Juliano Buosi: violino barroco e performance histórica
Juliano Buosi é uma das maiores referências do violino barroco no Brasil. Professor da Escola Municipal de Música de São Paulo, ele atua tanto como intérprete quanto como regente de grupos dedicados à performance historicamente informada. Sua trajetória é marcada por escolhas incomuns, muita curiosidade e uma visão de música que vai muito além da técnica.
Jean de Oliveira recebeu Juliano em Cotia para uma conversa cheia de profundidade. Os dois já haviam se falado antes, mas foi no caminho até o estúdio que se conheceram pessoalmente, numa viagem de Uber que rendeu papo animado antes mesmo de começar a gravação.
Do saxofone ao violino: um incêndio que mudou tudo
Juliano nasceu em Jundiaí, mas se considera mineiro de criação. Foi em Pouso Alegre, Minas Gerais, que teve seu primeiro contato com a música, no conservatório estadual da cidade. Seu primeiro instrumento foi o saxofone, não o violino.
Mas um evento inusitado mudou esse rumo: em 1987, o conservatório pegou fogo e foi completamente destruído. O prédio era enorme, com pisos de madeira, e não sobrou muita coisa. A reinauguração só viria em 1994.
Durante esse intervalo, Juliano ficou sem instrumento. Sua irmã tinha um violino em casa, um que ela havia começado a estudar e abandonado. Foi aí que ele tomou a decisão: se tinha um violino disponível, era com ele que voltaria ao conservatório.
Assim, com cerca de 10 ou 11 anos, ele trocou o saxofone pelo violino. Quase por acidente. E foi essa troca que, décadas depois, o levaria ao universo do barroco.
A influência da igreja e a conexão com o barroco
Juliano cresceu numa família protestante, com a música da igreja presente desde cedo. Ele conta que viu orquestras tocando, crianças aprendendo instrumentos, adultos se dedicando à música como parte da vivência religiosa. Esse ambiente plantou nele uma sensibilidade musical que nunca o abandonou.
E há uma conexão direta com o que ele faz hoje: quando se fala em música barroca, fala-se de Johann Sebastian Bach. E Bach está profundamente ligado ao protestantismo, a Martinho Lutero, à tradição das igrejas reformadas alemãs. Jean e Juliano riram juntos dessa coincidência: a mesma raiz religiosa que formou Juliano na infância é a mesma que alimenta o repertório que ele toca hoje.
Da Unicamp ao barroco: regência, coral e instrumentos de época
Depois de estudar violino na Escola Municipal de Música com a professora Cecília Guida, a quem Juliano faz questão de agradecer com muito carinho, ele ingressou na Unicamp. O curso escolhido foi Regência, não violino.
A explicação é simples e honesta: ele achou que talvez não entrasse direto no curso de violino, então optou pela Regência com a ideia de fazer uma troca depois. Mas o curso foi abrindo outras portas. O contato com o coral, com o madrigal do professor Edmundo Hora, recém-chegado da Europa com muitas ideias, foi o ponto de virada.
Foi lá, em meados dos anos 1990, que Juliano teve seu primeiro contato com a interpretação historicamente informada. Cantava no madrigal, participava de apresentações com instrumentos de época e, por volta de 1997 e 1998, começou a se aprofundar no violino barroco. O grupo em torno do professor Edmundo chegou a se apresentar em vários locais e a gravar discos.
Violino barroco: ferramenta a serviço do estilo
Uma das partes mais ricas da conversa foi a explicação de Juliano sobre as diferenças entre o violino moderno e o barroco. Ele foi direto: o instrumento é só uma ferramenta. O que realmente importa é entender o estilo e o repertório da época.
Dito isso, as diferenças físicas existem e são relevantes. Juliano mostrou um instrumento de 1780 a 1790, que em algum momento foi modernizado e depois voltou parcialmente à configuração barroca, com cordas de tripa e cavalete adaptado. E apresentou também um arco barroco, menor do que o moderno, com curvatura diferente e centro de equilíbrio mais próximo do talão.
Essa diferença no arco muda completamente a forma de tocar. Com o arco barroco, o músico naturalmente trabalha mais na metade inferior, perto do talão. É uma outra relação física com o instrumento.
Além disso, o período barroco em si é muito mais amplo do que parece de fora. Vai de 1600 à morte de Bach, em 1750, ou seja, são 150 anos. E dentro desse período existem especificidades: barroco italiano, francês, alemão, do século 17, do século 18. São muitas gavetas dentro da mesma gaveta.
Técnica a serviço da música, não o contrário
Um dos momentos mais marcantes da conversa foi quando Jean e Juliano falaram sobre os tratados históricos. Ao contrário dos métodos modernos, que prescrevem posições e técnicas com precisão, os tratados barrocos falavam principalmente da música, não da execução mecânica.
Isso, para Juliano, revela algo essencial: a técnica existe para servir à música, e não o contrário. No século 17 e no início do 18, não havia uma escola unificada de violino. Cada mestre ensinava à sua maneira, de forma artesanal. A padronização só viria depois, com o Conservatório de Paris.
Jean fez uma observação certeira: muita gente toca menos do que poderia justamente por pensar na técnica como um fim em si mesma. Juliano concordou. Os tratados existiam para falar de música, porque é disso que se trata.
Um dos tratados mais relevantes que Juliano citou é o de Geminiani, de 1751, que começa a dar pistas sobre a postura e a execução. Mas mesmo esse tratado levanta perguntas, não resolve tudo. Há, por exemplo, o debate sobre o queixo: algumas escolas apoiam o instrumento no queixo, outras não. Diferentes tratados, diferentes respostas.
Um violinista que pensa fundo sobre o que toca
O que fica da conversa com Juliano Buosi é a imagem de um músico que nunca se contentou com o superficial. Saiu do saxofone para o violino por necessidade. Escolheu Regência na faculdade por humildade. Chegou ao barroco pela curiosidade e pelo canto coral. E construiu uma carreira inteira em cima de perguntas genuínas sobre como a música era feita, e por quê.
Ele próprio reconhece que a transição para o barroco assusta no início. A sensação é de que as mudanças serão radicais demais. Mas com o tempo, diz ele, percebe-se que é uma complementação. O violino moderno e o barroco se iluminam mutuamente.
Ouça o episódio completo no YouTube: JULIANO BUOSI - Podcast do Violino Didático #076