Kleberson Buzo: violinista, compositor e a distonia focal
Kleberson Buzo é violinista, compositor e arranjador com uma trajetória construída com muita dedicação e amor pela música. Formado pela Escola Municipal de Música de São Paulo, ele hoje integra duas das orquestras mais relevantes do estado: a Brasil Sinfônica e a Orquestra Sinfônica da Unicamp, onde é músico concursado. Mas o que torna a história de Kleberson especialmente marcante vai muito além do palco.
Em conversa com Jean de Oliveira, ele abriu o jogo sobre composição, sobre a alegria de criar música para os amigos e sobre um desafio muito particular: a distonia focal, condição que o levou a reaprender violino do lado contrário. É uma conversa sobre resiliência, criatividade e amor profundo pelo instrumento.
Dois violinos e uma carreira em orquestra
A Orquestra Sinfônica da Unicamp tem uma característica que Kleberson valoriza muito: o repertório variado. Ópera, repertório sinfônico clássico e música contemporânea convivem no mesmo calendário. Para ele, a música contemporânea de hoje é bem diferente do que muita gente imagina. Os compositores atuais estão mais acessíveis, mais bem orquestrados, mais fáceis de entender, como ele mesmo resumiu durante a conversa.
Além da vida orquestral, Kleberson também atua na Brasil Sinfônica, onde já realizou arranjos para as mais variadas formações. É um músico que transita com naturalidade entre executar e criar.
A composição como vocação desde jovem
O interesse pela composição surgiu cedo. Aos 14 anos, Kleberson já estudava harmonia na Escola Municipal de Música de São Paulo e escrevia suas próprias ideias. Chegou até a esboçar um concerto inteiro para violino solo, sem acompanhamento, só para registrar o que vinha à cabeça.
Mas foi com o tempo, depois de muitos arranjos para quarteto e cordas, que ele sentiu que estava pronto para investir de verdade na própria música. Isso aconteceu há cerca de 15 anos. Desde então, as obras foram surgindo, e de um jeito muito bonito: escritas para os amigos.
Concertos nascidos da amizade
Em 2017, Kleberson escreveu um concerto para violino e orquestra. A obra ficou na gaveta por um tempo, até que ele convidou o amigo Juan Ross para ler alguns trechos com a orquestra. O maestro cedeu meia hora de ensaio, as partes chegaram com arcadas marcadas e, quando a música soou, Kleberson se apaixonou pela própria criação.
Daquele momento em diante, outros músicos foram chegando com pedidos. Vittor, trompista da orquestra, gostou do que ouviu e pediu uma obra para trompa. O resultado foi um concerto para trompa e orquestra, estreado em 2019 e disponível no YouTube, basta buscar por “Kleberson Buzo” com K e Z.
Depois vieram mais dois amigos: Marco André, flautista, e Leirson, clarinetista. Para os dois, Kleberson compôs uma Sinfonia Concertante para flauta, clarinete e orquestra, inspirada nos moldes clássicos do gênero. A peça estava prevista para 2022, mas a pandemia atrasou tudo. A estreia finalmente aconteceu em setembro de 2024, no Teatro Bradesco, junto com a Nona Sinfonia de Beethoven.
A distonia focal e o violino do lado contrário
Um dos momentos mais tocantes da conversa foi quando Kleberson falou sobre a distonia focal. Trata-se de uma condição neurológica que afeta músicos e impede movimentos precisos no lado convencional do instrumento. Para ele, isso significou não conseguir mais tocar violino da forma tradicional.
A solução que encontrou foi corajosa: reaprender violino do outro lado. O arco na mão esquerda, o instrumento no ombro direito, tudo invertido. E não é só uma adaptação mecânica, é um processo de reconexão com o instrumento que ele ama desde os cinco anos de idade.
Nessa jornada, Kleberson começou a pensar em algo ainda mais criativo: um violino com a afinação invertida, que ele chamou de “violino transfigurado”. Em vez de Sol-Ré-Lá-Mi da mais grave para a mais aguda, a ordem ficaria ao contrário. Isso muda completamente o que é fácil e o que é difícil de tocar. Sétimas e segundas ficam mais acessíveis, oitavas viram segundas, terças viram sétimas. Um universo sonoro novo, pensado a partir de uma limitação transformada em possibilidade.
Jean brincou que a ideia seria um ótimo argumento para Kleberson escrever uma obra para violino solo nessa configuração. A conversa sobre as possibilidades técnicas do instrumento invertido se desdobrou com uma leveza de quem conhece profundamente o que está falando.
Do violino na igreja à Escola Municipal
Kleberson cresceu na Congregação Cristã do Brasil, onde a música tem papel central no culto. Sua mãe é organista e seu pai foi trompetista na igreja. O contato com o violino veio aos cinco anos, com aulas na própria congregação com o pai do violinista Israel Fogaça, figura que Kleberson conhece desde a infância.
Ele lembra com humor de quando o violino chegou em casa: um instrumento feito por um artesão amador em Osasco. Ao pegar o instrumento pela primeira vez, sem saber nada, ele olhou para as cordas e pensou que deviam ser Dó, Ré, Mi, Fá. A lógica de criança fazia sentido, mas a música tinha outros planos.
Com dez anos, ingressou na Escola Municipal de Música de São Paulo, onde estudou com a professora Cecília Guida, além de ter aulas de teoria, harmonia com o professor Dante Cavalheiro e contraponto com Karen Willing. Uma formação sólida, rigorosa e que moldou tudo o que veio depois.
Uma trajetória que inspira
A história de Kleberson Buzo é a de alguém que sempre encontrou na música uma forma de se expressar, de criar e de superar. Da igreja em Osasco às orquestras de São Paulo, da harmonia aos 14 anos aos concertos para os amigos, da distonia focal ao violino invertido. Em cada capítulo, a mesma coisa: amor pelo instrumento e criatividade diante dos obstáculos.
É exatamente esse tipo de conversa que lembra por que a música tem tanto poder na vida das pessoas.
Ouça o episódio completo no YouTube: KLEBERSON BUZO - Podcast do Violino Didático #110