Ir para o conteúdo

Lucas Avila: o violinista que renasceu após seis anos longe do instrumento

Podcast Violino Didático

Alguns violinistas constroem trajetórias lineares: começam jovens, estudam sem parar e chegam às grandes orquestras. Lucas Avila não foi um desses. A história dele passa por abandono, depressão, trabalho em fábrica, recomeço solitário e, no fim, uma vaga na Orquestra Sinfônica da Bahia. É uma trajetória que surpreende e inspira.

Natural de São Paulo, Lucas é hoje músico da OSB, professor particular e estudante de bacharelado em violino. Mas para chegar até aqui, ele precisou literalmente começar do zero duas vezes.

A escolha que custou tudo

Aos 23 anos, Lucas era membro da Orquestra Experimental de Repertório, em São Paulo. Num dia de concerto, sua madrasta o avisou: seu pai estava na UTI, pedindo por ele. A decisão foi imediata. Ele largou o concerto e foi ao hospital.

O gesto de amor teve um preço alto. A orquestra não aceitou justificativas, e Lucas foi desligado do grupo. Sem conseguir um documento que comprovasse a emergência médica, ele voltou para casa sem emprego e sem resposta. “Fui convidado a me retirar”, disse ele, com ironia e leveza, ao conversar com Jean de Oliveira.

A partir daí, veio o colapso. Lucas vendeu o violino, um Lorenzo Frittelli com arco francês, por quatro mil reais. E desapareceu do universo musical.

Seis anos longe do instrumento

O período que se seguiu foi duro. Lucas passou por uma depressão profunda, o casamento acabou, e ele foi trabalhar em funções bem distantes da música: fábrica, escritório, office boy, entregas. A sobrevivência virou prioridade.

Mas havia algo que não saía da cabeça. Em determinado momento, um sentimento tomou conta: o desejo de ser reconhecido pelo que realmente sabe fazer. “Bateu um desespero. Aquele sentimento de querer ser valorizado pelo que eu sou, pelo que sei fazer”, contou.

Foi esse incômodo que acendeu a chama de volta.

O recomeço solitário

Com a ajuda do pai, Lucas comprou um violino de dois mil reais e começou a estudar sozinho. Sem professor, sem orquestra, sem estrutura. Pegou o método Ferrara, depois o Kreutzer, e foi revisitando a técnica do zero, no seu próprio ritmo.

“Sabe que é como andar de bicicleta”, disse ele. O conhecimento voltou. E com ele, a determinação.

Ao longo do processo, teve um mês de aulas com Marcelo Soares, músico que ele lembra com gratidão especial. Não foi só pela técnica: Soares apresentou livros, filmes, gravações e ideias que abriram a mente de Lucas num momento crucial. “Uma das pessoas que me ergueram psicologicamente também”, reconheceu.

Além dos estudos, Lucas passou a dar aulas e tocar em eventos. Quando se mudou para Salvador, já tinha quinze casamentos fechados e pagos.

O teste do biombo na Sala São Paulo

Em 2017, a Orquestra Sinfônica da Bahia abriu vagas por todo o Brasil. Lucas se inscreveu no processo seletivo, realizado na Sala São Paulo, e concorreu com algo entre 35 e 40 violinistas.

A primeira fase foi com biombo: uma estrutura que impede os avaliadores de ver quem está tocando, garantindo imparcialidade. Lucas tocou Mozart como, segundo ele mesmo, nunca havia tocado antes.

Quando saiu, o segurança que abriu a porta disse: “Cara, você foi muito bem.” Aquela frase simples carregou um peso enorme. E o resultado veio: Lucas passou, e partiu para a Bahia para uma nova fase da vida.

Entre o palco e a sala de aula

Hoje, Lucas divide o tempo entre a orquestra, as aulas particulares, presenciais e online, e o bacharelado em violino na Universidade Federal da Bahia. A escolha de cursar a graduação tem um propósito claro: ele quer ensinar.

“Eu gosto muito de dar aula. Quero passar o conhecimento que adquiri e mostrar que existe um caminho”, explicou. Quando Jean perguntou se ele preferia tocar ou ensinar, Lucas foi honesto: prefere ensinar, embora ame os dois.

Ele tem uma imagem bonita para descrever o que é ser professor: “É quase como um escultor. Você tem aquela matéria viva que é o aluno e vai moldando um violinista.” Segundo ele, o prazer de ver alguém crescer supera o aplauso do público.

Essa convicção foi reforçada por uma experiência recente. Durante uma visita à família em São Paulo, ele colocou o violino nas mãos do marido da sobrinha, que nunca havia tocado. Numa só aula, o rapaz executou um staccato sem que Lucas precisasse pedir. “Você realizou meu sonho”, disse o aluno. Lucas ficou emocionado.

O pai, o violino e os anos de saudade

A visita a São Paulo que permitiu o encontro com Jean também tinha outro significado. Lucas estava visitando o pai, que não via há anos. A distância, explicou, é uma combinação de rotina intensa entre orquestra, faculdade e aulas, com a dificuldade natural de parar e priorizar a família.

Quando chegou e encontrou o pai, foi o que chamou de “o maior momento de amor da minha vida”. Jean não deixou passar: lembrou que foi exatamente pelo pai que Lucas perdeu o emprego anos atrás. A trajetória fechou um ciclo.

Em casa, Lucas também tenta ensinar violino à filha de sete anos. Ela gosta, quer tocar hinos da igreja, mas parou porque acha o violino pequeno demais. O plano é comprar um instrumento maior para renovar o entusiasmo dela. “Nunca exigi que estudasse”, disse ele. “É uma forma bem lúdica.”

Uma história que vale a pena conhecer

A trajetória de Lucas Avila é o tipo de história que desafia qualquer ideia de caminho certo na música. Seis anos sem tocar, violino vendido, depressão enfrentada e superada, recomeço sozinho com um método antigo e muita teimosia. E depois, uma vaga numa das grandes orquestras do país.

Não é uma história de talento natural. É uma história de volta, de escolha e de amor ao instrumento mesmo quando ele parecia irrecuperável.

Ouça o episódio completo no YouTube: LUCAS AVILA - Podcast do Violino Didático #027

Continue lendo