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Lev Veksler: 50 anos de violino e uma vida entre continentes

Podcast Violino Didático

Lev Veksler é uma daquelas figuras que parecem carregar a história da música dentro do arco. Violinista de formação soviética, com carreira nos Estados Unidos e mais de 26 anos na OSESP, ele representa um caminho singular: o de quem deixou tudo para trás várias vezes e, a cada vez, encontrou no violino um novo começo.

Jean de Oliveira o recebeu com entusiasmo no podcast, apresentando-o como “uma das lendas do violino no Brasil”. E não é exagero. Veksler tocou em orquestra por mais de 50 anos, cruzou fronteiras em momentos delicados da história e ajudou a construir parte do que a OSESP é hoje.

Uma infância musical na União Soviética

A relação de Veksler com o violino começou cedo, aos cinco anos, em uma escola musical soviética. Sua mãe acompanhou todas as aulas até os oito anos de idade, obrigada pela professora a aprender junto com o filho. Ela chegou a largar o emprego para isso.

O raciocínio da professora era simples: como a mãe poderia ajudar em casa se não soubesse tocar? Esse rigor moldou a base musical de Veksler desde o início.

A escola ficava longe de casa. Uma criança de dez anos atravessava a cidade sozinha: quinze minutos a pé, depois bonde ou tróleibus. Quatro vezes por semana. Violino, coro, história da música, solfejo. Uma rotina intensa que ele descreve sem nostalgia excessiva: era simplesmente o que se fazia.

Da escola ao conservatório com 14 anos

Veksler entrou no que ele chama de “colégio” musical com apenas 14 anos, antes da maioria dos colegas. Nesse sistema soviético, o colégio equivalia a uma faculdade: ao sair, o aluno já tinha diploma para dar aulas, tocar em orquestra ou seguir carreira de câmara.

Ele lembra com bom humor que chegou ao primeiro dia de aulas usando o terninho do pai, de 1936. “Todo mundo te chamava de senhor”, contou, rindo.

O caminho natural era avançar para o conservatório, fazer mestrado, depois doutorado. Mas antes disso, veio uma decisão importante: o pai colocou o filho diante de uma escolha. Continuar na música ou buscar outra profissão. Veksler escolheu o violino, e não voltou atrás.

A saída da União Soviética e os Estados Unidos

A decisão de emigrar não foi simples. Veksler saiu da União Soviética em um contexto de grandes transformações, e chegou aos Estados Unidos sem falar inglês. Na segunda semana, já estava trabalhando.

Uma organização de apoio a emigrantes identificou seu perfil e começou a conectá-lo com oportunidades. Ele fez audições, entrou em orquestras, construiu uma carreira sólida como freela ncer e chegou a orquestras de alto nível. O sindicato americano, com suas regras de pensão e benefícios, garantia estabilidade a quem chegava jovem e ficava por décadas.

Mas a vida pessoal pesou. Um divórcio após 25 anos de casamento deixou marcas. A ex-esposa não conseguia se adaptar à América e queria voltar para a Rússia. Ele não queria de jeito nenhum. Quando a separação chegou, Veksler buscou um novo recomeço, e o destino foi o Brasil, um país que ele nunca havia visitado e nem imaginava que seria seu lar.

A chegada ao Brasil e a OSESP

Veksler veio ao Brasil sem planos definitivos. A intenção inicial era sair de Nova York, respirar, recomeçar. Ficaria alguns meses, talvez um ano. Ficou 26 anos.

Ele se integrou à OSESP, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e acompanhou de perto uma transformação histórica. Quando chegou, no final dos anos 1990, os concertos aconteciam no Teatro São Pedro, com plateias modestas. Com o tempo, a orquestra migrou para a Sala São Paulo, os 1.500 lugares passaram a lotar, e o nível artístico deu um salto que ele define sem hesitar: “todo mundo tenta imitar a OSESP”.

Para Veksler, o maestro John Neschling teve um papel fundamental nessa virada. Ele trouxe solistas e regentes internacionais de primeira linha, sem medo de convidar músicos melhores do que ele próprio. “Você aprende como a grande personalidade age”, disse Veksler, referindo-se ao impacto que esses encontros tiveram na orquestra inteira.

Disciplina, estudo e o cotidiano de um violinista de orquestra

Mesmo após décadas de carreira, Veksler nunca parou de estudar. Ele pratica todos os dias, revisita repertório solístico, relembra Beethoven e outras peças que ficaram em segundo plano durante os anos de intensa agenda orquestral.

A rotina de um spalla, posição de liderança na orquestra, exige isso. Se há algo importante na semana seguinte, ele pratica até as duas ou três da manhã. “Você tem uma orquestra maravilhosa atrás de você. Você tem que estar pronto.”

Ele também falou sobre a diferença entre músicos de orquestra e solistas: o músico de orquestra desenvolve uma disciplina de conjunto que é única. Quando um grupo de músicos que nunca se encontrou se reúne e toca junto com precisão, isso não é sorte. É anos de treino em contexto coletivo.

Uma vida que o violino costurou

Veksler encerra sua história da forma mais direta possível: ele se sente brasileiro. O país que não estava nos planos se tornou o lugar onde construiu o capítulo mais longo de sua carreira. Mais do que qualquer outra orquestra em que tocou, a OSESP representa o maior período contínuo da sua vida profissional.

Sua trajetória é uma prova de que o violino pode ser muito mais do que uma profissão. Pode ser o fio que conecta um menino de escola soviética, um imigrante em Nova York e um músico que ajudou a elevar o nível da música clássica no Brasil.

Ouça o episódio completo no YouTube: LEV VEKSLER - Podcast do Violino Didático #099

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