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Lucão: violino pop, improviso e a trajetória do violinista de Santos

Podcast Violino Didático

Lucas, carinhosamente conhecido como Lucão, é um daqueles músicos que vivem nos dois mundos ao mesmo tempo. Ele toca nos primeiros violinos da Orquestra Sinfônica de Santos, uma das mais tradicionais do país, e também conquista o público com vídeos de violino pop que circulam pelas redes. Jean de Oliveira, fundador do Violino Didático, confessou logo de cara: Lucão é um dos caras que o fez gostar ainda mais do instrumento.

A conversa começou com uma viagem de Santos até Cotia, cidade natal de Jean, que acabou sendo mais longa do que o previsto por conta de um acidente na estrada. Mas o resultado valeu cada quilômetro.

O violino que toca o que a massa conhece

Quando Jean perguntou o que é exatamente “música pop”, Lucão foi direto: é a música que toca na rádio, o que a massa conhece. Sem definição fechada, sem fronteira rígida. Para ele, o violino pop é o instrumento aplicado ao repertório que as pessoas reconhecem no dia a dia.

Esse universo se expandiu ao longo dos anos. Lucão não para no pop convencional. Ele vem explorando jazz, blues, improvisação e outras linguagens, sempre com a curiosidade de quem quer entender cada gênero por dentro.

Tudo começou quando Lucão entrou para a Orquestra Tom Jobim, conhecida carinhosamente como “Dezinha”. Ele conta que todo mundo que passa por lá acaba sendo picado pelo mosquito da música popular. No primeiro dia de ensaio, ao ouvir aquela sonoridade diferente misturando cordas eruditas e big band, ele pensou: é isso que eu quero fazer.

A Dezinha foi o ponto de virada. Ali, o erudito e o popular deixaram de ser mundos separados e passaram a conviver no mesmo arco.

CDs, vocabulário e o jeito de aprender música

Lucão tem um hábito que chama atenção: ele compra CDs físicos até hoje. Frequenta sebos no centro de São Paulo, leva para casa e escuta cada faixa com atenção, até memorizar entradas, frases, respirações dos cantores e da banda. Só depois que absorveu tudo, vai atrás de mais.

Ele explica que esse processo serve para construir vocabulário musical. Não o vocabulário das palavras, mas o das frases musicais. São trechos, licks, ideias melódicas que você ouve em alguém e incorpora ao próprio jeito de tocar. Quanto mais vocabulário você tem, mais criativo você pode ser na hora de improvisar.

A comparação que ele faz é simples e poderosa: é como aprender a falar. Você absorve expressões de outras pessoas e as usa quando fazem sentido na conversa.

Improviso: o que nasce na hora

Um dos momentos mais instigantes da conversa foi quando Jean perguntou sobre os shows de Lucão disponíveis no YouTube. Nos trechos de improviso, será que ele já sabe antes o que vai tocar?

A resposta foi clara: geralmente nasce no momento. As frases já estão incorporadas, então saem naturalmente, sem serem ensaiadas. Amanhã, no mesmo show, viriam outras frases. O mesmo tema poderia aparecer em bossa nova, pop ou outro ritmo, e o resultado seria completamente diferente.

Essa liberdade é justamente o que torna o improviso fascinante: você nunca toca exatamente igual duas vezes.

Uma inscrição paga por um amigo

A história de como Lucão chegou ao Festival de Bragança Paulista, em 2009, é daquelas que parecem roteiro de filme. Aos 16 ou 17 anos, ele não tinha nenhuma intenção de seguir carreira profissional no violino. Gostava de computador, tinha acabado de fazer um curso técnico em manutenção de redes, e tocava na igreja por prazer.

Um amigo mencionou o festival. Lucão não se interessou. Semanas depois, o mesmo amigo o chamou em casa com a desculpa de entregar umas cordas de violino. Quando Lucão abriu o envelope que estava esperando por ele, encontrou a ficha de inscrição do festival, já preenchida e paga. O amigo disse apenas: para honrar nossa amizade, vai lá fazer a prova.

Sem professor, com duas semanas de prazo, Lucão baixou uma partitura do IMSLP, buscou vídeos no YouTube de violinistas tocando a mesma peça e estudou quadro a quadro. Levantou o cotovelo? Vibrou desse jeito? Ele copiava, observava, analisava. Doze horas de estudo espalhadas por duas semanas.

Fez a prova. O examinador estava lendo jornal enquanto ele tocava. Lucão voltou para Santos achando que não tinha passado, agradeceu o amigo pela tentativa e seguiu a vida.

Entre o exército e o violino

Naquele momento, a vida de Lucão tinha outras pressões. Ele acabara de se alistar no exército e aguardava a convocação. Seu pai, que foi músico militar, torcia para que o filho seguisse o mesmo caminho. Era um cruzamento de caminhos: a carreira técnica, o serviço militar e o violino, que ainda não tinha peso de profissão na cabeça do jovem Lucas.

O que veio depois, a conversa deixa suspenso por enquanto, mas o começo já diz muito sobre o perfil de quem Lucão é: alguém que chegou onde chegou por curiosidade, por um amigo generoso e por muita dedicação silenciosa.


A trajetória de Lucão é um lembrete de que caminhos profissionais raramente são lineares. De um festival pago por um amigo a primeiros violinos de uma orquestra centenária e vídeos que percorrem a internet, o que fica é a imagem de um músico que nunca parou de absorver, estudar e se reinventar.

Ouça o episódio completo no YouTube: LUCÃO - Podcast do Violino Didático #024

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