Luiz Amato: câmara, orquestra e a formação do violinista brasileiro
Um professor que carrega o violino sempre à mão
Luiz Amato é um daqueles músicos cuja trajetória não cabe num currículo de uma página. Professor em grandes universidades brasileiras, violinista de câmara, compositor e arranjador, ele chegou ao estúdio do Violino Didático em Cotia depois de encarar a Raposo Tavares, uma rodovia que os frequentadores já apelidaram de “Raposo Travas”.
A conversa com Jean de Oliveira começou exatamente assim: com trânsito, atalhos desconhecidos e o bom humor de quem já conhece bem aquela estrada.
O Quintal Brasileiro e o acaso de uma noite em Carapicuíba
Antes de qualquer pergunta formal, Jean revelou algo pessoal. O primeiro conjunto de câmara que ele se lembra de ter assistido na vida foi o Quintal Brasileiro, num teatro que é “quase um corredor” no centro de Carapicuíba.
Amato ficou surpreso com a coincidência. O Quintal foi até lá graças a um ProAC que o grupo ganhou, e a escolha da cidade não foi aleatória: Adriana Holtz, parceira musical de Amato no duo que hoje é seu projeto de maior peso, morou muitos anos em Carapicuíba. Ela fez a USP inteira de lá, pegando trem até a Barra Funda e fazendo baldeações. “A gente fez questão de ir lá porque Carapicuíba é uma cidade culturalmente sofrida, cidade dormitório”, explicou Amato.
O grupo nasceu por volta de 2003 ou 2004. A ideia inicial era um quarteto, tradição mais consolidada no repertório clássico. Mas Amato começou a pensar em algo diferente. “Puxa, tem tanta coisa legal para câmara e não tem Quinteto. Por que não Quinteto?”
Um disco feito de flashes e amizades
O primeiro CD do Quintal se chama “Abstrações” e foi gravado com Fabinho Nascimento, que mais tarde faleceu. A proposta era incomum: Amato contatou amigos compositores, profissionais ou não, e pediu que escrevessem peças curtas para o grupo. “Eu queria flashes das ideias. Pedi de propósito para ninguém escrever muito.”
O resultado reuniu nomes como Mozar Melo, jazzista que Amato descreve como “incrível”, e Mario Manga, figura central do Prêmier e que raramente escrevia para cordas. O disco carrega essa diversidade no nome: pequenas abstrações, visões rápidas de compositores que não eram do métier da música de câmara clássica.
Há uma exceção marcante no encarte. O compositor Hermeto Pascoal, ao ser convidado, não mandou uma peça curta. Em quatro dias de Carnaval, entregou “Música Noturna em Aurora”, com cerca de 12 ou 13 minutos. “Destoa porque todas as outras são curtinhas e ele manda uma peça linda, maravilhosa.” A gravação aconteceu no próprio estúdio de Hermeto.
Depois da saída de Fabinho e da entrada do rabequeiro Wesdras, o grupo tomou um viés ainda mais brasileiro. Amato passou a escrever mais para o conjunto. O quarto disco estava pronto para ser lançado quando a pandemia chegou e travou os planos de uma turnê nacional.
Da Municipal aos estudos no exterior
Amato entrou na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo em 1984, no mesmo concurso que Nadilson Gama. Ficou até 1989 e descreve o período como “uma delícia”. Mas algo o incomodava.
“Eu sentia que estava um pouquinho parado. Sempre fui mais da música pela música.” Essa inquietação foi o que o empurrou a buscar mais.
Nesse período, ele também havia entrado na Poli USP, no curso de engenharia civil. O pai, dono de uma construtora, ficou tão feliz que presenteou o filho com um fusquinha. O violino e a engenharia coexistiram por um tempo, com Amato viajando todo fim de semana para o Rio de Janeiro para ter aulas com o professor Lenninger, na Universidade Federal.
A matemática, porém, não fechava. “Você chegava naquelas aulas com as lousas cheias de Cálculo 1, 2, 3, 4, Física 1, 2, 3, 4. Se você não estudava o fim de semana inteiro, não conseguia fazer o curso.” Ele largou a engenharia. O fusquinha foi junto.
“Quando eu saí, ele chorava de raiva”, conta Amato sobre a reação do pai, com o bom humor de quem sobreviveu à história.
O repertório que ninguém fala abertamente
Um dos momentos mais reveladores da conversa foi quando Amato descreveu o que levou para sua audição nas grandes orquestras: o primeiro movimento do Concerto de Beethoven, dois Caprichos de Paganini, alguns Kreutzers e um repertório que ele mesmo classificou como “limitadíssimo”.
A confissão veio com uma reflexão direta. Jean apontou que muita gente entra nas maiores orquestras do Brasil com um repertório parecido, e Amato confirmou sem hesitar.
Ele foi além e identificou um padrão que considera especialmente forte em São Paulo: anos de técnica pura, sem o acúmulo de repertório que deveria caminhar junto. “Fiz técnica, técnica, técnica por muito tempo. Não me arrependo necessariamente, mas poderia ter sido de outra forma.”
A conclusão que ele oferece é prática, quase um mapa para quem quer seguir carreira. “Para tocar em orquestra, na real, é isso que você precisa: um movimento rápido e lento de Brahms, um Capricho de Paganini e um concerto romântico como Mendelssohn. Pronto.” E mais: é preciso rodar muito esse repertório, aprofundando-se nele de verdade.
“O que faz a cabeça do violino, aliás de qualquer instrumento, é repertório.”
A formação que veio depois
Com o peso da engenharia abandonada e a certeza de que precisava evoluir, Amato foi para os Estados Unidos em 1989. Estudou na New England, fez mestrado e uma especialização. Quando chegou à sala de aula lá fora, com o repertório que tinha, a experiência foi ao mesmo tempo humilde e transformadora.
Essa trajetória não linear, com paradas, recomeços e desvios por outras áreas do conhecimento, é exatamente o tipo de história que o Violino Didático gosta de trazer à tona. Não porque seja um caminho a seguir, mas porque mostra que o percurso raramente é reto.
Amato construiu, ao longo de décadas, uma carreira sólida como professor universitário, músico de câmara e compositor, mesmo tendo chegado tarde a certos repertórios e largado a engenharia no meio do curso. A música, como ele mesmo disse desde o começo, sempre esteve com o violino na mão.
Ouça o episódio completo no YouTube: LUIZ AMATO - Podcast do Violino Didático #090