Juliana Cavalcanti: violino, Baccarelli e ensino coletivo
Juliana Cavalcanti é professora de violino com uma trajetória que começa em Heliópolis, passa pelo Instituto Baccarelli e chega até os dias de hoje como referência no ensino coletivo de cordas. Jean de Oliveira a recebeu no Podcast do Violino Didático para uma conversa franca, cheia de memórias e reflexões sobre música, educação e escolhas de vida.
A conversa revelou uma história que começa de forma quase acidental. E, justamente por isso, é tão bonita de ouvir.
Um coral, uma seleção e um violino disponível
Juliana tinha 11 anos quando viu um anúncio na igreja onde cantava no coral. Havia uma seleção musical. Ela foi, bateu um ritmo numa mesa imitando o professor, foi aprovada e acabou chegando a um espaço onde havia uma orquestra de cordas inteira.
Não havia músicos na família. Ela nunca tinha visto uma orquestra ao vivo. O violino, para ela, era aquele instrumento que aparecia às vezes na televisão, mas que não fazia parte do seu mundo.
Quando chegou e viu tudo aquilo, a escolha foi simples: havia violino, viola, violoncelo e contrabaixo. Ela olhou para tudo e escolheu o violino. Sem motivo filosófico, sem história épica de descoberta. “Era o que tinha no projeto e eu achei legal”, ela resumiu, rindo.
O começo no Instituto Baccarelli
Essa seleção era do Instituto Baccarelli, fundado pelo maestro Silvio Baccarelli após um incêndio devastador em Heliópolis em 1996. Ele viu a tragédia na televisão e decidiu agir com o que tinha: a música.
Chegou a uma escola da comunidade e pediu que a diretora selecionasse 36 crianças para estudar. Quando disse que ensinaria violino, a diretora achou que era piada. Mas não era.
Aquelas 36 crianças foram o começo de algo que cresceu muito. Quando Juliana entrou, por volta do ano 2000, o instituto já tinha estrutura, ônibus amarelo para buscar os alunos e o começo de uma orquestra de cordas.
Esse ônibus, aliás, virou um símbolo. Juliana contou que há relatos de crianças que queriam entrar no Baccarelli não pela música, mas pelo ônibus amarelo com passarinhos coloridos na lateral. “Às vezes a criança nem sabe para onde o ônibus vai, mas quer ir porque o ônibus é legal”, ela disse. Jean brincou que é uma estratégia de marketing imbatível.
Ensino coletivo: quando o possível é o melhor disponível
O início de Juliana no violino foi num sistema de ensino coletivo bem diferente do ideal. Eram dois professores para uma turma com vários instrumentos de cordas juntos: violinos, violas, violoncelos, contrabaixos e ainda um trompista e uma violinista tentando dar conta de tudo.
Jean perguntou, com curiosidade genuína, o que acontece quando um aluno que mal sabe segurar o instrumento já é mandado para ler partitura. A resposta foi direta: “Dá muito ruim”, disse Juliana, com experiência própria.
Mas ela foi cuidadosa ao contextualizar. Naquele momento, naquela realidade, era o melhor que se podia oferecer. Os professores faziam o máximo com o que tinham. E Jean concordou, lembrando que seu próprio primeiro professor era pianista, não violinista. “Se não fosse ele, eu não seria ninguém”, ele disse.
A virada veio quando Juliana passou a ter aulas individuais com um professor especialista em violino, um senhor de origem húngara que trabalhou postura, sonoridade e técnica de forma estruturada. “Quando você tem um especialista te orientando, é muito mais eficiente”, ela refletiu.
A certeza que veio antes da profissão
Um dos momentos mais reveladores da conversa foi quando Juliana falou sobre o teste vocacional que fez na oitava série. O resultado apontou enfermagem, jornalismo, psicologia. Música apareceu quase como nota de rodapé, com a psicóloga escrevendo “e música também” ao final, como se fosse um detalhe secundário.
Mas Juliana já sabia. Ela via os professores tocando, via a galera na orquestra e pensava: “É isso que eu quero fazer”. Como exatamente a profissão funcionava, como o dinheiro entrava na conta, nada disso estava claro. Mas a certeza estava.
Ela lembrou do primeiro dinheiro que ganhou tocando violino: uma bolsa de R$ 50 no Baccarelli. Com o tempo, foi crescendo. Trezentos reais, setecentos, conforme o instituto recebia patrocínios maiores e a orquestra foi se estruturando como sinfônica.
O modelo Baccarelli: um internato musical que dura um ano
Um ponto que Jean e Juliana exploraram com bastante detalhe foi o formato do Baccarelli como instituição de ensino. A proposta é de imersão total: aula individual semanal do instrumento, teoria musical, música de câmara e ensaios de orquestra. Tudo junto, tudo integrado.
Juliana comparou a algo como um festival que dura o ano inteiro. O aluno não paga pelas aulas e ainda recebe uma bolsa para se dedicar. A lógica é simples: você não precisa trabalhar, você precisa estudar. Isso, com o tempo, se transforma no próprio trabalho.
O contraste com outras orquestras jovens foi levantado: em muitos casos, o aluno entra na orquestra, ganha em experiência de palco, mas acaba deixando as aulas individuais de lado. No Baccarelli, esse abandono não acontece porque a aula é parte da estrutura, não um extra.
“É quase um internato musical”, concluiu Juliana.
O encontro que gerou essa conversa
Juliana e Jean se conheceram num curso de capacitação para professores com Edward Kreitman, professor americano especializado no método por habilidades. O curso foi realizado no próprio Baccarelli, e ela soube do evento por indicação de José Márcio, coordenador de ensino coletivo da instituição.
Foi nesse contexto que a ideia de ensinar por habilidades, e não por repertório ou progressão linear de método, passou a fazer sentido para ela. Uma abordagem que respeita o ritmo de cada aluno e prioriza o que o aluno consegue fazer, não o que ainda não consegue.
Essa perspectiva moldou muito da forma como Juliana enxerga o ensino de violino hoje.
A conversa com Juliana Cavalcanti é daquelas que mostram como caminhos tortos podem levar a lugares bonitos. Um coral de igreja, um ritmo batido numa mesa, um ônibus amarelo e um violino disponível foram o começo de uma trajetória sólida no ensino e na performance musical brasileira.
Ouça o episódio completo no YouTube: JULIANA CAVALCANTI - Podcast do Violino Didático #023