não um estilo de vida.

Spalla, negro e calouro

Logo que chegou à Universidade da Geórgia, Jhonni fez a audição para a orquestra sem saber exatamente o que esperar. O resultado surpreendeu a todos, incluindo ele mesmo: foi escolhido como spalla da orquestra, ou seja, o primeiro violino, o concertino.

Mas o que veio depois foi ainda mais impactante. Jhonni descobriu, ao perguntar diretamente ao departamento, que foi o primeiro spalla negro da história da universidade. E a orquestra existe há mais de cinquenta anos.

Ele fala sobre isso com calma, mas a importância do fato é enorme. O naipe de violinos da orquestra tem cerca de sessenta músicos. No curso inteiro de violino, havia apenas duas pessoas negras: Jhonni e uma amiga chamada Chelsea. Isso, nos Estados Unidos, onde a população negra é expressiva, diz muito sobre as barreiras que ainda existem no ensino superior de música clássica.

Jhonni não chegou com timidez. Chegou, como ele mesmo disse, com os dois pés na porta. E o ambiente percebeu.

A estrutura que o Brasil ainda não tem

Um dos pontos mais tocantes da conversa foi a comparação entre o meio musical de Mato Grosso e o ambiente da UGA. Jhonni reconhece que o cenário em Cuiabá tem melhorado muito, especialmente pelo trabalho do professor Oliver Sugafo, seu primeiro e principal orientador no Brasil. Mas admite que ainda há uma distância grande em relação ao que uma universidade como a UGA oferece.

A sala de concerto da UGA, por exemplo, impressionou Jhonni mais do que a própria Sala São Paulo. Ele tem enorme respeito pela Sala São Paulo e disse que se emocionou quando tocou lá pela primeira vez. Mas a acústica da UGA, segundo ele, é um nível à parte. No dia em que assistiu ao masterclass de Hilary Hahn, parecia que ela estava tocando bem na sua frente, mesmo ele estando no fundo da sala.

A raiz de tudo: o professor e o projeto

A ponte entre Mato Grosso e a Geórgia tem nome e sobrenome: Oliver Sugafo. Jhonni se refere a ele como um pai postiço, alguém que o orientou não só musicalmente, mas em todo o processo de aplicação para o mestrado. Foi através dele que Jhonni conheceu o professor com quem estuda hoje na UGA, o mesmo que orienta outros violinistas brasileiros de destaque, como Carmelo de Los Santos.

Antes do mestrado, Jhonni atuava no projeto de orquestra FMT em Cordas, no Mato Grosso. Aquela experiência foi o ponto de partida. O mestrado é o próximo capítulo.

Uma história que merece ser contada

Jhonni disse algo no início da conversa que resume bem o espírito do podcast: muitas pessoas conhecem alguém pela história que os outros contam. O podcast dá a chance de cada um contar a própria história.

A história de Jhonni Campos é de trabalho duro, de um violinista que saiu do interior do Brasil e foi parar no centro de uma das escolas de música mais estruturadas dos Estados Unidos. E que, ao chegar lá, fez história.

Ouça o episódio completo no YouTube: JHONNI CAMPOS - Podcast do Violino Didático #064

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