Laércio Diniz: a trajetória de uma lenda brasileira do violino
Laércio Diniz é um nome que dispensa apresentações para quem acompanha o mundo do violino no Brasil. Maestro, violinista e fundador de orquestras como a Filarmônica do Brasil e o Engenho Barroco, ele carrega décadas de história musical em cada arco.
Em uma conversa longa e generosa com Jean de Oliveira, Laércio abriu o baú de memórias e revelou uma trajetória que começa no Rio de Janeiro, passa por Brasília, pelo Teatro Municipal de São Paulo e chega até as salas de concerto da Alemanha.
Do medo ao fascínio: o primeiro contato com o violino
Laércio não cresceu com o violino nos braços. Pelo contrário: a primeira vez que viu o instrumento, recusou tocá-lo. Uma menina da escola chamada Diana lhe ofereceu o violino para pegar, e ele disse não. Tinha medo.
Os anos passaram. Diana, que tanto o impressionou, reencontrou Laércio muito mais tarde, agora como violoncelista do Teatro Municipal de São Paulo. O destino tem dessas ironias bonitas.
Enquanto isso, Laércio tocava flauta doce e violão no Grajaú. Quando um ladrão entrou em casa e levou o violão, ficou sem instrumento. Logo depois, a família mudou para Brasília.
Brasília, o projeto social e a descoberta tardia
Foi em Brasília que tudo mudou. Um primo convidou Laércio para um projeto social de música ligado ao Sesi, chamado Projeto Espiral, idealizado por Alberto Jafé. O problema: quando Laércio chegou, Jafé já tinha ido embora.
O grupo de jovens ficou praticamente sem orientação. Havia apenas um professor de clarinete, que não entendia nada de violino. Laércio conta com bom humor que os alunos chegaram a debater entre si o que seriam as outras posições do instrumento. A conclusão mais criativa: a primeira posição seria sentado, a segunda em pé.
Foi só quando chegou o primeiro professor de violino, um senhor que tocava em uma orquestra de Brasília e que não tinha metade do segundo dedo, que a turma viu uma mudança de posição de verdade. Aquilo, nas palavras de Laércio, foi como uma cabeça explodindo.
Ele tinha por volta de 16 anos. Para os padrões do mundo clássico, era tarde. Para ele, era simplesmente o começo.
O encontro com Lener e a bolsa que mudou tudo
A virada veio por acaso. O violinista e professor Eric Lenninger foi a Brasília em busca de jovens talentos para uma bolsa de estudos no Rio de Janeiro. Ele era amigo do pai de Igor Sarukhansky, um grande violista que criava filas brasileiras na capital.
O primo de Laércio, que era o melhor aluno da turma, foi o convidado. Laércio não estava na lista. Foi o primo quem insistiu para que ele fosse junto. Lenninger relutou, mas no final deu uma chance.
Laércio tocou. Lenninger gostou. Os dois foram ao Rio de Janeiro.
A bolsa era generosa: os alunos tinham moradia, instrumentos, sala com espelho e tudo o que precisavam para estudar. Eram dez no total, oito cearenses e dois vindos de Brasília. Laércio era o único carioca do grupo, mas morava junto com todos numa pensão.
Dois anos e meio depois, ele estava tocando o Concerto de Tchaikovsky e ganhando o concurso Jovem Solista, tanto em Brasília quanto em Porto Alegre.
São Paulo, o Teatro Municipal e a vida profissional
Quando Lenninger se mudou para São Paulo, Laércio foi junto. A ideia era continuar os estudos e tentar uma vaga no Teatro Municipal. Ele passou na prova e começou ali a sua vida profissional de fato.
De São Paulo, veio a bolsa do governo alemão, o DAAD. Laércio morou na Alemanha por oito ou nove anos, estudando e se aprofundando no repertório erudito europeu.
Sua primeira professora na Alemanha era uma violinista que também tocava violino barroco. Na época, Laércio nem sabia o que isso significava e não demonstrou nenhum interesse. Anos depois, ele a viu dirigindo grandes orquestras barrocas, inclusive em uma produção especial em Colônia em que misturaram arcos barrocos, clássicos e modernos numa mesma performance.
O violino barroco como novo capítulo
Colônia, cidade onde Laércio estudou, tem uma relação especial com músicos brasileiros. Passou por lá Paulo Bosisio, Eric Lenninger e outros nomes importantes da cena clássica brasileira, todos atraídos pelo grande professor Max Rostal, que lecionava na cidade.
O professor de Laércio na Alemanha foi Gavrilov, que tinha assumido justamente a vaga de Rostal. Gavrilov era o spalla mais jovem da Filarmônica de Berlim, tendo assumido o posto com apenas 18 anos.
Décadas depois de ter ignorado o arco barroco na primeira vez que o viu, Laércio abraçou o instrumento de época com entusiasmo. Ele chama isso, com um sorriso, de seu novo hobby. A Orquestra Engenho Barroco, que ficou parada por anos, está sendo reativada justamente para explorar esse universo.
João Pessoa, o projeto social e a fase de transição
Por cerca de oito anos, Laércio dedicou parte importante do seu tempo à Orquestra Sinfônica de João Pessoa. Uma semana por mês ele estava lá, à frente da orquestra e também de um festival internacional de música clássica que reunia artistas da Europa, Austrália e Estados Unidos.
Paralelamente, coordenava o Projeto Ação Social pela Música, que conseguiu implantar na capital paraibana. Ele saiu da orquestra em meados do ano anterior à conversa com Jean e descreve esse momento como uma fase de transição.
A Filarmônica do Brasil, em São Paulo, continua sendo seu principal projeto. E agora, com a volta do Engenho Barroco, ele parece animado com esse novo ciclo.
O feeling que guia os caminhos
Uma das reflexões mais bonitas da conversa veio quando Jean perguntou por que Lenninger teria gostado de Laércio naquele primeiro encontro em Brasília. Laércio não sabe ao certo. Talvez o professor tenha visto algo técnico. Talvez tenha gostado da pessoa antes de avaliar o músico.
Para ele, a relação entre professor e aluno tem muito de intuição. Quando é para acontecer, acontece. Quando não é, é melhor que não seja. Ele até aconselha quem não passou em alguma prova ou não foi aceito por algum professor famoso: dê graças a Deus, não era para acontecer.
Essa visão generosa sobre os próprios percursos aparece em toda a sua trajetória. Começar aos 16 anos não foi um atraso, foi simplesmente o tempo certo. Não ter sido o aluno favorito de Lenninger no início não foi um obstáculo, foi o caminho.
Laércio Diniz é a prova viva de que os caminhos musicais raramente são lineares. E que, às vezes, o violino que você recusou pegar na infância é exatamente o que vai te levar ao mundo.
Ouça o episódio completo no YouTube: LAÉRCIO DINIZ - Podcast do Violino Didático #068