Ir para o conteúdo

Laiana Oliveira: Solfejo, Voz e Música sem Medo

Podcast Violino Didático

A Convidada que Furou a Bolha

O episódio 030 do Podcast do Violino Didático trouxe uma primeira vez histórica. Laiana Oliveira foi a primeira convidada que não é instrumentista de cordas. Jean de Oliveira fez questão de deixar esse registro.

Mas não foi uma escolha aleatória. Laiana é cantora lírica, Doutora em Composição Musical e criadora do projeto Solfejo Sem Medo. Ela tem muito a dizer para quem estuda violino.

O Que é Solfejo de Verdade

Se você já ouviu alguém ler uma partitura em voz alta falando os nomes das notas, saiba: isso não é solfejo. Para Laiana, essa é uma distinção importante.

Solfejo é a habilidade de ler uma partitura calculando as alturas das notas, usando a voz como instrumento. Não basta falar “dó, ré, mi”. Você precisa cantar essas notas com a entonação certa, sem depender de um instrumento como referência.

Leitura rítmica com nome de notas é leitura rítmica. Solfejo envolve altura. São coisas diferentes.

Por Que a Voz é o Instrumento Mais Difícil

Laiana defende que a voz é o instrumento primordial. A maioria das pessoas nasce com ela. E justamente por isso, ela é a mais difícil de dominar.

O argumento é simples e forte: a voz é o seu próprio corpo. Quando alguém critica o seu canto, é quase impossível separar a crítica do instrumento da crítica à pessoa.

Com o violino, você ainda pode se esconder atrás de desculpas. “Foi o instrumento”, “preciso trocar as cordas”, “o arco escorregou”. Laiana reconhece que essas desculpas só convencem quem as dá. Mas com a voz, não existe nem isso.

Ela conta uma história memorável. Num casamento onde foi cantar, a voz sempre quebrava numa passagem difícil. A solução encontrada foi balançar o cabo do microfone e apontar para o técnico de som. O culpado estava escalado.

Uma Formação Fora do Comum

Laiana tem bacharelado, mestrado e doutorado em Composição Musical. No momento da gravação, estava finalizando um pós-doutorado em performance.

Ela brinca com a lógica da academia: “o mestre é mais legal porque a academia quer puxar o seu tapete, então ela faz você ir pelo caminho contrário”. A plateia de violinistas entendeu bem o humor.

Sua mãe, ao saber que a filha estudaria música, sugeriu que ela poderia ter sido secretária. É a história universal de quem escolhe a carreira artística.

O Canto Lírico e o Repertório do Século XX

O repertório de Laiana como cantora é basicamente do século XX e música contemporânea. Jean reagiu com surpresa genuína: “e você canta esses troços?”. Ela respondeu que adora.

A carreira de cantora lírica tem uma particularidade importante. Ela começa mais tarde do que a de qualquer outro instrumentista. A razão é fisiológica: a voz precisa de tempo para se formar completamente.

Laiana tinha 36 anos na época da gravação e mencionava que ainda estava num processo contínuo de desenvolvimento técnico. Ela cita como exemplo a soprano Julia Lezhneva, que começou com 18 anos a fazer coloratura de forma extraordinária. Mas isso é exceção, não regra.

Coloratura, Melisma e o Que Isso Tem a Ver com o Violino

A conversa chegou num ponto muito interessante para violinistas. Laiana explicou o que é coloratura: várias notas sobre uma mesma sílaba, numa linha virtuosística do canto lírico. No universo popular, o equivalente é o melisma.

Jean conectou o conceito ao repertório do violino. Uma longa ligadura com muitas notas, passando por apoios harmônicos e conexões, poderia ser pensada de forma análoga. Laiana concordou e foi além: relacionar a voz ao instrumento é muito saudável para qualquer instrumentista.

O argumento dela é direto. O ser humano respira. Frases musicais longas demais, sem pontos de apoio ou respiração, causam tensão em quem escuta. Inconscientemente, o ouvinte começa a se contrair.

Ela usou o exemplo do Concerto para Violino de Brahms: há momentos em que a frase se estende por quase um minuto inteiro sem respiro. Quem ouve começa a ficar ansioso sem saber exatamente por quê. É um recurso composicional deliberado.

O Trauma com a Música Historicamente Informada

Um dos momentos mais divertidos da conversa foi o relato de Laiana sobre sua primeira experiência com instrumentos de época. Ela foi ao Festival de Música Antiga Colonial Brasileira de Juiz de Fora com 16 ou 17 anos.

Sabia que a afinação seria diferente, em 415 Hz em vez do padrão 440 Hz. O problema foi a reação do corpo. Ela olhava para o instrumento, via uma nota, escutava outra, e conhecia o repertório o suficiente para saber que era pra soar diferente do que soava.

A ansiedade foi crescendo até ela quase passar mal. Teve que sair antes do final do concerto.

Para violinistas, isso tem uma conexão real. Em instrumentos não temperados como o violino e a voz, as terças puras soam diferente das terças temperadas do piano. A relação entre as notas muda dependendo do contexto harmônico. Em expansões harmônicas, você levanta a nota. É física acústica, não erro.

”Acidente” é uma Palavra que Laiana Detesta

Laiana tem uma posição clara sobre vocabulário na educação musical. Ela não usa a palavra “acidente” para se referir às alterações numa partitura: sustenidos, bemóis, bequadros.

A razão é psicológica e pedagógica. Quando alguém ouve “acidente”, o cérebro associa a algo que não era esperado, algo indesejado. O estudante olha para o sustenido e pensa: isso não deveria estar aqui.

Mas no Barroco, por exemplo, toda alteração sinaliza uma mudança harmônica planejada. O compositor colocou aquilo ali com intenção. Chamar de acidente distorce a compreensão musical desde o vocabulário.

Ela prefere o termo “alteração”. Neutro, preciso, sem carga emocional negativa.

Solfejo Sem Medo e o Paralelo com o Violino Didático

O nome do projeto de Laiana não é por acaso. Solfejo tem uma reputação intimidadora no mundo da música. Muita gente acredita que é para poucos, que exige ouvido absoluto, que é técnico demais.

O paralelo com a proposta do Violino Didático é imediato. Jean construiu um canal inteiro em torno da ideia de que todo mundo é capaz de tocar violino. Laiana trabalha com a ideia de que qualquer pessoa pode desenvolver a leitura musical através do solfejo.

Os dois partem do mesmo ponto: a barreira não é de talento. É de abordagem.

Laiana tem ouvido relativo, não absoluto. Ela diz que fica feliz com isso, especialmente quando canta música antiga em 415 Hz. O ouvido absoluto, nesse contexto, pode ser uma armadilha.

Uma Conversa que Vai Além do Violino

Esse episódio é um daqueles que serve para qualquer músico, independente do instrumento. A discussão sobre voz, respiração, fraseado, alterações e leitura musical atravessa todas as linguagens.

Laiana trouxe perspectivas que violinistas raramente ouvem de outros violinistas. E Jean soube conduzir a conversa para que cada conceito fizesse sentido dentro do universo de quem estuda cordas.

Se você quer entender melhor por que sua frase musical não convence, por que certas passagens soam mecânicas ou por que a leitura de partitura parece um obstáculo, essa conversa tem respostas.

Ouça o episódio completo no YouTube: LAIANA OLIVEIRA - Podcast do Violino Didático #030

Continue lendo