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João Maurício Galindo: o maestro que ensina músicos a ouvir

Podcast Violino Didático

Há músicos que tocam bem. Há outros que ensinam bem. E há aqueles raros que conseguem fazer as duas coisas com maestria, além de abrir as portas da música para quem nunca tocou uma nota sequer. João Maurício Galindo é um desses. Maestro da Brasil Sinfônica, criador do projeto Aprendiz de Maestro e responsável por cursos de apreciação musical que transformam a forma como as pessoas ouvem uma orquestra, ele foi o convidado da conversa com Jean de Oliveira.

A entrevista começou com uma confusão de nomes, o que é mais comum do que parece na vida de João Maurício. Há um João Carlos Galindo, um José Maurício Galindo, um Galdino violinista e até um futebolista mexicano que já ocupou o @ “Maestro Galindo” no Instagram. Mas o homem da vez tem um percurso inconfundível.

De São Bernardo para as orquestras de São Paulo

João Maurício cresceu em São Bernardo do Campo ouvindo discos na vitrola. Antes mesmo de se lembrar, segundo sua mãe, a música já fazia parte da sua rotina. Ele passou pelo violão, pelo rock e pelo jazz antes de alguém soprar no seu ouvido uma ideia que virou vírus: “você nunca pensou em tocar instrumento de orquestra?”

A decisão veio acompanhada de uma dose típica do seu jeito de ser. Quando foi ao projeto do Maestro Alberto Jafé, no Sesc de São Paulo, ele tinha 16 anos e poderia ter escolhido qualquer instrumento. Escolheu a viola, porque era o mais esquisito. “Pouca gente estudava aquele instrumento”, ele explica. Era do contra por natureza.

O método de Jafé era diferente de tudo que se conhecia. Desde a primeira aula, os alunos já tocavam em orquestra. Muita gente criticava, dizia que era picareta. Mas os resultados falavam por si: João Maurício aprendeu rápido, entrou na Orquestra Jovem Municipal e logo depois na Orquestra Jovem Estadual.

Ele descreve o efeito do ensino coletivo com clareza. Quando você tem dificuldade e vê o colega ao lado passando pelo mesmo desafio, a baixa autoestima não te tira do jogo. E quando o colega descobre um jeito de resolver o problema, basta ele mostrar: você aprende só de observar.

A virada para a regência

A Regência não estava nos planos. João Maurício entrou na Unesp em São Bernardo porque a viola ainda não tinha curso disponível na nova faculdade. As opções eram piano, composição, regência e licenciatura. “Eu acho que só entrei porque era a primeira turma e eles precisavam preencher vagas”, ele conta, com sinceridade.

Quando Alberto Jafé foi embora para os Estados Unidos, o projeto no Sesc foi assumido pelo maestro Airton Pinto, spalla da Orquestra São Paulo e também pianista. Airton já conhecia João Maurício da Unesp e o viu crescer dentro do projeto. Foi por esse caminho natural, cheio de coincidências e encontros certos, que a regência foi se tornando o centro da sua carreira.

Aprendiz de Maestro: mais de 20 anos de música para todos

Um dos projetos mais conhecidos de João Maurício é o Aprendiz de Maestro, criado junto com o ator Cássio Scapin. A ideia nasceu em 1995, quando alguém sugeriu convidar Scapin para narrar um concerto com a orquestra jovem. O primeiro programa foi o Carnaval dos Animais, com um texto escrito pelo próprio João Maurício.

Scapin gostou do texto e sugeriu ampliá-lo, trazer um diretor, criar marcações cênicas. Aos poucos, o projeto ganhou forma. Em 2001 ou 2002, a parceria com a Tuca, organização que apoia crianças e adolescentes com câncer, consolidou o formato que existe até hoje. A bilheteria vai integralmente para a instituição. Mais de vinte anos depois, o Aprendiz de Maestro segue em cartaz.

Jean de Oliveira revelou na conversa que o primeiro concerto que assistiu na vida foi justamente um Aprendiz de Maestro. Uma coincidência que diz muito sobre o alcance do projeto.

Rádio, cursos e a arte de explicar música sem usar jargão técnico

Hoje, João Maurício mantém dois programas na Rádio Cultura: “Pergunte ao Maestro” e “Encontro com o Maestro”. Cada programa dura apenas dois minutos, mas é ali que nasceu a semente dos seus cursos online de apreciação musical.

Os cursos acontecem pelo Zoom, três ou quatro vezes por mês, com aula de uma hora e meia seguida de meia hora de perguntas. O formato é simples e poderoso: o grupo assiste a vídeos juntos enquanto João Maurício explica o que está acontecendo. O gesto do maestro, a história de Chiquinha Gonzaga, como Beethoven compunha sendo surdo. Tudo isso sem exigir nenhum conhecimento técnico do participante.

“É apreciação musical para não músicos”, ele explica. Mas reconhece que músicos também aproveitam muito, especialmente por entender o que está por trás do fazer musical, não apenas a teoria.

O acesso é simples: basta seguir seu Instagram, @maestrojoaomauriciogalindo, e enviar uma mensagem.

O canto orféico e a criança que dormia só com música

Um dos momentos mais reflexivos da conversa foi quando João Maurício falou do canto orféico de Villa-Lobos. Ele ainda pegou um resquício desse programa nas escolas públicas: chegava ao pátio com 7 ou 8 anos, ficava em fila com os colegas e cantava músicas folclóricas antes de entrar na sala de aula. Todo mundo gostava. Foi assim que ele se musicalizou.

Hoje, segundo uma amiga que trabalha com musicalização infantil, as crianças têm vergonha de cantar. Os meninos dizem que cantar é coisa de menina. Para ele, é uma perda enorme, especialmente porque o ato de cantar é a base de tudo. Inclusive do solfejo, que tantos estudantes de música temem enfrentar.

A conversa com Jean de Oliveira revelou um músico que nunca perdeu a curiosidade de quem escolheu a viola por ser o instrumento mais esquisito da orquestra. Um maestro que chegou à regência pela vida, não pelo plano. E que passou décadas tentando mostrar que a música orquestral não é território exclusivo de quem faz faculdade de música.

Todo mundo pode ouvir. Todo mundo pode entender. Todo mundo pode se emocionar.

Ouça o episódio completo no YouTube: JOÃO MAURICIO GALINDO - Podcast do Violino Didático #097

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